Por Martins Pena (1845)
GAINER – Eu explica e mostra... Até nesta tempo não se tem feito caso das osso, estruindo-se grande quantidade delas, e eu agora faz desses osso açúcar superfina...
FELÍCIO – Desta vez desacreditam-se as canas.
NEGREIRO – Continue, continue.
GAINER – Nenhuma pessoa mais planta cana quando souberem minha método.
CLEMÊNCIA – Mas os ossos plantam-se?
GAINER, meio desconfiado – Não senhor.
FELÍCIO – Ah, percebo! Espremem-se. (Gainer fica indignado.)
JÚLIA – Quem é que pode espremer osso? Oh! (Felício e Mariquinha riem-se.)
CENA VI
EUFRÁSIA, na porta do fundo – Dá licença, comadre?
CLEMÊNCIA – Oh, comadre, pode entrar! (Clemência e Mariquinha encaminham-se para a porta, assim como Felício; Gainer fica no meio da sala. Entram Eufrásia, Cecília, João do Amaral, um menino de dez anos, uma negra com uma criança no colo e um moleque vestido de calça e jaqueta e chapéu de oleado.
Clemência, abraçando Eufrásia:) Como tem passado?
EUFRÁSIA – Assim, assim.
CLEMÊNCIA – Ora esta, comadre!
JOÃO DO AMARAL – Senhora dª. Clemência?
CLEMÊNCIA – Sr. João, viva! Como está?
MARIQUINHA, para Cecília, abraçando e dando beijo – Há quanto tempo!
CECÍLIA – Você passa bem? (Todos cumprimentam-se. Felício aperta a mão de João do Amaral, corteja as senhoras. João do Amaral corteja a Mariquinha.)
CLEMÊNCIA – Venham-se assentar.
EUFRÁSIA – Nós nos demo[ra]remos pouco.
CLEMÊNCIA – É que faltava.
MARIQUINHA, pegando na criança – O Lulu como está bonito! (Cobre-o de beijo.)
CLEMÊNCIA, chegando-se para ver – Coitadinho, coitadinho! (Fazendo-lhe festas:) Psiu, psiu, negrinho! Como é galante!
EUFRÁSIA – Tem andado muito rabugento com a disenteria dos dentes.
MARIQUINHA – Pobrezinho! Psiu, psiu, bonito! (Mariquinha toma a criança da negra.)
EUFRÁSIA – Olhe que não lhe faça alguma desfeita!
MARIQUINHA – Não faz mal. (Mariquinha leva a criança para junto do candeeiro e, mostrando-lhe a luz, brinca com ele ad libitum.)
CLEMÊNCIA – Descanse um pouco, comadre. (Puxa-lhe pela [saia] para junto do sofá.)
JOÃO – Não podemos ficar muito tempo.
CLEMÊNCIA – Já o senhor principia com suas impertinências. Assentem-se. (Clemência e Eufrásia assentam-se no sofá; João do Amaral, Felício, Gainer e o menino, nas cadeiras; Cecília e Júlia ficam em pé junto de Mariquinha, que brinca com a criança.)
EUFRÁSIA, assentando-se – Ai, estou cansada de subir suas escadas!
CLEMÊNCIA – Pois passe a noite comigo e faça a outra visita amanhã.
JOÃO DO AMARAL – Não pode ser.
CLEMÊNCIA – Deixe-se disso. (Batendo palmas:) Ó lá de dentro?
JOÃO – Desculpe-me, tenha paciência.
EUFRÁSIA— Não, comadre. (Chega um pajem pardo à porta.)
CLEMÊNCIA – Aprontem o chá depressa. (Sai o pajem.)
[JOÃO] – Não pode ser, muito obrigado.
FELÍCIO – Aonde vai com tanta pressa, minha senhora?
EUFRÁSIA – Nós?
JOÃO, para Felício – Um pequeno negócio.
EUFRÁSIA – Vamos à casa de dª. Rita.
CLEMÊNCIA – Deixe-se de dª. Rita. Que vai lá fazer?
EUFRÁSIA – Vamos pedir a ela para falar à mulher do ministro.
CLEMÊNCIA – Pra quê?
EUFRÁSIA – Nós ontem ouvimos dizer que se ia criar uma repartição nova e queria ver se arranjávamos um lugar pra João.
CLEMÊNCIA – Ah, já não ateimo.
FELÍCIO, para João – Estimarei muito que seja atendido; é justiça que lhe fazem.
EUFRÁSIA – O senhor diz bem.
JOÃO – Sou empregado de repartição extinta; assim, é justo que me empreguem. Até mesmo é economia.
GAINER – Economia sim!
JOÃO, para Gainer – Há muito tempo que me deviam ter empregado, mas enfim...
CLEMÊNCIA – Não se vê senão injustiças.
EUFRÁSIA – Comadre, passando de uma coisa pra outra: a costureira esteve cá hoje?
CLEMÊNCIA – Esteve e me trouxe os vestidos novos.
EUFRÁSIA – Mande buscar.
CECÍLIA – Sim, sim, mande-os buscar, madrinha.
CLEMÊNCIA, batendo palmas – Pulquéria? (Dentro, uma voz: Senhora?) Vem cá.
CECÍLIA, para Mariquinha – Quantos vestidos novos você mandou [fazer?]
MARIQUINHA E CLEMÊNCIA – Dois. (Entra uma rapariga.)
CLEMÊNCIA – Vai lá dentro no meu quarto de vestir, dentro do guarda-fato à direita, tira os vestidos novos que vieram hoje. Olha, não machuque os outros. Vai, anda. (Sai a rapariga.)
CECÍLIA, para Mariquinha – De que moda mandou fazer os vestidos?
MARIQUINHA – Diferentes e... Ora, ora, Lulu, que logro!
EUFRÁSIA e CECÍLIA – O que foi?
MARIQUINHA – Mijou-me toda!
EUFRÁSIA – Não lhe disse? (Os mais riem-se.)
MARIQUINHA – Marotinho!
EUFRÁSIA – Rosa, pega no menino.
CECÍLIA – Eu já não gosto de pegar nele por isso. (A preta toma o menino e
Mariquinha fica sacudindo o vestido.)
JOÃO – Foi boa peça!
MARIQUINHA – Não faz mal. (Entra a rapariga com quatro vestidos e entrega a Clemência.)
JOÃO, para Felício – Temos maçada!
FELÍCIO – Estão as senhoras no seu geral.
CLEMÊNCIA, mostrando os vestidos – Olhe. (As quatro senhoras ajuntam-se à roda dos vestidos e examinam ora um, ora outro; a rapariga fica em pé na porta; o menino bole em tudo quanto acha e trepa nas cadeiras para bulir com os vidros; Felício e Gainer levantam-se e passeiam de braço dado pela sala, conversando. As quatro senhoras quase que falam ao mesmo tempo.)
CECÍLIA – Esta chita é bonita.
EUFRÁSIA – Olhe este riscadinho, menina!
CLEMÊNCIA – Pois custou bem barato; comprei à porta.
CECÍLIA – Que feitio tão elegante! Este é seu, não é?
(continua...)
PENA, Martins. Os dois ou o Inglês Maquinista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2164 . Acesso em: 29 jan. 2026.