Por Franklin Távora (1878)
Eu não me levanto se Victorino não se levanta – disse Manoel Francisco a modo de contrariado por ter encontrado no contendor força com que não contara. Eu não me levantarei senão depois da sua queda – respondeu Victorino sem se alterar, antes com evidente serenidade.
- Levantam-se ambos, que já é tarde, e vem por ai o Valentão-do-Timbaúba.
O Valentão-do-Timbaúba! exclamaram os rancheiros, pondo-se de pé, inclusivamente os dois lutadores, que se separaram e com a vista percorreram como sobressaltados todo o âmbito do alpendre.
- Quem disse que ele vem ai? perguntou Victorino.
- Digo eu – respondeu Francisco. Por isso é preciso estar preparado para o receber.
Se vier, há de encontrar gente. Somos onze. Não há de chegar um pedacinho dele para cada um de nós.
Pelo sim, pelo não – disse Thomaz – vou pôr nova escorva na minha espingarda. Vendo Thomaz encaminhar-se para o lugar onde estava encostada a arma a que aludira, Francisco rindo, atirou-se dentro da rede e disse aos companheiros ainda sobressaltados:
- Qual valentão, nem meio valentão! Rezem-lhe pela alma.
- Ele morreu?
- Morreu, sim senhor, e ficou bem morto.
- Você está gracejando, Francisco.
- Estou falando serio. Vou contar como o caso foi.
O Valentão-da-Timbaúba era um malfeitor que por aquele tempo cometi roubos e assassinatos na redondeza de muitas léguas de Pasmado. Esta alcunha foi-lhe dada pelo povo. Seu nome era Valentim. Não teve a fama extensa do Cabeleira, ao qual foi muito inferior na índole natural, na coragem e no físico; mas no pequeno teatro das suas façanhas adquiriu tamanha celebridade, especialmente nos ranchos, que de seu nome e feitos ainda hoje restam ai lembranças enlutadas.
Era mais ladrão do que assassino; usava primeiro o subterfúgio, o laço, a astucia, que a arma mortífera; mas, quando a manha não bastava, ou quando era surpreendido antes do resultado em que pusera a mira, então o encontravam facinoroso, cruel. Esfaqueava, matava, contanto que se apossasse do alheio que excitará a sua cobiça.
Era cabra-negro, magro, anguloso. Tinha os olhos vermelhos, as orelhas largas, o queixo fino, a barba espalhada e carapinha. Havia nele alguma coisa do vampiro. Mas a voz, que aliás era áspera e estridente, ele adocicava e abemolava por tal jeito que quem o não conhecesse, o teria por inofensivo e lhe daria esmola se ele a pedisse, o que muitas vezes praticou para se disfarçar.
Em luta pessoal com outro valentão, recebera deste uma facada no olho direito. De outra vez levou-o ás portas da morte um tiro que lhe desfechará sobre a perna esquerda certo sertanejo, a quem roubará objetos de valor, e de cujas mãos conseguiu escapar, não obstante o ferimento. Resultou destes desastres ficar torto e coxo, o que se por um lado lhe diminuiu as faculdades do movimento e da inspeção, lhe aumentou pelo outro os meios e pretextos de iludir e explorar a credulidade dos transeuntes.
Morava ele em uma palhoça que distava três a quatro léguas de Maricota, obscura povoação que o forte combate de que em 1848 foi cenário, entre as forças praieiras e as do governo, tornou ilustre e histórica. Valentim levantará de intenção sua morada naquelas alturas para comodidade nos seus latrocínios.
O comboio que por ali passava duas ou três horas antes do pôr do sol, tinha de sujeitar-se a uma destas duas alternativas: ou pedia rancho na própria casa do malfeitor e pagava caro a hospedagem, deixando de ordinário um cavalo, uma saca de lã, uma barrica de açúcar ou de bacalhau, que no dia seguinte nenhum esforço, por maior que fosse, era bastante a descobrir; ou ia descarregar adiante; á sombra de alguma arvore, e o tributo vinha a ser mais pesado ainda do que o primeiro, visto que, por escusas veredas, o ladrão ia ter ao rancho, e em vez de um, trazia dois ou três cavalos, duas ou três sacas, enfim muitos objetos de grande valor. Valentim vingava-se com usura de quem procurava escusar-se ao tributo que ele cobrava no deserto.
É curioso o estratagema que ao principio usava para enganar a vigilância e a simplicidade dos rancheiros. A’hora que conjeturava estarem todos já deitados, aparecia no pouso sorrateiramente e com voz melíflua e vagarosa dizia estas palavras, que eram há bem pouco tempo tradicionais naqueles caminhos:
- Coitados dos comboieiros! Como estão enfadados!
Assim falando e repetindo sempre com razoáveis intervalos, estes fingidos e traiçoeiros dós, metia-se por entre as redes dos rancheiros, muitas vezes passando de leve a mão esquerda por cima deles, enquanto com a direita apanhava muito naturalmente as esporas ou a faca aparelhada de prata, a maca onde vinha o melhor fato e alguma vez jóias preciosas e dinheiro, o relógio, que descansava sobre uma mala, o gibão novo que estava pendente do galho da arvore ou do punho da rede.
Tal era aquele cujo fim trágico Francisco se propôs contar aos companheiros.
Para melhor ouvirem a narração, reuniram-se os matutos ao pé do narrador, uns fumando em cachimbos de barro, outros comendo da matalotagem que traziam em mochilas de algodão ainda hoje em uso entre esta espécie de gente por ocasião de suas jornadas.
II
Francisco principiou assim:
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.