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#Comédias#Literatura Brasileira

Verso e Reverso

Por José de Alencar (1857)

Os mesmos, Henrique, Pereira

Henrique — Meu amigo, desculpa; não pude deixar de voltar para ter o prazer de apresentar-te o Sr. Pereira, um dos nossos poetas mais distintos.

Pereira — É bondade de meu amigo!

Custódio (a meia voz) — Que firma!

Ernesto — Ah! O Sr. é poeta! Estimo muito conhecê-lo: tenho uma grande simpatia pelos poetas, embora na minha vida nunca conseguisse fazer um verso.

Pereira — Isto não quer dizer nada; Chateaubriand é um grande poeta e escreveu em prosa.

Henrique — Meu amigo, nós não queremos tomar-te o tempo. O Sr. Pereira vai publicar um volume de suas primeiras poesias e espera que tu, que és amante da literatura, protejas essa publicação.

Ernesto — Tu pedes, Henrique, não posso recusar.

Pereira — Submeto à consideração de V.Sa. o programa da assinatura. Um belo volume in-8o francês, de cem páginas, 5$OOO no ato da entrega. Não exijo adiantado.

Ernesto — Mas não há necessidade de demorar uma coisa que pode ficar concluída. (Tira a carteira)

Pereira — V.Sa. ordena...

Henrique — Tomas duas assinatura ou três?

Ernesto — Uma basta, Henrique; sabes que a minha fortuna não está a par do meu gosto pela literatura.

Pereira — É sempre assim; os grandes talentos são ricos de inteligência, mas pobres desse vil objeto a que se chama dinheiro. (Recebe a nota) Muito obrigado,

Sr....

Ernesto — Não tem de quê.

(Entra D. Luísa)

CENA IX

Os mesmos, D. Luísa

D. Luísa — Perdão, meus Srs.; tenham a bondade de ler este papel.

Henrique (finge não ouvir) — Até logo, Ernesto.

Pereira (a Ernesto) — Tive muito prazer em conhecer a V.Sa..

D. Luísa — Uma pobre viúva! Meu marido...

Pereira — Se puder servir-lhe para alguma coisa...

Ernesto — Igualmente!

Henrique (a Pereira) — Vamos; tenho pressa.

D. Luísa — Então, Srs! Qualquer coisa...

Pereira — Às suas ordens. (Sai)

D. Luísa — Não lê?

Henrique — Adeus, adeus. (Sai)

CENA X

Ernesto, Custódio, D. Luísa

Ernesto (a Custódio) — Que papel será esse que aquela Sra. pede com tanta instância para ler? Talvez alguma notícia importante?

Custódio (levantando-se) — Com sua licença.

D. Luísa (a Custódio, apresentando o papel) — O Sr. faz obséquio?...

Custódio (saindo) — Esqueci os óculos em casa. (Sai)


CENA XI Ernesto, D. Luísa, depois Braga

D. Luísa — V.Sa. ao menos me fará a caridade!

Ernesto — Deixe ver. (Abre o papel) Ah! uma subscrição! Por isso é que os tais amigos se puseram todos ao fresco, fazendo-se desentendidos; um tinha pressa, o outro esqueceu os óculos. (Fecha) Desculpe, minha Sra.; não posso dar nada; tenho feito muitas despesas.

D. Luísa — Pouco mesmo que seja; tudo serve. É para fazer o enterro do meu pobre marido que expirou esta noite e deixou-me ao desamparo com oito filhinhos... — Pobre mulher! Para esta não há um benefício! Mas diga-me, seu marido nada possuía? A Sra. não tem parentes?

D. Luísa — Nem um; não tenho ninguém de quem me valer. Acredite, Sr., que para chegar a este estado de recorrer à piedade dos que não me conhecem, foi preciso ver meus pobres filhinhos nus, e chorando de fome, os coitadinhos.

Braga (dentro do balcão) — Temos choradeira!

Ernesto — Corta o coração, não acha? Torne, minha Sra.; sinto não poder dar mais; porém não sou rico. (Dá uma nota)

D. Luísa (Examinando a nota) — Cinco mil-réis!... (Olha Ernesto com ar de zombaria e sai).

Ernesto — E esta! Nem sequer um obrigado; julga que não lhe fiz favor?

Braga — Ora o Sr. ainda deixa-se lograr por esta gente?

Ernesto — E o Sr. não viu? Por que não me avisou?

Braga — Não gosto de me intrometer nos negócios dos outros.

Ernesto — Boa moral!... Oh! mas esta não aturo.

(Vai sair correndo e encontra-se com Teixeira, Júlia e D. Mariana que entram)

CENA XII

Ernesto, Teixeira, Júlia, D. Mariana, Braga

Ernesto — Ah!...

Júlia — Ernesto!

Teixeira — Bom dia, sobrinho.

Ernesto — Adeus, meu tio. D. Mariana... Como está, prima?

Júlia — Boa, obrigada.

Ernesto — Anda passeando?

Júlia — Não; vim fazer algumas compras.

Teixeira — Júlia, enquanto ficas vendo as fazendas com D. Mariana, vou à Praça e já volto.

Júlia — Sim, papai; mas não se demore.

Teixeira — um instante! (Sai)

Braga (fora do balcão) — O que deseja V.Ex.a?

Júlia — Alguns cortes de musselina e barege.

Braga — Temos lindíssimos, do melhor gosto, chegados no paquete, da última moda; hão de agradar a V. Ex.a; é fazenda superior.

Júlia — Pois deite-os lá dentro que já vou escolher.

Braga — Sim, Sra.; V.Ex.a há de ficar satisfeita. (Sobe a cena com D. Mariana).

Ernesto — Como, prima! A Sra. já tem excelência?

Júlia (sorrindo) — Aqui na corte todo o mundo tem, Ernesto. Não custa dinheiro.

Ernesto — Entendo! Entendo! Mais esta singularidade para as minhas notas.

Braga (dentro do balcão à D. Mariana) — Sim, minha Sra.; tenha a bondade de esperar um momento; já venho mostrar-lhe fazenda que há de agradar-lhe.

(Júlia senta-se)

CENA XIII

Ernesto, Júlia, D. Mariana, depois Braga



Júlia — Diga-me, Ernesto, como tem achado o Rio de Janeiro?

Ernesto — Quer que lhe confesse a verdade, Júlia?

(continua...)

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