Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Alfarrábios: o Ermitão da Glória

Por José de Alencar (1853)

Ao chegar á praia, avistou o cavalheiro um batel que ia atracar.Vinha dentro, além do marinheiro que remava, um mancebo derreado á popa, com a cabeça cahida ao peito em uma postura que revelava desanimo. Teria elle vinte dois annos, e era de nobre parecer.

Logo que abordou em terra o batel, ergueu-se rijo o mancebo e saltou na praia, afastando-se rapido e tão abstracto que abalroaria com Ayres, si este não se desviasse pronto.

Vendo que o outro passava sem aperceber-se d'elle, Ayres bateu-lhe no hombro :

—D'onde vindes a esta hora, e tão pezaroso, Duarte de Moraes?

— Ayres!... disse o outro reconhecendo o amigo.

— Eu vos contava entre os felizes; mas vejo que tambem a ventura tem suas nevoas.

— E suas noites. A minha creio que de todo escureceu.

— Que falas são estas, homem, que vos desconheço.

Travou Duarte do braço de Ayres, e voltandose para a praia mostrou-lhe um barco fundeado perto da Ilha das Cobras.

— Vêdes aquelle barco? Ha tres dias que ainda era uma formosa balandra. N'ella empreguei todo meu haver para tentar a fortuna do mar. Eis o estado a que a reduziram os temporaes e os piratas: é uma carcassa, nada mais.

Ayres examinava com attenção a balandra, que estava em grande deterioração. Faltava-lhe o pavez de ré e ao longo dos bordos appareciam largos rombos.

— Esmoreceis com o primeiro revez!

— Que posso eu? D'onde tirar o cabedal para os reparos? E devia eu tentar nova empreza, quando a primeira tão mal surtiu-me?

— Que contais então fazer do barco ? Vendel-o sem duvida ?

— Só para lenha o comprariam no estado em que ficou. Nem vale a pena de pensar n'isso; deixal-o apodrecer ahi, que não tardará muito.

— N'este caso tomo emprestada a balandra, e vou eu á aventura.

— N'aquelle casco aberto? Mas é uma temeridade, Ayres!

— -Ide-vos á casa socegar vossa mulher que deve estar afflicta; o resto me pertence. Levai este abraço; talvez não tenha tempo de dar-vos outro cá n'este mundo.

Antes que Duarte o pudesse reter, saltou Ayres no batel, que singrou para a balandra.

IV

A CANÔA

Saltando a bordo, foi Ayres recebido ao portaló pela maruja um tanto surpreza da visita.

— D'ora avante quem manda aqui sou eu, rapazes; e desde já os aviso, que esta mesma tarde, em soprando a viração, fazemo-nos ao largo.

— Com o barco da maneira que está ? observou gageiro.

Os outros resmungaram approvando.

-- Esperem lá, que ainda não acabei. Esta tarde pois, como dizia, conto ir mar em fóra ao, encontro do primeiro pichelingue que passar-me por d'avante. O negocio ha de estar quente, prometto-lhes.

— Isso era muito bom, si tivesse a gente navio; mas n'uma capoeira de gallinhas como esta?...

— Ah! não temos navio?... Com a breca! Pois vamos procural-o onde se elles tomam!

Entreolhou-se a maruja, um tanto embasbacada d'aquelle desplante.

— Ora bem! continuou Ayres. Agora que já sabem o que têm de fazer, cada um que tome o partido que mais lhe aprouver. Si lhe não tôa a dansa, póde-se ir a terra, e deixar o posto a outro mais decidido. Eia, rapazes, ávante os que me seguem; o resto toca a safar e sem mais detença, si não mando carga ao mar.

Sem a mais leve sombra de hesitação, d'um só e mesmo impulso magnanimo, os rudes marujos deram um passo á frente, com o ar destemido e marcial com que marchariam á abordagem.

— Bravo, rapazes! Podeis contar que os pechelingues levarão d'esta feita uma famosa lição Convido-vos a todos para bebermos á nossa victoria, antes da terceira noite, na taberna do Simão Chanfana.

— Viva o capitão!...

— Si lá não nos acharmos n'essa noite, é que então estamos livres de uma vez d'esta praga de viver!...

— E mesmo! É uma canceira! acrescentou um marujo philosopho.

Passou Ayres a examinar as avarias da balandra, e embora a achasse bastante deteriorada, comtudo não se-demoveu por isso de seu proposito. Tratou logo dos reparos, distribuindo a maruja pelos diversos misteres, e tão prontas e acertadas foram suas providencias, que poucas horas depois os rombos estavam tapados, o apparelho concertado, os outros estragos atamancados, e o navio em estado de navegar por alguns dias.

Era quanto d'elle exigia Ayres, que o resto confiava á sorte.

Quando levantou-se a viração da tarde, a balandra cobriu-se com todo o panno e singrou barra fóra.

Era meio dia, e os sinos das torres repicavam alegremente. Lembrou-se Ayres que estava a 14 de Agosto, vespera da Assunção de Nossa Senhora, e encommendou-se á Virgem Santissima. D'este mundo não esperava elle mais cousa alguma para si, além de uma morte gloriosa, que legasse um triumpho á sua patria. Mas o amigo e infancia, Duarte de Moraes, estava arruinado,

e elle queria restituir-lhe o patrimonio, deixandolhe em troca do chaveco desmantelado um bom navio.

II

Ha momentos em que o espirito mais indifterente é repassado pela gravidade das circumstancias. Collocado já no limiar da eternidade, olhando o mundo como uma terra a submergirse no oceano pela popa de seu navio, Ayres absorveu-se n'aquella scisma religiosa, que balbuciava uma prece, no meio da contrição da alma, crivada pelo pecado.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior12345...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →