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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

Retirada na solidão da fazenda paterna, desde que saíra da escola, Lúcia crescera como o arbusto do deserto, desenvolvendo em plena liberdade todas as suas graças naturais, e conservando ao lado dos encantos da puberdade toda a singeleza e inocência da infância.

Lúcia não tinha uma dessas cinturas tão estreitas que se possam abranger entre os dedos das mãos; mas era fina e flexível. Suas mãos e pés não eram dessa pequenez e delicadeza hiperbólica, de que os romancistas fazem um dos principais méritos das suas heroínas; mas eram bem feitos e proporcionados.

Lúcia não era uma dessas fadas de formas aéreas e vaporosas, uma sílfide ou uma baiadeira, dessas que fazem o encanto dos salões de luxo. Toma-la-íeis antes por uma das companheiras de Diana, a caçadora de formas esbeltas, mas vigorosas, de singelo mas gracioso gesto.

Todavia era dotada de certa elegância natural, e de uma delicadeza de sentimentos que não se esperaria encontrar em uma roceira.

Esses dotes ela os devia em parte ao céu, que tanto a favorecera, e em parte à sua mãe, mulher espirituosa e sensível, e que se esmerava em dar-lhe uma excelente educação, que Lúcia procurava transmitir à sua pequena irmã, desde o berço.

Quanto ao Major, homem de espírito acanhado, frio e positivista, mas boa alma, o melhor dote que julgava poder dar ás suas filhas era dinheiro e só dinheiro.

A gentil sertaneja bem raras vezes ia à vila do Patrocínio; sua vida deslizava-se naquele ermo tranqüila e uniforme, como o murmúrio monótono de uma fonte, e sua alma era pura e alegre como manhã de abril, plácida e serena como uma noite de luar. Mas a vida não lhe corria inativa, e nem seu coração estava vazio.

Além de sua irmãzinha, em quem concentrava as suas mais ternas afeições, e a quem servia de mestra e de mãe na falta da verdadeira, que há muito haviam perdido, eram seus cuidados uma linda e mansa vaquinha favorita, da qual todos os das com suas próprias mãos tirava o alvo e espumante leite; eram suas pombas, seu pequeno jardim, e seu lindo oratório, que sempre trazia enfeitado de frescas e fragrantes flores, e em que todas as noites, com sua irmãzinha ao lado, rezava por alma de sua mãe.

Lúcia tinha prazer todas as vezes que se oferecia ocasião de ir à vila a qualquer festa, ou simplesmente para ouvir missa. Era uma agradável interrupção à sua vida monótona de roceira; ia espairecer um pouco seu espírito na sociedade, ia ver e gozar da companhia de suas amigas de escola. Mas, passados alguns dias, começava a sentir saudades de sua vaquinha, de suas pombas, de suas flores e de seu oratório.

Naquela ocasião, em que havia festas esplêndidas e arrojadas, como há muitos anos não se faziam naquele lugar por ocasião do aniversário da independência, havia ainda mais um incentivo, e pode-se fazer idéia da alegria infantil com que Lúcia e Júlia faziam os preparativos da pequena viagem, e da impaciência com que esperavam o dia da partida.

Para Lúcia havia ainda mais um poderoso motivo de emoção e alegria. O gentil mancebo, que pousara em sua casa, e que ia correr nas cavalhadas, não lhe saía da lembrança. Ao pensar nele Lúcia sentia no coração um alvoroço estranho, como nunca sentira em dia de sua vida.

II - A CAVALHADA

A vila do Patrocínio está em uma das mais lindas e aprazíveis situações. Ocupa o alto e os lançantes de uma colina de pendor suave, encostada de um lado ao topo de uma serra, e gozando pelos outros lados da mais risonha e extrema perspectiva de largos e formosos horizontes.

Nas vésperas da festa, a que nos reportamos(há de haver mais de vinte anos), a alegre e faceira vila estava mesmo louçã e garrida, como menina da roça, que se enfeita com alegre sofreguidão para ir à festa na povoação vizinha. As fazendas e arraialetes, num raio de dez léguas em redor, tinham ficado despovoados. As casas da pequena vila já não eram suficientes para acomodar tanta gente; os ranchos improvisados e cobertos de capim; as barracas e os carros de bois, outras barracas ambulantes, com seu toldo de couro, agrupados em desordem pelas Campinas e vargedos vizinhos, abrigavam uma multidão de famílias sertanejas, que ao sol sempre brilhante daquelas paragens, onde se desconhecem as neblinas e aguaceiros, alardeavam seus vestidos de cores vivas e variegadas, seus grossos rosários e trancelins de ouro com pesados relicários e medalhas pendentes do pescoço, derramando-se pelo seio com incrível profusão. Os rapazes montados em lindos poldros ou em possantes mulas ajaezadas de prataria, as esporeavam pelas ruas, procurando fazer admirar as excelentes qualidade de suas cavalgaduras, e o seu desempenho e galhardia em dirigi-las. As violas, violões e guitarras ressoavam por todos os cantos daquela vila que sempre foi notável por seu gosto pelas sinfonias e serenatas.

(continua...)

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