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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

— Sabe-me dizer se o coronel estará em Jaguarão? 

— Homem, deve estar. 

— Então não sabe com certeza? 

— Até anteontem lá estava. Mas de um momento para outro pode ser preciso em outra parte. Ainda mais agora que os castelhanos aí andam na fronteira, fazendo das suas. 

Abrindo o ponche, o gaúcho tirara da guaiaca, espécie de bolsa de couro atada à cinta, um cigarro de palha e o preparava com a destreza de fumista consumado. 

— Bem; antes da noite saberei, disse tirando lume do fuzil. 

Entretanto o peão, erguendo-se do pelego, se aproximara da porta e olhava com atenção para o viajante. 

— A modo que estou conhecendo ao senhor? acudiu ele. 

— Pode ser, chamo-me Manuel Canho, para o servir. 

— Outro tanto; Francisco da Graça, mas todos me conhecem por Chico Baeta, um seu criado. Seu nome não me é estranho. Manuel Canho... De Ponche-Verde? — Isso mesmo. 

— Bem dizia eu. Agora me alembro; foi em umas corridas no Alegrete, há coisa assim como dois anos a esta parte. O senhor não esteve lá? 

— Fui um dos que correram. 

— Bem sei; e ganhou aos vencedores. Pois é isso, que eu tinha cá na idéia. E querem ver? Proferindo estas palavras, o Chico Baeta afastou-se do morzelo para melhor examiná-lo.

— Não há dúvida. Foi este o moço? 

— É verdade! 

— Eh pingo! exclamou o peão, dando com entusiasmo uma palmada na anca do animal. 

Só compreenderá a energia da exclamação do Chico Baeta quem souber que pingo é o epíteto mais terno que o gaúcho dá a seu cavalo. Quando ele diz “meu pingo” é como se dissesse meu amigo do coração, meu amigo leal e generoso. 

— Que faísca! Sr. Manuel Canho. Enquanto os outros ginetes, e os havia de fama, levantavam a poama na quadra, cá o morzelinho fez trás, zás, e fuzilou na raia como um corisco. 

Canho estava gostando de ouvir o elogio feito a seu animal: o cavalo é uma das fibras mais sensíveis do coração do gaúcho. Mas alguma coisa instigava o viajante, que fazendo um esforço interrompeu o peão.  

— Então se me dá licença, vou-me andando. Careço de estar hoje na vila sem falta.

— O churrasco está na brasa, se é servido?... 

— Obrigado; ficará para outra vez. Antes do descanso ainda tenho que fazer umas cinco léguas. 

— Pois, amigo, até mais ver.

— Com o favor de Deus. 

— Olhe; se vir lá pela vila a Missé, dê-lhe memórias; diga-lhe que em havendo uma folga, lá me tem para bailarmos o tatu. 

— Farei presente, respondeu rindo o Canho que já ia longe à desfilada. 

Naquele andar fez o viajante a porção de jornada que tencionava, e aproximou-se do arroio da Candiota, um dos afluentes do Jaguarão, que atravessa a campanha de norte a sul, na distância de algumas léguas da cidade. 

Medindo a altura do sol conheceu que era perto de meio-dia; já a seriema afinava a garganta para soltar o canto. 

Parando à sombra de uma árvore na beira do rio, o gaúcho saltou no chão, e sacou em um momento os arreios do animal. Enquanto o morzelo se espojava na grama para desinteiriçar os músculos entorpecidos pelo arrocho da cincha, o viajante batia o fuzil, e tirava fogo para acender um molho de galhos secos. 

A sela é ao mesmo tempo a bagagem do gaúcho; esse viajante do deserto, como o sábio da antigüidade, pode bem dizer que leva consigo quanto possui. 

A xerga lhe serve de cama; a sela forrada com o lombilho, de travesseiro. Nas caronas traz a maleta com a roupa de muda; na guaiaca patacões ou onças que constituem todo seu pecúlio. Entre a xerga e a manta, estende um pedaço de carne que o calor do animal cozinha durante a jornada. 

Manuel fez com presteza seus arranjos para a sesta; e deixando a carne a tostar sobre o fogo, aproximou-se do rio para lavar as mãos e o rosto. A janta foi expedita. Uma grande naca de carne com alguns punhados de farinha; e água bebida no bocal do estribo, que o rapaz teve o cuidado de lavar para dar-lhe a serventia de copo. 

Atirou-se então sobre a cama forrada com o pelego; e fumou dois cigarros de palha enquanto descansava.  

— Hoje em Jaguarão; e daqui a oito dias, Deus sabe aonde! Talvez contigo, pai, lá em cima; murmurou o gaúcho engolfando os olhos no límpido azul do céu.  

Meia hora não tinha decorrido, que o gaúcho levantou-se de um salto, e tirou do céu da boca o som com que a gente do campo costuma falar aos animais. A tropilha que pastava ali perto, conduzida pelo morzelo, aproximou-se gambeteando.

— Cá, Ruão! 

Arreado o animal, pulou o gaúcho na sela e atravessando o rio, partiu a galope. 

Seriam cinco horas e meia, quando no azul diáfano do horizonte se desenhou iluminada pelo arrebol da tarde a torre da igreja do Espírito Santo, que servia de matriz à vila de Jaguarão. 

Receoso talvez de que o último raio do sol se apagasse, deixando-o ainda em caminho, o gaúcho afrouxou as rédeas ao Ruão, que lançou-se como uma flecha. 


III 

O AGOURO 

 

(continua...)

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