Por José de Alencar (1857)
No momento da partida, quando Jorge se levantou, D.Maria, que compreendia o que essas duas almas tinham necessidade de dizer-se mutuamente, retirou-se.
Os dois amantes apertaram-se as mãos e olharam-se com um desses olhares longos, fixos e ardentes que parecem embeber a alma nos seus raios límpidos e brilhantes.
Tinham tanta coisa a dizer e não proferiram uma palavra; foi só depois de um comprido silêncio que Jorge murmurou quase imperceptivelmente:
— Amanhã...
Carolina sorriu, enrubescendo; aquele amanhã exprimia a felicidade, a realização desse belo sonho cor-de-rosa que havia durado dois meses; a linda e inocente menina, que amava com toda a pureza de sua alma, não tinha outra resposta.
Sorriu e corou.
Jorge desceu lentamente a ladeira e, ao quebrar a rua, voltou-se ainda uma vez para lançar um olhar à casa.
Uma luz brilhava nas trevas entre as cortinas do quarto de sua noiva; era a estrela do seu amor, que brevemente devia transformar-se em Lua-de-mel.
CAPÍTULO III
Deve fazer uma idéia, minha prima, do que será a véspera do casamento para um homem que ama.
A alma, a vida, pousa no umbral dessa nova existência que se abre e daí lança um volver para o passado e procura devassar o futuro.
Aquém a liberdade, a isenção, a tranqüilidade de espírito, que se despedem do homem; além a família, os gozos íntimos, o lar doméstico, esse santuário das verdadeiras felicidades do mundo que acenam de longe.
No meio de tudo isto, a dúvida e a incerteza, essas inimigas dos prazeres humanos, vêm agitar o espírito e toldar o céu brilhante das esperanças que sorriem.
O futuro valerá o passado?
E nessa questão louca e insensata debate-se o pensamento, como se a prudência e sabedoria humana pudessem dar-lhe uma solução, como se os cálculos da providência fossem capazes de resolver o problema.
É isto pouco mais ou menos o que se passava no espírito de Jorge, quando caminhava pela praia da Glória, seguindo o caminho de sua casa.
Davam dez horas no momento em que o moço chegava à rua de Matacavalos, à porta de um pequeno sobrado, onde habitava, depois da sua retirada do mundo.
Ao entrar, o escravo preveniu-lhe que uma pessoa o esperava no seu gabinete; o moço subiu apressadamente e dirigiu-se ao lugar indicado.
A pessoa que lhe fazia essa visita fora de horas era seu antigo tutor, o amigo de seu pai, a quem por algum tempo substituiu com a sua amizade sincera e verdadeira.
O senhor Almeida era um velho de têmpera antiga, como se dizia há algum tempo a esta parte; os anos haviam aumentado a gravidade natural de sua fisionomia.
Conservava ainda toda a energia do caráter, que se revelava na vivacidade do olhar e no porte firme de sua cabeça calva.
— A sua visita a estas horas... disse o moço, entrando.
— Admira-o? perguntou o senhor Almeida.
— Certamente; não porque isto não me dê prazer; mas acho extraordinário.
— E com efeito o é; o que me trouxe aqui não foi o simples desejo de fazer-lhe uma visita.
— Então houve um motivo imperioso?
— Bem imperioso.
— Neste caso, disse o moço, diga-me de que se trata, senhor Almeida; estou pronto a ouvi-lo.
O velho tomou uma cadeira, sentou-se à mesa que havia no centro do gabinete e, aproximando um pouco de si o candeeiro que esclarecia o aposento, tirou do bolso uma dessas grandes carteiras de couro da Rússia, que colocou defronte de si.
O moço, preocupado por este ar grave e solene, sentou-se em face e esperou com inquietação a decifração do enigma.
— Chegando a casa há pouco, entregaram-me uma carta sua, em que me participava o seu casamento.
— Não o aprova? Perguntou o moço inquieto.
— Ao contrário, julgo que dá um passo acertado ; e é com prazer que aceito o convite que me fez de assistir a ele.
— Obrigado, senhor Almeida.
— Não é isto, porém, que me trouxe aqui ; escute-me.
O velho recostou-se na cadeira e, fitando os olhos no moço, considerou-o um momento, como quem procurava a palavra por que devia continuar a conversa.
— Meu amigo, disse o senhor Almeida, há cinco anos que seu pai faleceu.
— Trata-se de mim então? Perguntou Jorge, cada vez mais inquieto.
— Do senhor e só do senhor.
— Mas o que sucedeu?
— Deixe-me continuar. Há cinco anos que seu pai faleceu; e há três que,
tendo o senhor completado a sua maioridade, eu, a quem o meu melhor amigo havia, confiado a sorte de seu filho, entreguei-lhe toda a sua herança, que administrei durante dois anos com o zelo que me foi possível.
— Diga antes com uma inteligência e uma nobreza bem raras nos tempos de hoje.
Não houve nada de louvável no que pratiquei; cumpri apenas o meu dever de homem honesto e a promessa que fiz a um amigo.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Viuvinha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16674 . Acesso em: 09 jan. 2026.