Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)
Teodora Eu te juro, sob minha palavra de honra, que serei em tudo fiel a este acordo.
Firmino Faço o mesmo juramento.
Teodora Vês? Acabo sempre por concordar contigo: muito bem: agora mais duas palavras sobre o batizado da boneca: teimas em não querer que a reunião seja numerosa?
Firmino Um batizado de boneca é um passatempo tão juvenil que concedido à uma moça de dezesseis anos, só se tolera em família e em sociedade de íntimos amigos.
Teodora É uma explicação; mas se Júlia exigir grande festa e baile?....
Firmino Júlia! Júlia! Tu a deitaste a perder...
Teodora Sim... fui eu!... Mas se ela exigir?...
Firmino Oh! Não lhe digas que resumimos os convites; deixa que ela sonhe com o baile.
Teodora Previno-te de que em caso de revolta direi a Júlia que se entenda contigo.
Firmino Não: é melhor iludi-la... Júlia é uma bonequinha... mas parece que a lembrança de Teófilo não lhe perturba o sono. (consulta o relógio) Dez horas da manhã!
Teodora Vou ver se as duas meninas já se resolveram a amanhecer. (vai-se)
Firmino
(seguindo-a) Até logo... saio; mas volto cedo.
Cena 4ª
Firmino e Peregrino
Firmino Ah! Pensei que não estavas em casa.
Peregrino Entrei agora mesmo: vim pedir a meu pai que não esqueça o meu amigo Simão de Souza na lista dos seus convidados para o batizado da boneca de Júlia.
Firmino Simão de Souza... que espécie de interesse...
Peregrino Ele me protege em meus negócios: ainda há três dias adiantou-me dinheiro para comprar quatro escravos que logo vendi com seiscentos mil réis de lucro.
Firmino Ah! Eu sempre o tive por homem de bem... ultimamente festeja muito Teodora, quando a encontra no teatro ou no baile. Vou mandar convidá-lo...
Peregrino O convite o exultará: o meu amigo pensa também, como outros, a respeito de Corina...
Firmino Em Corina?... Onde a viu?...
Peregrino Não a viu ainda, mas tem conhecimento de seu dote...
Firmino Não pode ser convidado.
Peregrino Meu pai, Simão de Souza começa a envelhecer, é feio e rude. Não há risco em deixá-lo vir; mas dada a hipótese de que fosse feliz, eu que receio não vencer a indiferença glacial de Corina, teria a consolação de vinte por cento do dote da noiva.
Firmino Então ele te propôs?...
Peregrino Isso é casar-me com uma sobrinha que possui cerca de trinta apólices de conto de réis.
Firmino Convidarei em todo o caso o homem. (vai à porta do interior)
Peregrino Obrigado, meu pai.
Firmino Teodora está no segundo andar: escutas, trata com atividade de agradar a Corina: eu tenho de fingir-me neutro, chama ao teu partido a filha do teu padrinho, que gosta muito da minha pupila... eu já vou falar ao compadre: nada disso seria preciso se eu não tivesse oposição em casa... mas Carlos.
Peregrino Carlos não me incomoda: é um excelente mancebo, que estudou suas letras, agora passa a vida, freqüentando as galerias das câmaras, fazendo versos e lendo romances e poesias. Está arrufado comigo porque soube que eu negociava em escravos.
Firmino E que tem isso?...
Peregrino Carlos é um pobre e vão sonhador; há de proceder como eu quiser.
Firmino Sim... porém a mãe de Carlos...
Peregrino Minha madrasta.... esposa do meu pai.... eu a respeito e amo; todavia é mãe, e é raro que, julgando de seu filho, haja mãe que deixe de ser tola.
Firmino (rindo) Este Peregrino!... mas... já te disse o que queria... Teodora pode chegar... vai-te.
Cena 5ª
Firmino, Peregrino, que se retira, Criado, que se retira, e logo Tomás Pereira
Criado O senhor Tomás Pereira.
Firmino Conduza-o para esta sala (vai-se o criado).
Peregrino Meu pai, eu prevenirei ao meu amigo Simão de Souza...
Firmino Ele receberá o convite daqui a duas horas...
Peregrino Vossa mercê me dá dinheiro a ganhar... hoje comprei escravos. Não tenho reservas com meu pai: uma pupila rica é mina de ouro.... o caso é saber explorar a mina... (vai-se)
Firmino (a Tomás) Sem cerimônia... o senhor é amigo da família. (saúdam-se) Sente-se... (sentam-se) por aqui a esta hora?
Tomás Dever de fiel corretor: vendi as três apólices melhor do que esperava: eis o dinheiro e a nota da transação. (entrega)
Firmino (Examinando o papel e o dinheiro) Que diligência! Obrigado.
Tomás A minha visita ainda tem outro motivo... mas confidencial.
Firmino Pode falar, estamos sós.
Tomás Sou corretor, procurador, negociador, e quando proponho, não ofendo: franqueza, no seu lugar eu já tinha casado sua pupila; uma vez porém que o senhor o não quer fazer, digo-lhe que seria loucura rematada não ganhar licitamente algumas dezenas de contos, livrando-se do encargo da tutoria.
Firmino
É uma nova, a terceira proposta que me vem fazer
para casar Corina?...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de Macedo. Uma pupila rica.