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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Alguém que entrava no gabinete veio arrancar a formosa pensativa à sua longa meditação. Era D. Firmina Mascarenhas, a senhora que exercia junto de Aurélia o ofício de guarda-moça. 

A viúva aproximou-se da conversadeira para estalar um beijo na face da menina, que só nessa ocasião acordou da profunda distração em que estava absorta. 

Aurélia correu a vista surpresa pelo aposento; e interrogou uma miniatura de relógio presa à cintura por uma cadeia de ouro fosco. 

Entretanto D. Firmina, acomodando a sua gordura semissecular em uma das vastas cadeiras de braços que ficavam ao lado da conversadeira, dispunha-se a esperar pelo almoço. 

- Está fatigada de ontem? Perguntou a viúva com expressão de afetada ternura que exigia seu cargo. 

- Nem por isso; mas sinto-me lânguida; há de ser o calor, respondeu a moça para dar uma razão qualquer de sua atitude pensativa. 

Estes bailes que acabam tão tarde não devem ser bons para a saúde; por isso é que no Rio de Janeiro há tanta moça magra e amarela. Ora, ontem, quando serviram a ceia pouco faltava para tocar matinas em Santa Teresa. Se a primeira quadrilha começou com o toque do Aragão!... Havia muita confusão; o serviço não esteve mau, mas andou tão atrapalhado!... 

D. Firmina continuou por aí além a descrever suas impressões do baile de véspera, sem tirar os olhos do semblante de Aurélia, onde espiava o efeito de suas palavras, pronta a desdizer-se de qualquer observação, ao menor indício de contrariedade. 

Deixou-a a moça falar, desejosa de desprender-se e embalar-se ao rumor dessa voz que ouvia, sem compreender. Sabia que a viúva conversava acerca do baile; mas não acompanhava o que ela dizia. 

De repente, porém, interrompeu-a: 

- Que tal achou a Amaralzinha, D. Firmina? 

A velha fez semblante de recordar-se. 

A Amaralzinha?... É aquela moça toda de azul? 

- Com espigas de prata nos cabelos e nos apanhados da saia; simples e de muito bom gosto. 

- Lembra-me. É uma menina bem galante! Afirmou a viúva. 

- E bem educada. Dizem que toca piano perfeitamente, e que tem uma voz muito agradável. 

- Mas não costuma aparecer na sociedade. É a primeira vez que a encontramos; não me lembro de a ter visto antes. 

- Foi a primeira vez! 

Pronunciando estas palavras, a moça parecia de novo sentir sua alma refranger-se atraída imperiosamente por esse pensamento recôndito que a absorvia. 

Mas reagiu contra essa preocupação e dirigiu-se à viúva em um tom vivo e instante:

- Diga-me uma coisa, D. Firmina! 

- O que é, Aurélia? 

- Mas há de ser franca. Promete-me? 

- Franca? Mais do que eu sou, menina? Se é este o meu defeito!... A moça hesitava: 

- Experimente, senhora! 

- Quem acha a senhora mais bonita, a Amaralzinha ou eu? Disse afinal Aurélia empalidecendo de leve. 

- Ora, ora! Acudiu a viúva a rir. Está zombando, Aurélia. Pois a Amaralzinha é para se comparar a você? 

- Seja sincera! 

Outras muito mais bonitas que ela não chegam a seus pés. 

- A viúva citou quatro ou cinco nomes de moças que então andavam no galarim e dos quais não me recordo agora. 

- É tão elegante! Disse Aurélia como se completasse uma reflexão íntima.

- São gostos! 

- Em todo o caso é mais bem educada do que eu? 

- Do que você, Aurélia? Há de ser difícil que se encontre em todo o Rio de Janeiro outra moça que tenha a sua educação. Lá mesmo, por Paris, de que tanto se fala, duvido que haja. 

- Obrigada! É esta a sua franqueza, D. Firmina? 

- Sim senhora; a minha franqueza está em dizer a verdade, e não escondê-la. Demais, isso é o que todos vêem e repetem. Você toca piano como  o Arnaud, canta como uma prima-dona, e conversa na sala com os deputados e os diplomatas, que eles ficam todos enfeitiçados. E como há de ser assim? Quando você quer, Aurélia, fala que parece uma novela. 

- Já vejo que a senhora não é nada lisonjeira. Está desmerecendo no meus dotes, acudiu a menina sublinhando a última palavra com um fino sorriso de ironia. Então não sabe, D. Firmina, que eu tenho um estilo de ouro, o mais sublime de todos os estilos, a cuja eloquência arrebatadora não se resiste? As que falam como uma novela, em vil prosa, são essas moças românticas e pálidas que se andam evaporando em suspiros; eu falo como um poema: sou a poesia que brilha e deslumbra! 

- Entendo o que você quer dizer; o dinheiro faz do feio bonito, e dá tudo, até saúde. Mas repare bem, os seus maiores admiradores são justamente aqueles que  não podem pretender sua riqueza; uns casados, outros já velhos... 

(continua...)

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