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#Comédias#Literatura Brasileira

O Juiz de Paz da Roça

Por Martins Pena (1838)

Aninha − Como meu pai vai à cidade, não se esqueça dos sapatos franceses que me prometeu.

Manuel João − Pois sim.

Maria Rosa − De caminho compre carne.

Manuel João − Sim. Adeus, minha gente, adeus.

Maria Rosa e Aninha − Adeus! (Acompanham-no até a porta.)

Manuel João, à porta − Não se esqueça de mexer a farinha e de dar que comer às galinhas.

Maria Rosa − Não. Adeus! (Sai MANUEL JOÃO.)

CENA VIII

Maria Rosa − Menina, ajuda-me a levar estes pratos para dentro. São horas de tu ires colher o café e de eu ir mexer a farinha... Vamos.

Aninha − Vamos, minha mãe. (Andando:) Tomara que meu pai não se esqueça dos meus sapatos... (Saem.)

CENA IX

Sala em casa do Juiz de paz. Mesa no meio com papéis; cadeiras. Entra o Juiz de paz vestido de calça branca, rodaque de riscado, chinelas verdes e sem gravata.

Juiz − Vamo-nos preparando para dar audiência. (Arranja os papéis.) O Escrivão já tarda; sem dúvida está na venda do Manuel do Coqueiro... O último recruta que se fez já vai-me fazendo peso. Nada, não gosto de presos em casa. Podem fugir, e depois dizem que o Juiz recebeu algum presente. (Batem à porta.) Quem é? Pode entrar. (Entra um preto com um cacho de bananas e uma carta, que entrega ao Juiz. Juiz, lendo a carta:) “Il.mo Sr. − Muito me alegro de dizer a V. S.ª que a minha ao fazer desta é boa, e que a mesma desejo para V.S.ª pelos circunclóquios com que lhe venero”. (Deixando de ler:) Circunlóquios... Que nome em breve! O que quererá ele dizwer? Continuemos. (Lendo:) “Tomo a liberdade de mandar a V.S.ª um cacho de bananas-maçãs para V.S.ª comer com a sua boca e dar também a comer à Sr.ª Juíza e aos Srs. Juizinhos. V.S.ª há de reparar na insignificância do presente; porém, Il.mo Sr., as reformas da Constituição permitem a cada um fazer o que quiser, e mesmo fazer presentes; ora, mandando assim as ditas reformas, V.S.ª fará o favor de aceitar as ditas bananas, que diz minha Teresa Ova serem muito boas. No mais, receba as ordens de quem é seu venerador e tem a honra de ser − Manuel André de Sapiruruca.” − Bom, tenho bananas para a sobremesa. Ó pai, leva estas bananas para dentro e entrega à senhora. Toma lá um vintém para teu tabaco. (Sai o negro.) O certo é que é bem bom ser Juiz de paz cá pela roça. De vez em quando temos nossos presentes de galinhas, bananas, ovos, etc., etc. (Batem à porta.)

Quem é?

Escrivão, dentro − Sou eu.

Juiz − Ah, é o Escrivão. Pode entrar.

CENA X

Escrivão − Já intimei Manuel João para levar o preso à cidade.

Juiz − Bom. Agora vamos nós preparar a audiência. (Assentam-se ambos à mesa e o JUIZ toca a campainha.) Os senhores que estão lá fora no terreiro podem entrar. (Entram todos os lavradores vestidos como roceiros; uns de jaqueta de chita, chapéu de palha, calças brancas de ganga, de tamancos, descalços; outros calçam os sapatos e meias quando entram, etc. Tomás traz um leitão debaixo do braço.) Está aberta a audiência. Os seus requerimentos?

CENA XI

Inácio José, Francisco Antônio, Manuel André e Sampaio entregam seus requerimentos.

Juiz − Sr. Escrivão, faça o favor de ler.

Escrivão, lendo − Diz Inácio José, natural desta freguesia e casado com Josefa

Joaquina, sua mulher na face da Igreja, que precisa que Vossa Senhoria mande a Gregório degradado para fora da terra, pois teve o atrevimento de dar um ambigada em sua mulher, na encruzilhada do Pau-Grande, que quase a fez abortar, da qual embigada fez cair a dita sua mulher de pernar para o ar. Portanto pede a Vossa Senhoria mande o dito Gregório degradado para Angola. E.R.M.

Juiz − É verdade, Sr. Gregório, que o senhor deu uma embigada na senhora?

Gregório − É mentira, Sr. Juiz de paz, eu não dou embigadas em bruxas.

Josefa Joaquina − Bruxa é a marafona de tua mulher, malcriado! Já não se lembra que me deu uma embigada, e que me deixou uma marca roxa na barriga? Se o senhor quer ver, posso mostrar.

Juiz − Nada, nada, não é preciso; eu o creio.

Josefa Joaquina − Sr. Juiz, não é a primeira embigada que este homem me dá; eu é que não tenho querido contar a meu marido.

Juiz − Está bom, senhora, sossegue. Sr. Inácio José, deixe-se destas asneiras, dar embigadas não é crime classificado no Código. Sr. Gregório, faça o favor de não dar mais embigadas na senhora; quando não, arrumo-lhe com as leis às costas e meto-o na cadeia. Queiram-se retirar.

Inácio José, para Gregório − Lá fora me pagarás.

Juiz − Estão conciliados. (INÁCIO JOSÉ, GREGÓRIO e JOSEFA [JOAQUINA] saem.) Sr. Escrivão, leia outro requerimento.

(continua...)

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