Por Martins Pena (1845)
LUÍS – Como diabo entendes tu as coisas às avessas? Quando se convida para uma soirée, ou outra qualquer patuscada, rapazes solteiros, é para que eles namorem. Todos sabem que sem namoro as mais brilhantes reuniões esfriam e poucas horas duram. Sem namorar as moças ficam amuadas, as velhas dormem e os velhos roncam. Sem namoro, essa vivacidade que se nota nos olhares e gestos das meninas desaparece e morre, falta de alimento. Sem esse grande excitativo, o desejo de conquistar adormece no coração e leva a moleza ao corpo e o aborrecimento à alma. Tudo fica triste e sem sabor. Os pai e mãe de família cedo retiram-se com as filhas, porque não vêem possibilidade de pescarem noivos para elas onde não há namoro prometido. Mais três ou quatro contradanças e não se vêem esses casais solitários no meio de esplêndido baile, sentados nos cantinhos da sala, alheios a tudo o que se passa ao redor dela, e que tanto servem para divertimento de todos. Cessa a maledicência, desaparecem esses segredinhos que se dizem ao ouvido e que fazem corar. Numa palavra, tudo esfria, emudece, dorme! O namoro é a alma da vida, a existência necessária de todas as reuniões. É o centro ao redor do qual giram todas as afeições, intrigas, gentes e despesas. Por ele é que a menina se enfeita, que os rapazes se desafiam, e se individa o homem. Por ele é que o pobre pai de família paga a ladroada conta das francesas. Enfim, é o motor universal, é o “fogo viste lingüiça” das sociedades. Por isso é que eu todas as vezes que sou convidado para algum baile ou patuscada como esta, namoro a torto e a direito, para obsequiar o dono da casa.
JÚLIO – Ah, é para obsequiar os donos das casas? Devem-te ficar muito agradecidos.
LUÍS – E que não fiquem pouco se me dá. Faço o meu dever. Tenho feito as moças lá dentro andarem numa dobradura, inclusive a minha bela priminha.
JÚLIO, travando-lhe do braço – Isto é uma traição!
LUÍS – Hem?
JÚLIO – É uma traição que cometes para comigo de quem te dizes amigo. Sabes muito bem, porque já te tenho dito, que eu amo a tua prima.
LUÍS – E o que tem isso? Tu namoras e eu também namoro; o caso não é novo – vê-se todos os dias isso.
JÚLIO – É preciso acabarmos com este gracejo. Não zombo.
LUÍS – Nem eu.
JÚLIO – Falo muito sério.
LUÍS – Que diabo de tom é esse?
JÚLIO – Faze por toda a parte este papel de namorador e de tolo, acompanha-te sempre dessa leviandade e ar gracejador por desprezo pelo homem sensato, que pouco se me dá disso; nenhum interesse tenho eu em corrigir-te...
LUÍS – O caso vai de pregação.
JÚLIO – Mas não lances um só olhar para Clementina, não lhe digas uma só palavra de galanteio ou sedução, porque então te haverás comigo e tarde te arrependerás.
LUÍS – Quem, eu?
JÚLIO – Sim, tu.
LUÍS – Isto é uma ameaça?
JÚLIO – É, sim.
LUÍS – Ah, a coisa chegou a esse ponto? Pois meu amigo, andou muito mal; os seus ciúmes o deitaram a perder.
JÚLIO – Isso veremos.
LUÍS – Até agora eu namorava a prima inocentemente e sem intenção, como faço com todas as moças que encontro; isto é um hábito em mim. Mas agora, já que se formaliza e ameaça-me, hei-de lhe mostrar que não só namorarei a priminha de noute e de dia, como também casar-me-ei com ela.
JÚLIO, raivoso – Oh!
LUÍS – O que não tem podido fazer de mim o amor, fará o amor-próprio. Estou resolvido a casar-me.
JÚLIO, segurando-lhe na gola da casaca – Não me leves ao desespero! Desiste? (Aqui aparece no fundo
Clara, que se encaminha para eles.)
LUÍS, segurando na gola da casaca de Júlio – Não quero! (Júlio agarra com a outra mão na gola da casaca de Luís, que faz o mesmo, empurrando-se mutuamente.)
JÚLIO – Não me faça praticar uma ação que nos perderia a ambos.
LUÍS – Perdido já eu estou, porque me vou casar.
JÚLIO, forcejando – Insolente!
CENA III
Clara junto deles.
CLARA – Então, o que é isto? (Os dois surpreendem-se e apartam-se.)
LUÍS – Não é nada,
minha tia, estávamos experimentando forças.
CLARA – Ora, deixemos agora disso. Venham dançar, que faltam pares. Venham.
LUÍS – Vamos, tiazinha. (Para Júlio:) Vou apertar o namoro. Viva S. João! (Sai dando viças.)
CLARA, rindo-se – É um doudo este meu sobrinho. Venha, Sr. Júlio.
JÚLIO – Já vou, minha senhora. (Clara sai.)
CENA IV
Júlio, só.
JÚLIO – O que hei-de eu fazer? Talvez fiz mal em levar as coisas a este extremo. Luís principia os namoros e os deixa com a mesma facilidade. Não me devia inquietar. Maldito ciúme! Estou em uma cruel perplexidade. Devo hoje mesmo declarar-me com o Sr. João Félix e pedir-lhe a filha. Vã esperança! Estou certo que ele não consentirá; não tenho fortuna. Meu Deus! (Sai vagaroso.)
CENA V
Enquanto Júlio dirige-se para o fundo, entra pela direita baixa o ilhéu, seguido de quatro pretos, trazendo os dois primeiros lenha, o terceiro um cesto à cabeça, e o quarto um feixe de cana.
MANUEL – Paizinhos, vão acabar de fazer a fogueira. Levem primeiro vocês a cana e os carás à Senhora. (Manuel fala como os ilhéus, isto é, cantando. Os negros da lenha vão acabar de fazer a fogueira; os outros dois saem pelo fundo. Manuel, só:) Cá no Brasil é como na minha terra; também se festeja a noite de S. João. Quem me dera no Tojal! Há dois anos que aqui estou trabalhando para ganhar dinheiro e para lá voltar. Oh, quem pudera viver sem trabalhar! Cresce-me água à boca, quando vejo um rico. São os felizes, que cá o homem anda de canga ao pescoço.
CENA VI
Entra Maria com uma cesta à cabeça.
MANUEL – O que levas aí, Maria?
MARIA – A roupa que estava no campo a secar.
MANUEL – Pois ainda agora? Vem cá. (Maria deixa a cesta à porta da casinha e caminha para Manuel.)
MARIA – A senhora tomou-me o tempo e não deixou-me recolhê-la com dia. Andamos a arranjar a casa para a companhia.
MANUEL – E ela é que diverte com os seus, e nós trabalhamos.
MARIA – O que queres, Manuel? Somos pobres, que Deus assim nos fez.
MANUEL – E é do que me queixo. Todo o dia com a enxada na mão, e ainda em cima ter olhos nos paizinhos, que são peores que o diabo.
MARIA – Anda lá, não te queixes tanto, que lá no Tojal éramos mais
desgraçados. Não sei como não morríamos de fome. Ganhavas seis vinténs por dia
ao rabo da enxada, e cá o senhor te estima; pagou a nossa passagem.
(continua...)
PENA, Martins. O Namorador ou a Noite de São João. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1992 . Acesso em: 29 jan. 2026.