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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Sob a influência da profunda cisma, Ricardo tinha a pouco e pouco mudado a posição, que tomara para desenhar. O corpo debruçado anteriormente sobre o declive, que servira de mesa, inclinou-se insensivelmente para o lado, firmando-se no cotovelo. Assim com a cabeça apoiada na mão esquerda, quase deitado sobre a relva, como sobre um divã, prosseguia o moço nos seus devaneios, com os olhos fitos na flor, que embalançava-se lentamente aos movimentos dos dedos. 

- Bastava uma tira de papel, um bilhete de loteria, ou uma carta de jogar, para dar-me essa quantia, o preço de minha felicidade, a saúde de minha mãe, o casamento de Luisinha e... Ah! Quantas vezes não me tenho embalado nestas ilusões sedutoras, nestes sonhos d’ouro! São como tu, linda flor, os meus sonhos d’ouro. Brota uma tênue esperança, assim como o teu botão; vai crescendo lentamente, no meio de ânsias e dúvidas; afinal desabrocha em flor; mas é flor do vento, que logo murcha. Também tu não vives mais que um dia!... Nisto nos parecemos bem; constante a preocupação; o sorriso efêmero; tua preocupação é vegetar, a minha, pensar! 

Decorrido um momento, o semblante de Ricardo expandiu-se: 

- Há tanto tempo que vejo esta planta, e não lhe conhecia a flor!... Quem sabe? Talvez seja o anúncio do primeiro sorriso da fortuna! 

Logo zombou de sua lembrança, e da puerilidade daquela superstição. Mas, longe de a repelir, embebeu-se na ilusão. 

Todos nós temos em nossa alma um cantinho, que, apesar dos anos, da experiência e dos trabalhos, fica menino até que enfim o homem volta à primeira infância. Nesse cantinho dormem as ilusões ingênuas, as esperanças infindas, a fé robusta e sobretudo certos laivos de loucura que tonificam a razão. 

É aí, é justamente nesse santuário da infância, que a alma viril do homem costuma-se refugiar nos momentos de crise, quando sustenta alguma luta com a fortuna; ou vencedora para fortalecer-se com a seiva primitiva, e renovar o combate; ou vencida para escapar ao desespero, que a invade. 

Ricardo deixou-se ir à mercê da fantasia, que recortava arabescos em seu espírito. Era um desses sonhos acordados, em que as noções confusas se agitam num claro-escuro do espírito. Esse jogo da luz e das sombras d’alma, junto à extrema volubilidade dos pensamentos, não deixava destacar-se cada uma das idéias. Bilhete de loteria, jogo de cartas, heranças inesperadas, a proteção de um milionário, o trabalho abençoado por Deus, e mil rasgos e acidentes da fortuna; tudo isto misturado com a imagem da flor se baralhava na mente de Ricardo, apagando-se e luzindo alternativamente, como os fogos-fátuos em noite escura. Mas todas essas fosforescências iam derramando n’alma como que uma linda miragem, a abastança, a posse dos vinte contos de réis. 

- Então!... Como havíamos de ser felizes, Bela! Que beijos, minha querida mãe, que eu te havia de dar para te beber nas faces as lágrimas de prazer! Porque tu havias de chorar de alegria, como choraste de dor. E também a ti, Luisinha! A todos!... 

A cada uma dessas palavras o moço, completamente possuído e dominado por suas recordações, inclinava-se sobre a flor agreste que tinha na mão, e beijava-a com ardor, vendo naquela gentil criatura da natureza a imagem das pessoas a quem amava. 

- Oh! então lhes pagaria em beijos as saudades que sentem por mim!.. 

O trino mavioso de um riso fresco e argentino arrancou subitamente o moço à profunda cogitação. 

Aturdido um instante pela completa alheação do espírito, que andava bem longe dali, através dos mares, Ricardo voltou-se para ver quem tão bruscamente o havia chamado à realidade. 

O quadro que tinha diante dos olhos era digno de uma das folhas de seu álbum, ornado de finas aquarelas. 

 

II 

 

Entre o arvoredo tecido de grinaldas amarelas aparecia uma esfera do azul do céu, como tela fina de um painel, cingido por medalhão de ouro. A sombra de uma nuvem errante infundia ao horizonte suave transparência. 

Debuxava-se na tela acetinada o vulto airoso de linda moça, que montava com elegância um cavalo isabel. A alvura de sua tez fresca e pura escurecia o mais fino jaspe. Nem os raios do sol, nem o exercício acenderam uma rosa mesmo pálida em sua face, cândida como a pétala do jasmim. A seiva dessa mocidade, o viço dessa alma, não se expandia no rubor da cútis, mas no olhar ardente e esplêndido dos grandes olhos negros, e no sorriso mimoso dos lábios, que eram um primor da natureza. 

Admirando aquele rosto encantador, ninguém reparava na sua palidez; ao contrário parecia que os tons rosados maculariam a alvura do lírio. A alma que se derrama assim em ondas no olhar e no sorriso, está no íntimo, no coração, donde se desprende em centelhas; não pode tingir as faces. 

Um roupão de caxemira verde-escura, debruado a cairel de seda preta, com abotoadura de aço, moldava um talhe esbelto, que parecia talhado em mármore, tal era a correção das linhas e a harmonia dos contornos. O gracioso chapéu de castor cor de pérola, em vez de cobrir-lhe a cabeça gentil, pousava como um pombo na rica madeixa negra, que lhe descia caprichosamente pelo pescoço em opulentas cascatas. 

(continua...)

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