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#Romances#Literatura Brasileira

Diva

Por José de Alencar (1864)

—Não me eleve tanto, para que outra vez não me deixe cair de tão alto!... Esses homens eram apenas livros para mim; às vezes tinha lido na véspera sua cópia impressa. Terá ciúmes, Augusto, dos romances que eu leio? Sofreu vendo-me no teatro assistir à, representação de uma comédia? —Já lhe supliquei meu perdão. Eu estava louco! Ela foi nessa noite e nos dias seguintes de uma bondade inexaurível para mim. Voltamos aos nossos antigos passeios e às conversas íntimas. Eu estava outra vez terno e amante a seus pés, mas orguIhoso e contente do meu triunfo. 

Emília cumprira sua palavra de um modo que eu não ousaria esperar. Apareceu ainda algumas noites em casa de D. Matilde, como para mostrar-me o modo significativo por que despedia os seus adoradores; realmente soube arredá-los a tal distância que nem um deles se animou a voltar. As horas que ali passou esteve completamente isolada, ou perto de mim e ao meu braço. 

Por fim deixou de sair, e fez que cessassem as reuniões em sua própria casa, até nos domingos. Desde então parecia que ela se poupava ao mundo, e guardava toda, para entregar-se sem reserva às expansões de meu amor. 

Assim voaram dous meses de felicidade. 

Durante todo esse tempo, Emília foi de uma submissão e docilidade que me punha sempre atônito, e muitas vezes afligia. 

Tomava para comigo uma atitude de vitima resignada e contrita; parecia que minha vontade a tiranizava, quando era eu mísero quem suportava a tirania de seus caprichos. Mas ela sentia não sei que íntimo prazer em humilhar-se aos meus olhos; e tinha o talento de, cativando-me o coração e o pensamento, insinuar que obedecia ao mínimo aceno meu. 

Sucederam muitos acidentes, como o que te vou referir. 

Encomendava ela à sua modista algum elegante vestido, ou comprava qualquer novidade parisiense recentemente chegada. A primeira vez que nos víamos logo me fazia alguma pergunta neste gênero: 

—Qual é a cor mais de seu gosto? Ou então: 

—Acha bonita a nova moda de vestidos? Respondia-lhe com volubilidade, sem dar grande importância à questão. Acontecia às vezes que o vestido era da cor ou da moda não preferida por mim; ela o imolava sem piedade; em folha, como estava, fazia dele presente a alguma moça, ou sepultava-o nos recantos de uma cômoda. 

Entretanto o vestido era lindo; e fosse feio, que eu o achara divino, trajado por ela. 

Se eu incomodava-me com estes novos caprichos de humildade, tão avessos dos anteriores inspirados no orgulho, e como eles tão imperativos, ela insistia impaciente, e não tolerava da minha parte a mínima observação. Muitas vezes por essa causa nos separamos tristes e magoados. 

Em nossos mútuos devaneios, quando me cabia a vez de falar, vazando as expansões de meu coração cheio, ajoelhava todo meu ser ante o ídolo de sua graça. 

Ela, antes meiga e dócil à minha palavra, já a não escutava; e abstraía-se às ferventes adorações para se refugiar em não sei que penosa e amarga cisma. O que encantara outra mulher, parecia enfastiá-la; derramava-se por seu rosto uma nuvem de tédio e desgosto. 

Quase sempre esquivava-se logo, e deixando-me só alguns instantes, rompia a conversa. 


XVII

FOI ontem. 

Deixara Emília na véspera descontente por causa de um dos nossos conflitos de submissão recíproca. 

Achei-a porém já esquecida dessa pequena contrariedade, e satisfeita. Contudo, tinha certa gravidade no olhar e na fronte que anunciava o peso de muitos pensamentos ali concentrados. 

Falou com sua graça costumada; falou do passado, recordando de leve as fases por que passara nosso amor. Era sua história íntima, o romance de sua alma, que ela esboçava a traços finos e delicados. Depois de comparar sua existência anterior tão agitada com o atual isolamento e tranquilidade, fixou-me nos olhos, enquanto me dirigia com a voz lenta estas palavras: 

—Está satisfeito? Não foi cegamente obedecido? —Oh! Mila! Obedecido, não! Não me atrevia a pedir tanto... 

É uma graça que me concedeu... e eu a recebi de joelhos!... 

—Ah! fez ela com uma expressão indefinível de tédio. 

Geraldo entrava nesse momento. Depois de apertar-me a mão: 

—Diz-me uma cousa, Amaral? Por que razão proibiste a Mila de sair de casa? —Ora, Geraldo! respondi eu enfadado. Nunca hás de ter juízo. 

—Foi ela quem me disse!... 

—D. Emília?... 

—E tu acreditaste! disse Mila ao irmão com um riso irônico. Isto passava-se ontem. 

Hoje à tarde, chegando à sua casa, achei o carro à porta e ela na sala pronta para sair; só esperava por D. Leocádia. 

—Vai sair? perguntei-lhe triste. 

—Não vê? respondeu correndo os olhos pelo seu trajo. 

—Volta cedo? —Não! Vamos ao teatro. 

—Ah!... Tinha-me... prometido não, mas habituado já a vê-la longe do mundo, bonita e risonha só para mim!... 

—É verdade; mas os hábitos sempre continuados afinal trazem a monotonia. 

Tive um terror pânico. Ouvindo as palavras desdenhosas de Emília e vendo-a calçar as luvas, não sei que alucinação foi a minha; se me afigurou que essa moça ia outra vez ser-me arrebatada pela vertigem do mundo; que eu a ia perder, e agora para sempre. 

(continua...)

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