Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Comédias#Literatura Brasileira

O Que é o Casamento?

Por José de Alencar (1861)

Clarinha — É cousa para que não tenho jeito, Bela.

Isabel — E dizes que o amas! (Afasta-se)

Clarinha (a Henrique) — Ainda está mal comigo?

Henrique — Por quê?

Clarinha — Pelo que lhe disse.

Henrique — Nem já me lembro o que foi.

Clarinha — Muito obrigada!... Não esperava tanto da sua amabilidade. (Afasta-se)

Isabel (a Clarinha) — Vamos jogar!

Clarinha — Joga com o Sr. Henrique!

Henrique — É verdade! Façamos alguma cousa para passar o tempo.

Clarinha — Ele passa tão devagar nesta casa!

Henrique (a Isabel) — Não quer jogar?

Isabel — Clarinha está arrufada. Não tem graça (Vai ao piano)

Henrique — Toque um pouco.

Isabel — Já esqueci o que sabia.

Henrique — Que desculpa, Bela!

Isabel — Não ouve? Iaiá está chorando. (Sai)



CENA V

Clarinha e Henrique


Clarinha — Chamou-me?

Henrique — Não.

Clarinha — Parecia-me ter ouvido o meu nome...

Henrique — Foi engano seu.

Clarinha — Logo vi que não era possível.

Henrique — Que eu a chamasse?

Clarinha — Sim! Está para ser a primeira vez.

Henrique — Podia ser hoje.

Clarinha— Como ontem.

Henrique — Se eu tivesse alguma cousa de agradável a dizer-lhe!

Clarinha — E não tem, Henrique? (Entra Isabel)

Henrique — A minha conversa aborrece de ordinário.

Clarinha — A mim?

Henrique — A todos. Não ouve Iaiá que está chorando?

Clarinha — Está mas é brincando.

Henrique — Ora! está chorando: vá acalentá-la, Clarinha.

Clarinha — Não precisa procurar pretextos para afastar-me, meu senhor! Faço-lhe a vontade.



CENA VI

Os mesmos, Isabel e Miranda

Isabel — Henrique, eu lhe suplico!

Miranda — Até logo... Como estás, Henrique?

Henrique — Boa noite, meu tio!

Miranda — Que tens?

Henrique — Nada.

Miranda — Desejo falar-te amanhã. (Vai sair)

Isabel — Augusto! (Dirige-se a ele) Queria pedir-lhe uma cousa.

Miranda — Dize!

Isabel — Tens muita necessidade de sair hoje?

Miranda — Muita.

Isabel — Podias passar a noite conosco.

Miranda — É impossível, Bela! As eleições estão próximas, e hoje deve decidir-se a minha candidatura.

Isabel — Todo o teu tempo agora é tomado pela política.

Miranda — Ainda assim tens a melhor parte dele. Não sabes quem me faz tão ambicioso?

Isabel — Pois bem; toma chá conosco esta noite; e eu te prometo nunca mais queixar-me.

Miranda — De todo não posso, Bela; acredita-me. Clarinha e Henrique te farão companhia.

Isabel — Sim! Mas eu fico só!

Miranda — Pouco me demoro.



CENA VII

Os mesmos e Sales

Sales — D. Isabel!... Doutor Miranda!

Miranda — Como passou, Sr. Sales?

Clarinha (a Miranda) — Vai passear na forma do costume?

Miranda — Não dá licença?

Clarinha — Se eu fosse Bela, decerto que não.

Isabel — Ele precisa sair.

Clarinha — Não se acabam mais essas malditas eleições?

Miranda — Oh! não pense que me esqueço daquela nossa conversa. Amanhã...

Clarinha — O que tem?

Miranda — Pretendo falar a Henrique.

Clarinha — A respeito?...

Miranda — Como está esquecida! Até logo, (a meia voz) minha linda sobrinha! (Vai sair)

Clarinha — Engraçado!... olhe! Faça-se deputado depressa para que Bela fique descansada; e quando for Ministro, lembre-se que tenho um favor a pedir-lhe.

Miranda — Loterias para teatro lírico?

Sales — Realmente é uma necessidade!

Clarinha — Não, senhor; é um hábito da Rosa aqui para o senhor Sales.

Miranda (rindo-se) — Ah! (Sai)

Sales — Agradeço muito, minha senhora!

Clarinha — Se há de ter o trabalho de comprar todos os dias uma flor para deitar na gola do casaco...

Sales — Esta flor vale mais para mim do que uma fita.

Clarinha — E de longe faz o mesmo efeito!

Sales — Nunca reparei nisso, D. Clarinha!

Clarinha — Acredito! O senhor não se vê senão no espelho! É muito justo. (Entra Siqueira)

Sales — Confesso que não entendo.

Clarinha — É pena! O senhor Siqueira que lhe explique.

Siqueira — O quê, D. Clarinha?

Clarinha — O Sr. Sales não compreende como a gente se pode ver sem ir ao espelho.

Siqueira — Ah! Facilmente, Sr. Sales! Nos olhos dos outros...

Clarinha — Aprendeu?... Estimo muito!



CENA VIII

Isabel, Clarinha, Henrique, Sales e Siqueira

Siqueira (a Isabel) — Miranda saiu?

Isabel — Neste momento.

Siqueira — Já não pára em casa.

Isabel — Tem muito que fazer agora!

Siqueira — Sei; a maldita política. O pior vício que há em nossa terra.

Isabel — Os homens como Augusto, meu pai, precisam de uma vida agitada.

Siqueira — É verdade. As honras e as altas posições seduzem, mas fazem esquecer um tanto os amigos e até a família.

Isabel — Que quer? Ele tem necessidade de uma ocupação séria. (Joaquim coloca

diante de Isabel uma banca volante e a bandeja de chá)

Siqueira — E a educação dos filhos, e a felicidade doméstica?

Isabel, (Fazendo o chá) — Que tem?

Siqueira — Não são ocupações sérias e dignas mesmo de uma grande inteligência?

Isabel — Ah! Mas não bastam para o homem de talento. Estar sempre junto da mulher, vivendo para a sua família... Isso seria ridículo até.

Siqueira — Não digas isso!

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior12345...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →