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#Comédias#Literatura Brasileira

Os Irmãos das Almas

Por Martins Pena (1848)

LUÍSA, secamente – Está. (Felisberto encaminha-se para sair pela direita, sem dar atenção alguma a Jorge.) 

JORGE, seguindo-o – Então assim se pergunta por minha mulher e vai-se entrando? (Felisberto sai.) E então? Querem-na mais clara? Que figura faço eu aqui? 

Que papel represento? (Passeia agitado de um para outro lado.8) 

LUÍSA, seguindo-o – Meu irmão, por que não fazes um esforço para saíres deste vexame em que vives? Cobre energia! Mostre que é homem! Isto é uma vergonha! Não se acredita! Que fraqueza! 

JORGE, parando – É fraqueza? 

LUÍSA – É, sim. 

JORGE – Pois quero mostrar-te para que sirvo. Quero mostrar-te que sou homem e que nesta casa governo eu. 

LUÍSA – Felizmente. 

JORGE – Vou ensiná-las, botar este biltre pela porta a fora! Basta de humilhação! Vai tudo com os diabos! (Caminha intrepidamente e a passos largos para a porta da direita, mas aí chegando, pára.)

LUÍSA – Então, paras? 

JORGE, voltando – Melhor é ter prudência. Tenho medo de fazer uma morte. 

LUÍSA – Meu Deus, que fraqueza! 

JORGE – E retiro-me, que não respondo por mim... e mesmo porque vou à 

botica buscar o sinapismo que minha sogra pediu. (Sai.) 

 

CENA V 

LUÍSA, só, e depois MARIANA. 

 

LUÍSA – Isto contado não é crível! Ter um homem medo de sua mulher e de sua sogra a esse ponto! Ah, se eu fosse homem e tivesse uma mulher como esta!...  

MARIANA, entrando – Vai coser a renda da minha mantilha! (Luísa sai. Mariana estará de vestido de riscado e saia de lila preta.) Pague o que come! É um trambolho que eu tenho em casa. A boa jóia do meu genro julga que eu também devo carregar com a irmã. Está enganado; hei de atrapalhá-la até que a desgoste para sair daqui. Arre! 

 

CENA VI 

MARIANA e SOUSA. 

 

SOUSA, entrando vestido de opa – Bons dias, comadre. 

MARIANA – Oh, compadre Sousa, por cá? 

SOUSA – Ando no meu fadário, comadre. É preciso ganhar a vida. (Põe a salva sobre a mesa.) 

MARIANA – Isso é assim, compadre. 

SOUSA – E como já estou velho, escolho o ofício que mais me serve... Tiro esmolas. 

MARIANA – E as faz render, hem? 

SOUSA – Nada, comadre. Ganho só duas patacas por dia, que me paga o tesoureiro da irmandade para quem tiro esmola. 

MARIANA – Só duas patacas? Tão pouco, compadre? 

SOUSA – Eu podia fazer como grande parte dos meus companheiros, que tiram as esmolas para si, mas isso não faço eu; quisera antes morrer de fome. Dinheiro sagrado! Talvez a comadre zombe do que eu digo... 

MARIANA – Eu não, compadre. 

SOUSA. – Porque consta-me que seu genro... 

MARIANA – Meu genro é um tratante. 

SOUSA – Há em todas as profissões velhacos que as desacreditam. 

MARIANA – Não se importe com isso, compadre. 

SOUSA – Oh, eu vivo tranqüilo com a minha consciência. 

MARIANA – Faz muito bem. 

SOUSA – Como vai a comadrinha? (Aqui aparece à porta do fundo Jorge, que trará uma tigela na mão. Vendo Mariana e Sousa, pára e escuta.) 

MARIANA – Vai bem, compadre. Só o diabo do marido é que lhe dá desgostos; é uma besta que meti em casa... 

SOUSA – Comadre, as bestas também se ensinam... 

JORGE, à parte – Patife! 

MARIANA – Deixe-o comigo, compadre. 

SOUSA – A comadre é mãe e deve vigiar na felicidade de sua filha. Os maridos são o que as mulheres querem que eles sejam. Sou velho e tenho experiência do mundo. 

A comadrinha que não fraqueie, senão ele bota-lhe o pé no pescoço. 

JORGE, à parte – Tratante! 

MARIANA – Isso lhe digo eu sempre, e ela o faz. Olhe, compadre, quanto a isso puxou cá à pessoa... O meu defunto não via bóia comigo... 

 

CENA VII

Os mesmos e FELISBERTO. 

 

FELISBERTO – Adeus, tia; vou-me embora. 

MARIANA – Vem cá, rapaz. 

FELISBERTO – O que quer? 

MARIANA – Ó compadre, você não achará um arranjo para este rapaz? 

SOUSA – Fraco empenho sou eu, comadre. 

FELISBERTO – Não preciso de arranjo. 

MARIANA – É melhor trocar as pernas por essas ruas como um valdevinos, em risco de ser preso para soldado? Andar sempre pingando e sem vintém para comprar uma casaca nova? Vê como os cotovelos desta estão rotos, e esta calça, como está safada. 

FELISBERTO – Assim mesmo é que eu gosto... É liberdade! Cada um faz o que quer e anda como lhe parece. Não nasci para me assujeitar a ninguém. 

MARIANA – Ai, que modo de pensar é esse? Então, compadre, não descobre nada? 

SOUSA . – Eu? Só se ele quer também pedir esmolas; posso arranjar-lhe uma opa. 

MARIANA – Lembra muito bem. Ó sobrinhozinho, queres pedir esmolas? 

FELISBERTO, insultado – Pois tia Mariana, acha que eu nasci para pedir esmolas? Isto é insultar-me! E o Sr. Sousa... 

SOUSA – Eu digo: no caso de querer... 

MARIANA – Estou vendo que nasceste para príncipe... Já te não lembras que teu pai era malsim? 

FELISBERTO – Isto foi meu pai; eu não tenho nada com isso. 

SOUSA – Pedir para os santos é uma profissão honesta. 

MARIANA – Que não desonra a ninguém. Veste-se uma opa, entra-se pelas casas... 

FELISBERTO, à parte – Entra-se pelas casas... 

MARIANA – ... bate-se à escada, e se se demoram a vir saber quem é, assenta-se o homem um momento, descansa...

FELISBERTO, embebido numa idéia, sem ouvir a tia – Entra-se pelas casas... 

(continua...)

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