Por José de Alencar (1878)
Havia em seu olhar, em sua voz, em seus movimentos, inflexões maviosas, mas de tão vivo relevo que se esculpiam como se tomassem corpo. Depois de apagar-se o gesto, sentia-se ainda a sua doce impressão no vulto a que animara.
O espírito fino, meigo e gentil de Julieta não tinha expansões brilhantes. Era modesto, e às vezes tímido. Entretanto o que ela dizia, por mais simples que fosse, trazia o calor de uma emoção íntima. Sua palavra exalava os perfumes de uma alma em flor.
Ao seu lado e conversando com ela, um homem de rigor estético poderia esquivar-se ao enlevo que infundia a suprema distinção dessa moça, e notar em suas feições e em seu talhe a ausência da beleza plástica.
Mas apartando-se dela e perdendo-a de vista, raro era o que não levava na fantasia um ideal suave e gracioso, que ofuscava a imagem das mais radiantes formosuras de salão.
O primeiro encontro de Hermano com a noiva explica bem a influência que ela devia exercer em sua vida.
Ao sair do teatro lembrou-se do convite que recebera para uma partida em casa de pessoa de sua amizade, a quem devia atenções. Dirigiu-se para lá, com a intenção apenas de fazer ato de presença.
Quando entrou no saguão, cantava uma senhora a ária da Lucia de Lammermaar. A voz, que não era extensa, comoveu-o. Parou para escutar; e viu desenhar-se em seu espírito a imagem esbelta e vaporosa da virgem que o amor enlouquecera.
Terminado o canto, subiu. Havia na sala muitas senhoras, algumas de seu conhecimento, outras que via pela primeira vez. Notou entre estas uma moça alva, de cabelos negros; era Julieta. Sem que lho dissessem, por uma rápida intuição, adivinhou que fora ela a intérprete inspirada da música de Donizetti.
Teve pois uma decepção. Ele imaginara sempre uma Lucia, loura como a filha das nevoentas montanhas da Escócia; e vinha achar a sua cópia em um tipo tão oposto.
Hermano demorou-se mais do que tencionara; ficou até o fim da partida. Por mais de uma vez aproximou-se de Julieta e conversou com ela. Quando se recolheu, cantava mentalmente o Bell'anima, que ouvira executado por Mirati; e pensava que talvez Lucia, apesar de escocesa, tivesse cabelos pretos como a Maria Stuart de Walter Scott.
Julieta era filha de um coronel reformado de nosso Exército, que servira por algum tempo em Goiás. Na sua primeira expedição para aquela província acompanhou-o a mulher apesar de estar mui próxima a dar à luz. A menina nascera em viagem.
Uma escrava que o oficial trazia, fatigada das jornadas, mal podia acudir à senhora.
Foi pois o furriel Abreu que serviu de ama-seca à menina; e tal amizade tomou-lhe que não quis mais separar-se dela. Completando o tempo de serviço obteve baixa e ficou em companhia do oficial como agregado.
Hermano freqüentou a casa do Coronel Soares. Pouco mais de mês depois do seu primeiro encontro com Julieta, manifestou-lhe os seus sentimentos, que aliás já eram conhecidos da moça, e pediu-lhe um consentimento, que tinha razão de esperar.
Ela ficou um momento pensativa; depois disse com o tom grave de uma convicção profunda:
— O casamento é uma fatalidade.
Como Hermano interrogava-lhe o semblante para conhecer o sentido de suas palavras, ela acrescentou:
— Meu marido há de pertencer-me de corpo e alma, como eu a ele, e para sempre. É assim que entendo o casamento.
— Penso da mesma maneira.
— Para sempre é eternamente.
— Compreendi todo o seu pensamento, Julieta, e não imagina o meu júbilo por encontrar tão perfeita identidade de sentimentos na mulher a quem amo. Sempre acreditei que o casamento não deve ser uma simples união social, mas a formação da alma criadora e mãe, da alma perfeita, de que nós não somos senão as parcelas esparsas. Essa alma uma vez formada, só Deus a pode dividir e mutilar.
O casamento realizou-se pouco tempo depois; e os noivos foram morar na casa de São Clemente, a qual tinha sido preparada com esmero para recebê-los.
Abreu acompanhou sua filha de criação. Ele a tinha recebido em seus braços ao nascer, e contava não deixá-la senão quando Deus o chamasse.
Capítulo 3
Aquela casa de São Clemente foi para os noivos o ninho do amor e da felicidade; mas o ninho perene, sem estações, sem primavera, sem lua-de-mel.
Essa ardente efusão de duas existências durava desde o primeiro instante, não tinha lapsos nem desmaios.
Hermano aproximava-se dos trinta anos, e vivera muito nesse tempo. Julieta aos vinte anos não conhecia o mundo; e seu coração virgem era um manancial de ternura.
Que diálogo inefável entre aquela inteligência pródiga e essa inocência ávida de saber, rica de afeto?
O passado de Hermano, desde a primeira infância até o casamento, Julieta queria vivê-lo, dia por dia, hora por hora, se fosse possível, para amar seu marido em cada um desses momentos anteriores a ela.
O presente não lhe bastava. nem o futuro. Carecia de remontar-se à origem dessa existência que lhe
(continua...)
ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.