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#Comédias#Literatura Brasileira

As Casadas Solteiras

Por Martins Pena (1845)

John — Teu pai ainda se opõe à nossa união?

Virgínia — Ainda. Ele diz que odeia aos ingleses pelos males que nos têm causado, e principalmente agora, que nos querem tratar como piratas.

Bolingbrok — Piratas, yes. Piratas. As brasileiras é piratas... Enforca eles...

Clarice (afastando-se) — Ah, somos piratas?

Virgínia — Muito obrigada...

Bolingbrok — No, no, Miss... Eu fala só das brasileiras machos...

Clarice — São meus patrícios.

Bolingbrok — As machos... mim não gosta deles. As brasileiras, mulheres, yes...

Esta é bela... é doce como sugar...

John — Cala-te, Bolingbrok, que não dizes senão asneiras.

Bolingbrok — Yes, mim diz asneiras... Mim é cavalo, quando está junto de vós.

(Aqui entra pela direita Narciso.)

Virgínia — É preciso termos prudência.

Narciso — Está muito bonito! Muito bonito! (Espanto dos quatro.)

John — Diabo!

Bolingbrok — Goddam!

Virgínia e Clarice — Meu pai! (Ao mesmo tempo.)

Narciso — Para isso é que se perderam de mim? Que pouca vergonha! A conversarem com dois homens...

John — Senhor, isto não teria acontecido se nos tivésseis dado a mão de vossas filhas.

Narciso — Ah, são os senhores? É o que me faltava: casá-las com ingleses! Antes com o diabo!

John — Senhor!

Bolingbrok — Senhor!

Narciso — O que é lá? (Para as duas:) Salta! Adiante de mim! Salta!

John — Virgínia, conta comigo. A despeito deste velho insensato, serás minha.

Bolingbrok — My Clarice, há de ser mulher a mim, quando mesmo este velho macaco.

Narciso — Macaco? Inglês de um dardo!

Bolingbrok — Macaco fica zangado? Mim está contente de chama macaco.

Narciso (tomando as moças pelos braços) — Vamos, senão faço algum desatino.

(Sai levando as duas.)

CENA VI

Bolingbrok (seguindo a Narciso) — Mim está contente chama macaco. (Gritando:)

Macaco!

John — Deixa-o, Bolingbrok.

Bolingbrok (voltando) — Mim está satisfeita. Macaco!

John — Vejamos o modo de ensinarmos a este velho, e vingarmo-nos.

Bolingbrok — Yes.

John — Não tive tempo de dizer a Virgínia que tínhamos uma falua às ordens. Agora será difícil fazermo-la saber esta circunstância. Maldito Jeremias, que não soube vigiar o velho!

Bolingbrok — Mim dá uma roda de soco nele quando aparece.

CENA VII Jeremias entrando.

Jeremias — John? John?

John — Nós te estamos muito agradecidos.

Bolingbrok — Mim quer joga soco.

Jeremias — Hem? O que é isso?

John — Deixaste que o velho nos surpreendesse.

Bolingbrok — Mim quer jogar soco, senhor.

Jeremias — Não tive culpa. Estava alerta, com todo o cuidado no velho, quando passou por junto de mim, e sem me ver, uma mulher... E assim que a pilhei a três passos longe de mim, deitei a fugir...

Bolingbrok (gritando) — Mim quer joga soco, senhor!

Jeremias — Pois tome! (Dá-lhe um soco.)

Bolingbrok — Goddam! (Atira um soco a Jeremias, que lhe responde.)

John (metendo-se de permeio) — Então, o que é isso? Jeremias? Bolingbrok?

Bolingbrok — Deixa, John!

Jeremias — Maluco! I say... drink the rum... Chega, que arrumo-te um tabefe!

John — Não sejam crianças! (Para Jeremias:) Não faças caso. (Para Bolingbrok:)

Aquieta-te...

Bolingbrok — Mim não quer mais joga soco.

Jeremias — Mim também não quer jogo mais... (Bolingbrok passeia de um lado para outro.)

John — Teu descuido muito nos prejudicou.

Jeremias — Já te disse que estava alerta, mas a mulher...

John — Mas quem é a mulher?

Jeremias — A minha! A minha! Pensei ver o diabo, e isto fez-me perder a cabeça...

Abandonei o posto, e foste surpreendido.

John — E assim foi nosso plano completamente desarranjado.

Jeremias — Por quê?

John — Não tivemos tempo de comunicar às meninas o nosso plano. Agora sernos-á difícil falar-lhes. O velho está desesperado!

Jeremias — Lembro-me um expediente...

John — Qual é?

Jeremias — Nesta barraca há um francês que, para lograr ao público e ganhar dinheiro, vestir-se-á de mágico a fim de predizer o futuro, fazer adivinhações e sortes, etc. Entra tu lá, dá-lhe dinheiro — esta gente faz tudo por dinheiro — , vestete com as suas roupas, e assim disfarçado, talvez consigas poder falar com a moça.

John — Excelente amigo! (Abraça-o)

Jeremias — Que te parece? Não é bem lembrado? Ó diabo! (Olhando para a esquerda, fundo.)

John — O que é?

Jeremias (escondendo-se por detrás de John) — Minha mulher que ali vem! Não lhe digas nada, nada... (Vai levando a John para o lado direito, encobrindo-se com seu corpo.)

John — Espera, homem; onde me levas?

Jeremias (junto dos bastidores) — Adeus. (Sai.)

CENA VIII

John, Bolingbrok e depois Henriqueta.

John — Ah, ah! Que medo tem o Jeremias da mulher! Bolingbrok, vem cá. Estamos salvos!

Bolingbrok — Salva? (Aqui aparece no fundo Henriqueta, e encaminha-se para a frente.)

John — Jeremias ensinou-me o meio de comunicar-nos com nossas amantes.

Bolingbrok — Agora mim tem pena de ter dado o soco... (Henriqueta vem-se aproximando.)

John — O plano não pode falhar. Jermias teve uma lembrança magnífica.

Henriqueta (à parte) — Falam em Jeremias...

Bolingbrok — Quando encontra ele dá um abraço.

Henriqueta — Uma sua criada...

Bolingbrok — Viva!

John — Minha senhora...

(continua...)

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