Por Bernardo Guimarães (1869)
— Por certo, respondi-lhe eu; muito tenho ouvido falar nessa afamada romaria, e, segundo tenho ouvido dizer, é uma das mais bonitas e concorridas que temos.
— Sem dúvida alguma. É uma maravilha que é preciso ver-se para dela formar uma perfeita idéia. Ainda que não seja por devoção, mesmo por espírito de curiosidade vale a pena fazer-se essa viagem para ver como aquele lugar completamente desabitado no fundo dos sertões, onde apenas existe uma capelinha e um casebre sem habitantes, converte-se de repente em uma cidade cheia de vida, de rumor e movimento, composta de barracas, toldas, carros-debois, e ranchos cobertos de capim. Reúne-se ali todos os anos, na época da festa, uma população de cerca de dez mil pessoas, que vêm de distâncias enormes, até do Pará e Rio Grande do Sul, umas por devoção e para cumprirem promessas, outras para fazerem comércio, pois que nesses dias aquele lugar torna-se uma feira imensa, onde se compra, vende-se e permuta-se toda a qualidade de mercadorias. Aí os sertanejos do norte de Goiás, e das extremas das províncias da Bahia, Pernambuco, Piauí e Maranhão, vão-se prover de fazendas, quinquilharias, ferragens e vinhos que compram aos negociantes de Meia Ponte e Goiás que conduzem daquele ponto essas mercadorias. Os romeiros também vendem aos negociantes destas duas cidades, e aos de Minas e S. Paulo, grande quantidade de couros, solas, animais cavalares, redes fabricadas pelos índios, escravos, ouro em pó e diamantes.
A importância do produto da venda dos donativos feitos pelos romeiros anda anualmente por 8 a 10 contos, não incluindo-se nessa quantia as dádivas em dinheiro, que também muito avultam.
Mas todo esse movimento e animação dura apenas de seis a oito dias, findos os quais desarmam-se as tendas dos peregrinos, e o Muquém, como um acampamento abandonado, volta ao silêncio e à solidão, ficando de novo a capelinha isolada em meio daqueles tristes e silenciosos ermos.
— E o senhor, disse-lhe eu, desculpe-me a curiosidade, o senhor foi lá simplesmente por devoção e romaria, ou também a negócio.
— O meu fim principal, respondeu, foi o cumprimento de uma promessa feita por minha mulher, que se achando atacada de uma enfermidade cruel, que zombava de todos os remédios e da ciência dos mais abalizados médicos, lembrou-se de implorar a Nossa Senhora da Abadia remédio a um mal de cuja cura os homens tinham desesperado. Pouca ou nenhuma fé eu tinha então nessas promessas e romarias, que considerava como superstições próprias somente do vulgo ignorante. Todavia minha mulher mostrava tanta confiança e fé tão viva que eu nem de leve ousei contrariá-la para não agravar-lhe os sofrimentos.
Prometermos vir ambos em romaria à capela de Nossa Senhora da Abadia do Muquém trazer alguns donativos e adorar a santa em seu próprio altar. Desde então começou minha mulher a melhorar sensivelmente, e acha-se hoje quase completamente boa. Por prudência porém assentamos que ela não viesse ainda este ano; vim eu somente cumprir parte das promessas; mas para o ano, se Nossa Senhora da Abadia continuar a proteger-nos, voltarei com ela, e enquanto eu for vivo, todas as vezes que as circunstâncias o permitirem, hei de fazer uma peregrinação ao Muquém, ainda que não seja senão para depor um simples ramo de flores e rezar uma Salve-Rainha aos pés daquela milagrosa Senhora.
— Muito se fala por toda a parte, repliquei eu, nos milagres de Nossa
Senhora da Abadia do Muquém; mas o que acho aí de mais notável e singular é que fossem edificar essa capela e fundar essa romaria lá no fundo de um sertão remoto, podendo ser erigida em qualquer localidade mais vizinha de povoados.
— Essa localidade não foi escolhida por ninguém, e segundo conta a lenda, foi indicada pelo céu para nela se edificar a capelinha que aí existe. O senhor, pelo que vejo, não sabe a história de sua fundação.
— Não, senhor; apenas tenho ouvido alguma coisa de uns e outros a esse respeito muito por alto e vagamente.
— Pois não deixa de ser curiosa e interessante essa história; e se não se enfadam de escutar-me, eu a contarei com muito gosto, posto que seja algum tanto longa.
— Ainda que a narração tenha de durar a noite inteira, não nos enfadará, e o escutaremos com muito prazer. Da minha parte perderia de bom grado duas noites de sono só para ouvir essa história.
A proposição do viajante foi aceita pois por mim e por meus companheiros com o mais vivo prazer. De feito, quem não gostará, ao descair de uma noite pura e silenciosa, em um aprazível e tranqüilo pouso em meio das solidões, recostado preguiçosamente em uma rede a fumar um bom cigarro depois de ter saboreado uma xícara de café, quem não gostará de escutar a narração de uma lenda popular?
O sol já tinha desaparecido inteiramente do horizonte; sombra, fresquidão e melancolia desciam sobre a terra no manto cinzento do crepúsculo.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.