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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

“ — Achou em mim alguma coisa que recordou Julieta ou antes o seu ideal. Foi minha voz cantando a ária da Lucia que o atraiu; mas falta-me esse encanto, essa fascinação misteriosa que um momento supôs encontrar.”

Lançando um olhar ao espelho, onde se refletiam as suas formas esplêndidas, ela suspirou:

“ — De que vale minha beleza? Ele não a vê, não a percebe. Julieta não era bonita: seu retrato está muito parecido; agora recordo-me bem dela, de quando passeava no jardim. Entretanto ele a amou. Eu podia ser feia e muito feia, que também me amaria se eu fosse a mulher que ele criou em sua imaginação.”

Mas por que não seria ela essa mulher?

Seu amor cheio de abnegação inspirou-lhe então uma resolução generosa. Sua existência, que já não tinha sedução, nem fim, ela a dedicaria à felicidade do homem a quem amava. Adivinharia o segredo dessa criação ideal da mente enferma de Hermano e a realizaria em si.

Deus lhe daria forças para operar essa nova encarnação. Dominando então o espírito do marido, o restituiria à razão, ao mundo, ao verdadeiro amor; e seriam felizes.

Para isso era preciso, ela bem o compreendia, fazer um sacrifício de sua personalidade; sacrifício doloroso para as almas superiores, que têm uma individualidade e que não podem, a exemplo das outras almas de estalão, despir o seu eu, e receber como a cera o molde da vulgaridade.

Ser outro, negar-se a si mesmo, suprimir-se moralmente, não se pode imaginar mais terrível suplício para uma consciência altiva; e foi a este que Amália se condenou no intento de salvar o marido ou perder-se com ele.

Decerto, naquela moça travessa, risonha, incrédula e leviana, que antes enchia de sua alegria as salas e os divertimentos, ninguém pensara encontrar um ano depois a mulher dominada pela paixão mais sublime, e capaz de um heroísmo de amor raro na vida ordinária.

Semelhante aberração não era senão aparente. Aí nesse contraste manifestava-se o efeito de uma evolução psicológica muito natural. A insensibilidade de Amália fora apenas a infância prolongada de uma alma extremosa que só muito tarde conheceu a paixão.

Em vez de gastar-se nos ensaios precoces de amor, com que as meninas antecipam a adolescência, exalando os perfumes de sua flor, Amália preservara o coração dessa babugem e quando amou foi com todas as energias e arrojos da mulher.

Este romance de Amália, a incompreensível encarnação do delírio de um cérebro enfermo, essa admirável intuição, é que me propus contar; e agora sinto que não o conseguirei.

Como descrever a paciente eliminação de uma alma a despojar-se de sua individualidade para infundir em si o ser imaginário, filho de uma alucinação?

Hermano voltara da cidade. Encontrando-se com ele à hora do jantar, Amália notou a sua expressão esquiva e o olhar suspeitoso que lhe perscrutava a fisionomia. O Abreu sem dúvida contara que ela estivera no gabinete; e o marido receava-se dos efeitos dessa investigação.

O modo expansivo e natural com que o tratou a mulher foi dissipando as suspeitas de Hermano, que por vezes mostrou um contentamento sincero.

Quando se levantaram da mesa, Amália disse ao marido com meiguice:

— Eu tinha tanta vontade de conhecer Julieta!

Hermano disfarçou por delicadeza; mas insistindo a mulher e reiterando perguntas sobre as feições de Julieta, ele foi ao gabinete, donde voltou com uma fotografia colorida. Era a mesma imagem do retrato a óleo.

— Como é bonita! exclamou Amália com um entusiasmo que o seu amor a obrigava a simular.

— Isso é apenas a sombra de sua beleza. Falta-lhe o olhar, o gesto, a voz.

— De que cor eram os olhos?

— A cor... Não sei; mas o olhar ainda o sinto; era como o seu agora, Amália.

A moça corou e as pálpebras rosadas vendaram os seus belos olhos cheios de luz.

Continuaram a conversar acerca de Julieta.

Mais tarde Hermano ficou distraído, absorto. Amália sabia agora o motivo. Eram os sintomas da alucinação que, em certa horas e ocasiões, desvairava o espírito do marido.

A moça foi sentar-se ao piano e abriu a ária do Fausto. Hermano lhe dissera um momento antes que era uma das peças favoritas de Julieta.

Ela cantou; e o marido, que já se tinha retirado, veio sentar-se outra vez a seu lado, e ficou ali preso de sua voz.

À última nota ele estremeceu e partiu. Esse canto era de Julieta, que o chamava.

Capítulo 19

Caía a tarde

Amália e Hermano, sentados no jardim, contemplavam em silêncio as esplêndidas decorações, que os arrebóis desfraldavam no horizonte sobre as encostas da montanha.

A moça afinal curvou a fronte e cerrando a meio os cílios para concentrar-se disse ao marido:

— Ainda havia neste mundo uma felicidade para mim, Hermano; e essa não lhe custaria o menor sacrifício.

O olhar do marido interrogou-a; ela respondeu com a voz súplice:

— Não me pode dar o seu amor; bem o sei, e não o exijo; mas a sua amizade, sua confiança, por que motivo a recusa a quem não tem outro pensamento senão a sua felicidade? Não lhe mereço nem esta prova de estima?

Hermano quis interrompê-la; ela não consentiu:

(continua...)

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