Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
- « _ Que vem fazer ?... Ah! senhor, vem vestir a mim e a meus filhos ; vem ajoelhar-se aos pés daquella cama velha, e com suas mãos tão finas e mimosas banhar os pés de meu filho doente ! vem dizer-lhe palavras de amor, e fazel-o tomar remedios sem chorar, nem contrafazer-se; vem animar-nos a fé e accender-nos a esperança, e sempre acha occasião para, sem que ninguém a veja, deixar uma boa somma de dinheiro em baixo do meu travesseiro.
- « — E como se chama?...
- « — Ella diz que se chama minha irmã,
- « — Irmã dos pobres ! é.isso mesmo : estou definitivamente casado.
- « — Ah ! senhor!
- « — Onde mora ella?
- « — Não o quer dizer.
- « — É bonita ?...
« — Oh ! se o è... e que graça,., e que voz... e que olhos !...
« — Exactamente !... eu a sonhei tal e qual.
« — Tal e qual, como, senhor?...
« — Tal e qual como ella é ; boa duvida!
« — E o senhor sabe como ella é ?...
« A pergunta da velha embatucou-me; como não tive que responder, desviei-me da questão
« — E vós quem sois, boa mulher ?... contaime a vossa historia.
« — A minha historia é bem simples, disse a velha; moça pobre, tive a fortuna de me casar com um excellente homem ; era um bom carpinteiro que ganhava com a sua incho bastante para sustentar a sua família ; tinha sido voluntario da independencia, bateu-se nobremente por ella, e ganhou a sua medalha da campanha da Bahia ; ha cinco annos adoeceu, e ficando alguns mezes de cama, acabou mais de miseria do que da molestia; ninguém se lembrou d'elle!.. Se eu tivesse uma bandeira nacional para amortalhalo!... mas não tive : embrulhei o seu cadaver no ultimo lençol que nos restava, e pendurei a seu pescoço a medalha da independencia ; a Misericordia fez o resto, enterrando o corpo do antigo soldado; creio que ninguém reparou na medalha e foi bom isso.
« — Porque ?...
« — Porque os vivos havião de envergonhar-se do morto.
« A velha, apezar de pobre, fallava como um deputado.
« — E depois?... perguntei.
« — Depois, senhor, vivi e sustentei meus quatro filhos como pude : Deus me protegeu até hoje, e continua sempre a proteger-me ; mas, confesso o meu grande peccado : quando rebentou esta peste maldita, evi dous de meus filhos cahidos, quasi que desesperei!... Felizmente um anjo de caridade entrou-me em casa, e comsigo me trouxe a esperança e a coragem.
« — E esse anjo ?
« — Sahio daqui, ha pouco.
« _ Sim, bem sei ; mas, boa mulher, eu tenho absoluta necessidade de saber quem elle é, como se chama, e onde mora...
« — Como posso eu dizel-o ?...
« — Oh ! mas se é essencial !... eu devo casarme com aquella senhora ; é uma cousa decidida.
« — E possivel, senhor !...
« — Falta-me só conhecel-a ..
« — A velha olhou para mim espantanda; sem duvida alguma pensou que tinha diante de si algum doido ; receiando porém offender-me com o seu olhar, baixou a cabeça, e apanhando um fio de .seda que encontrara a seus pés, começou a enrolal-o por entre os dedos.
« Bem se diz que ás vezes a fortuna pende de um fio!
« Vi a minha felicidade pendendo d'aquelle fio de seda.
« Lembrei-me da bolsa de seda.
« — Boa velha, creio que o fio que enrolaes nos dedos foi da bolsa de seda, que o vosso anjo de caridade tecia.
« É verdade.
« Então essa bella senhora, quando vera a esta casa, costuma trazer algum trabalho para se entreter, não ?...
« Ah, não, senhor : ella ás vezes demora-se aqui uma, duas, e até três horas, conforme julga necessario, para prestar-nos soccorro; e ha alguns dias apenas traz essa bolsa que está tecendo, segundo diz, para dal-a de presente a uma amiga que faz aimos domingo.
« — Domingo ? depois d'amanhã ?...
« — Sim, senhor.
« — Bravo ! vou saber quem é esse anjo de caridade ; domingo é o dia do leilão a favor da pobreza, e a bolsa de seda. não se destina a outro fim ; já conheço a côr da tal bolsinha... vou encontrar e conhecer minha mulher !
«A velha tornou a olhar-me com sorpresa e talvez piedade; e eu que não tenho nem a delicadeza, nem a graça das senhoras, em vez de fazer escorregar algum dinheiro para baixo de travesseiro da velha, lancei-lhe no collo a minha carteira, e sahi pela porta afora, meio atrapalhado com as bênçãos e com os agradecimentos da pobre mulher.
« Em vez de ir para o theatro, fui logo direito para casa, onde encontrei minha mãe e minha irmã, que desde que começou o cholera não vão nem á opera lyrica, nem ao baile, e nem saem de noite com medo do sereno.
« Contei-lhes o que me havia acontecido, e ellas, mettendo o negocio á bulha, acabarão, como sempre costumão, por me dar e gracioso titulo de doido.
« Mas amanhã é domingo, e a bolsa de seda virá provar que eu sou um rapaz de muito juizo.
O meu amigo Constando fez ponto final e olhou para mim.
— E que mais ?... perguntei.
— Por ora nada mais : deixarás o romance interrompido n'este ponto, e prometterás concluil-o na proxima Semana.
— Bem ; mas deves ao menos deixar esclarecido um ponto.
— O que?...
— A côr da bolsa de seda.
— N'essa não cahia eu : a côr de bolsa é o meu segredo ;
ainda não estou casado, e emquanto não me casar não darei a ninguém os meios de
descobrir quem é abella do meu sonho. Espera até amanhã, que é domingo.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.