Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Os primeiros personagens de O Moço Loiro que o autor nos apresenta, rapazes da melhor sociedade fluminense, acham-se no restaurante de famoso hotel da Rua Direita, e participam da exaltada discussão que ali se travava – ali e em toda a cidade – entre delmastristas e candianistas, isto é, entre os partidários da Delmastro e os da Candiani, duas cantarinas do teatro lírico italiano, cujos espetáculos pode-se dizer que empolgavam e apaixonavam a opinião pública. Conforme já tem sido observado, a predileção do público fluminense pelo teatro se tornou uma das características da vida social de todo o Segundo Reinado. Temos prova disso nas freqüentes referências ao teatro e à gente de teatro – desde os grandes nomes da ópera e do drama até às alegres francesas do Alcazar – que encontramos nas obras de ficção dos melhores escritores desse período, quase todos, de resto, igualmente homens de teatro, como é justa mente o caso de Macedo, dramaturgo e comediógrafo dos mais aplaudidos. Na releitura e leitura que fiz agora dos dois romances e das duas novelas, que estamos aqui percorrendo, marquei mais de uma passagem dessa natureza. O primeiro capítulo de O Moço Loiro se intitula mesmo “Teatro Italiano” e, tendo começado por aquela discussão no hotel da Rua Direita, transcorre quase que até ao fim dentro do teatro onde se representava a Ana Bolena de Donizetti. Nas páginas iniciais d’A Moreninha, os estudantes reunidos numa “república” falam em assistir ao “primeiro drama novo que representar o nosso João Caetano”. Estávamos na época do teatro supersério, quando só a tragédia ousava fazer concorrência a ópera. Já no tempo de Os Quatro Pontos Cardeais e de A Misteriosa a nota dominante, pelo menos entre certa camada de freqüentadores de teatro, era fornecida pelo Alcazar, que deixou fama bastante escandalosa nos anais da cidade.
Fora do teatro, a sociedade só podia normalmente se divertir dentro de casa, nos saraus e partidas familiares, então muito mais numerosos e freqüentes do que hoje, ao que suponho, e com certeza muito diferentes, sob vários aspectos, dos de hoje. Dançava-se a quadrilha, a valsa de corrupio, a polca de sapateado. No intervalo das danças, a gente mais jovem se entregava aos jogos de prendas; ao passo que a gente de mais idade, ou mais viciada, não só nos intervalos, mas durante todo o baile, jogava o gamão, o voltarete, o écarté – quase sempre a dinheiro. Costume outrora generalizado e penso que inteiramente perdido, desde muito, era o do chá servido à noite, antes de dormir. Jantava-se então muito cedo, de sorte que por volta das dez horas da noite servia-se o chá na sala de jantar, ou a todos os convidados, quando se tratava do final de um sarau, ou, diariamente, a toda a família e a alguns convidados mais íntimos, parentes e amigos. Sobre o chá servido ao terminar um sarau de casa rica, assim se exprime o romancista, no O Moço Loiro: “O chá começou a servir-se às dez horas e meia da noite; a hora do chá é, nos saraus, a hora das satisfações, dos longos cumprimentos, e de certos prazeres que lhe são muito peculiares.” Muitas vezes, fosse nos saraus, fosse em família, a modinha e o recitativo vinham completar tais prazeres. Ainda no Moço Loiro se diz que numa dessas reuniões familiares – “depois do chá, D. Inácia cantou uma modinha, D. Rita – um romance, e Brás-mi moso – um lundu”. O lundu e a modinha andavam no próprio ar que as moças casadouras e sentimentais respiravam. O lundu está esquecido e é hoje apenas objeto de pesquisas por parte de eruditos e especialistas; e a modinha, na sua feição própria, tradicional, vai pelo mesmo caminho, reformada ou deformada, na sua expressão mais íntima. Coisa, afinal de contas, muito natural: estamos na era prodigiosa da eletricidade, e ninguém pode pretender conservar imutavelmente o sentido e o sentimento de ritmos antigos sob a forma industrial do disco e do rádio. E ainda bem – atrevo-me eu a acrescentar.
O que não encontrei, neste Macedo que andei agora relendo ou
lendo, foi a menor descrição de festas ou cerimônias religiosas, nem de festas
populares de outra natureza. O senso do folclórico não era certamente o seu
forte, pois a não ser as referências e até a transcrição literal de modinhas e
lundus, nada mais nos mostra o romancista neste sentido.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.