Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)
Um instante depois foi cuidadoso procurar saber a causa do rumor que ouvira. O grito de dor tinha sido, com efeito, soltado por d. Carolina.
CAPÍTULO XIII
Os quatro em conferência
Ninguém se arreceie pela nossa travessa, O grito de dor foi, na verdade, seu; mas, se alguém corre perigo, não é certamente ela. O caso é simples.
Morava com a sra. d. Ana uma pobre mulher, por nome Paula muito estimada de todos, porque o era da despotazinha daquela ilha, de d. Carolina, a quem tinha servido de ama. Os desvelos e incômodos que tivera na criação da menina lhe eram sobejamente pagos pela gratidão e ternura da moça.
Ora, todos se tinham ido para o jardim logo depois do jantar mas o nosso amigo Keblerc achara justo e prudente deixar-se ficar fazendo honra à meia dúzia de lindas garrafas das quais se achava ternamente enamorado: contudo ele pensava que seria mais feliz se deparasse com um companheiro que o ajudasse a requestar aquelas belezas: era um amante sem zelos. Por infelicidade de Paula, o alemão a lobrigou a entrar num quarto. Chamou-a, obrigou-a a sentar-se junto de si, mostrou por ela o mais vivo interesse e depois convidou-a a beber à saúde de seu pai e sua mãe e sua família.
Não havia remédio senão corresponder a brindes tão obrigativos. Depois não houve ninguém no mundo a quem Keblerc não julgasse dever com a sua meiga língua dirigir uma saúde, e, como já estivesse um pouco impertinente, forçava Paula a virar copos cheios. Passado algum tempo, e muito naturalmente, Paula se foi tornando alegrezinha e por sua vez desafiava Keblerc a fazer novos brindes: em resultado, as suas garrafas foram-se. Paula deixou-se ficar sentada risonha e imóvel, junto à mesa, enquanto o alemão, rubicundo e reluzente se dirigiu para a sala.
Quando daí a pouco a ama de d. Carolina quis levantar-se, pareceu-lhe que estava uma nuvem diante dos olhos, que os copos dançavam, que havia duas mesas, duas salas e tudo em dobro; ergueu-se e sentiu que as paredes andavamlhe à roda, que o assoalho abaixava-se e levantava-se debaixo dos seus pés; depois... não pôde dar mais que dois passos, cambaleou e, acreditando sentar-se numa cadeira, caiu com estrondo contra uma porta. Logo confusão e movimento... Ninguém ousou pensar que Paula, sempre sóbria e inimiga de espíritos, se tivesse deixado embriagar, e, por isso, correram alguns escravos para o jardim, gritando que Paula acabava de ter um ataque.
A primeira pessoa que entrou em casa foi d. Carolina que, vendo a infeliz mulher estirada no assoalho, caiu sobre ela, exclamando com força:
— Oh, minha mãe!... Foi este o seu grito de dor.
Momentos depois, Paula se achava deitada numa boa cama e rodeada por toda a família; porém havia algazarra tal, que mal se entendia uma palavra.
— Isto foi o jantar que lhe deu na fraqueza, gritou uma avelhantada matrona, que se supunha com muito jeito para medicina; é fraqueza complicada com o tempo frio… não vale nada... venha um copo de vinho!
E dizendo isto, foi despejando meia garrafa de vinho na boca da pobre Paula que, por mais lépida e risonha que fosse engolindo a largos tragos, não pôde livrarse de que a interessante Esculápia lhe entornasse boa porção pelos vestidos.
— São maleitas! exclamava d. Violante, com toda a força de seus pulmões... São maleitas! ... Quem lhe olha para o nariz diz logo que são maleitas! Eu já vi curarse uma mulher, que teve o mesmo mal, com cauda de cobra moída, torrada e depois desfeita num copo d’água tirada do pote velho com um coco novo e com a mão esquerda, pelo lado da parede. E fazer isto já.
— São lombrigas! gritava uma terceira.
— É ataque de estupor! bradava a quarta senhora.
— É espírito maligno! acudiu outra, que foi mais ouvida que as primeiras... E espírito maligno que lhe entrou no corpo... Venha quanto antes um padre com água benta e seu breviário.
— Ora, para que estão com tal azáfama?... disse uma senhora que acabava de entrar no quarto; não se vê logo que isto não passa de uma mona, que a boa da Paula tomou? Olhem; até tem o vestido cheio de vinho.
— Mona, não senhora! acudiu d. Carolina; a minha Paula nunca teve tão feio costume, e, se está molhada com vinho, a culpa é desta senhora, que há pouco lhe despejou meia garrafa por cima. Oh! é bem cruel que, mesmo vendo-se a minha dor, digam semelhantes coisas!
No meio de toda esta balbúrdia era de ver-se o zelo e a solicitude da menina travessa! ... Observava-se aquela Moreninha de quinze anos, que parecera somente capaz de brincar e ser estouvada, correndo de uma para outra parte, prevenindo tudo e aparecendo sempre onde se precisava apressar um serviço ou acudir a um reclamo. Só cuidava de si quando devia enxugar as lágrimas.
Junto do leito apareceram os quatro estudantes.
Curto foi o exame. O rosto e o bafo da doente bastaram para denunciar-lhes com evidência a natureza da moléstia.
— Isto não vale a pena, disse Filipe em tom baixo a seus colegas; é uma mona de primeira ordem.
— Está claro, vamos sossegar estas senhoras.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. A Moreninha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16667 . Acesso em: 1 jan. 2026.