Por José de Alencar (1857)
PEDRO - É já; não custa! Meio-dia, nhanhã vai passear na Rua do Ouvidor, no braço do marido. Chapeuzinho aqui na nuca, peitinho estufado, tundá arrastando só! Assim, moça bonita! Quebrando debaixo da seda, e a saia fazendo xô, xô, xô! Moço, rapaz deputado, tudo na casa do Desmarais de luneta no olho: "Oh! Que paixão!..." O outro já: "V.Ex.a passa bem?" E aquele homem que escreve no jornal tomando nota para meter nhanhã no folhetim.
CARLOTINHA - Oh! meu Deus! Que moleque falador! Não te calarás? (Lê.)
PEDRO - Quando é de tarde, carro na porta; parelha de cavalos brancos, fogosos; Pedro na boléia, direitinho, chapéu de lado, só tenteando as rédeas. Nhanhã entra; vestido toma o carro todo, corpinho reclinado embalançando: "Botafogo!" Pedro puxou as rédeas; chicote estalou; tá, tá, tá; cavalo, toc, toc, toc; carro trrr!... Gente toda na janela perguntando: "Quem é? Quem é?" "D. Carlotinha..." Bonito carro! Cocheiro bom!... E Pedro só deitando poeira nos olhos de boleeiro de aluguel.
CARLÔTINHA - Ora, mano não vem! Disse que voltava já!
PEDRO - De noite, baile de estrondo, como baile do Sr. Barão de Meriti; linha de carro na porta, até no fim da rua, e torce na outra; ministro, deputado, senador, homem do paço, só de farda bordada, com pão-de-rala no peito. Moça como formiga! Mas nhanhã pisa tudo; brilhante reluzindo na testa como faísca, leque abanando, vestido cheio de renda. Tudo caído só, com o olho de jacaré assim. E nhanhã sem fazer caso.
CARLOTINHA (rindo) - Onde é que tu aprendeste todas essas histórias, moleque? Estás adiantado!
PEDRO - Pedro sabe tudo!... Daí a pouco, música vom, vom, vom, tra-ra-lá, tra-ra-lá-ta; vem ministro, toma nhanhã para dançar contradança; e nhanhã só requebrando o corpo! (Arremeda a contradança.)
CARLOTINHA - Ora, senhor! Já se viu que capetinha!
CENA VII
Os mesmos, JORGE
JORGE - Mana Carlotinha, Henriqueta está lhe chamando para dizer-lhe adeus.
PEDRO - Sinhá Henriqueta está ai?
CARLOTINHA - Ela já vai?
JORGE - Já está deitando o chapéu.
CARLOTINHA - É tão cedo ainda!
PEDRO - Duas horas já deu há muito tempo em S. Francisco de Paula.
CARLOTINHA (à janela) - Mano não voltará para jantar?...
PEDRO - Não tarda aí, nhanhã!
JORGE (na mesa) - Olha! que pintura bonita, Pedro!
PEDRO - Comece, comece a remexer! Depois fica todo derretido. Foi moleque!...
CARLOTINHA - Quando Eduardo voltar, vai me chamar, ouviste, Pedro?... Jorge, venha!
JORGE - Já vou, Carlotinha!
CARLOTINHA - Não toque nos papéis de Eduardo; ele não gosta.
CENA VIII
PEDRO, JORGE
PEDRO (querendo tomar o livro) - Ande, ande, nhonhô; vá lá para dentro! Deixe o livro.
JORGE - Se tu és capaz, vem tomar!
PEDRO - Ora! É só querer!
JORGE - Pois eu to mostrei!
PEDRO - Está arrumado! Pedro, moleque capoeira, mesmo da malta, conta lá com menino de colégio! Caia! É só neste jeito; pé no queixo, testa na barriga.
JORGE - Espera; vou dizer a mamãe que tu estás te engraçando comigo!
PEDRO - É só o que sabe fazer; enredo da gente! Nhonhô não vê que é de brincadeira. Olhe este livro; tem pintura também; mulher bonita mesmo! (Abre o livro.)
JORGE - Deixa ver! Bravo!... Que belo! (Tirando um papel.) Que é isto?
PEDRO - Um verso!... Oh! Pedro vai levar à viúva!
JORGE - Que viúva?
PEDRO - Essa que mora aqui adiante!
JORGE - Para quê?
PEDRO - Nhonhô não sabe? Ela tem paixão forte por Sr. moço Eduardo; quando vê ele passar, coração faz tuco, tuco, tuco! Quer casar com doutor.
JORGE - E mano vai casar com ela?
PEDRO - Pois então! Mas não vá agora contar a todo o mundo.
JORGE - E ele gosta daquela mulher tão feia? Antes fosse com D. Henriqueta.
PEDRO - Menino não entende disto! Sinhá Henriqueta é moça bonita mas é pobre! A viúva é rica, duzentos contos! Sr. moço casa com ela e fica capitalista, com dinheiro grosso! Compra carro e faz Pedro cocheiro!... Leia o verso, nhonhô.
JORGE - Deixa-me; não estou para isto!
PEDRO - Ah! Se Pedro soubesse ler (sentando-se) fazia como doutor, sentado na poltrona, com o livro na mão e puxando só a fumacinha do havana. Por falar em havana. .. (Ergue-se, vai à mesa e mete a mão na caixa dos charutos.) Com efeito! Sr. moço Eduardo está fumando muito! Uma caixa aberta ontem; neste jeito acaba-me os charutos.
JORGE - Ah! tu estás tirando os charutos de mano!
PEDRO - Cale a boca, nhonhô Jorge! É para fumar quando nós formos passear lá na Glória, de tarde.
JORGE - Amanhã?
PEDRO - Sim.
JORGE - Eu vou pedir a mamãe.
PEDRO - Espere, deite sobrescrito neste verso, roxo, não; viúva não gosta desta cor; verde, cor de esperança!
JORGE - Toma!
PEDRO - Pronto!... Agora Pedro chega lá, deita na banquinha de costura, volta as costas fazendo que não vê! Ela, fogo! (Finge que beija.) Lê. E guarda no seio, tal qual como se o Sr. moço mandasse. O pior é se vai perguntar, como outro dia, por que Sr. moço não vai visitar ela; eu respondi que era para não dar que falar; mas viúva não quer saber de nada; está morrendo por tomar banho na igreja para deixar vestido preto!
JORGE - Então tu levas versos a ela sem mano mandar?
PEDRO - Pedro sabe o que faz! Agora veja se vai contar!
JORGE - Eu não!! Que me importa isto!
CENA IX
PEDRO, ALFREDO
ALFREDO - O Dr. Eduardo não está?
PEDRO - Não, senhor; saiu, Sr. Alfredo!
(continua...)
ALENCAR, José de. O demônio familiar. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7547 . Acesso em: 26 jan. 2026.