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#Comédias#Literatura Brasileira

Romance de uma Velha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

BRAZ – Inviolável e sagrada; para que lhe deram o nome de Clemência? não tem culpa de ser muito clemente; asseguram-lhe todos que é formosa; ora, o trabalho e a fadiga são nocivos à formosura, e, portanto, ela passa os dias a limpar e a delgaçar as unhas que usa crescidas, como a imperatriz da China; o pai se ufana de vê-la realçar-se nas sociedades; é lógico pois que ela despenda com vestidos e enfeites muito mais do que o vaidoso está no caso de gastar com a filha. Eu não vejo que censurar em Clemência.

VIOLANTE – Hás de repetir tudo isso diante deles.

BRAZ – Seria a milésima edição de uma obra, de que não se tivesse vendido um só exemplar das novecentas e noventa e nove; mas vire agora a folha e leia no verso: Casimiro é um negociante modesto, porém honradíssimo; Mário é generoso e sensível; Clemência é honesta, paciente e de ótimo caráter na vida doméstica; são três anjos pelos corações que parecem três diabos pela falta de juízo.

VIOLANTE – Por isso ralharei até rebentar ou corrigi-los.

BRAZ – Tratarei de preparar o meu luto; porque a madrinha rebenta.

VIOLANTE – Braz, é deles que hoje me preocupo; há na vida três idades: a idade em que se vive pelos outros, a idade em que se vive com os outros, a idade em que se vive para os outros; estou nesta última: aos sessenta e dois anos chegaram-me as nozes, quando já não tenho dentes; a minha riqueza é apenas um depósito, pertencerá a vocês mais tarde.

BRAZ – Que tentação! madrinha, não repita isso, que faz calafrios... as cócegas da herança são capazes de fazer-me ir conversar com algum químico sem consciência.

VIOLANTE – Ainda não fiz testamento.

BRAZ – É o que lhe vale: declaro-me inofensivo provisoriamente.

VIOLANTE – O gracejo é de mau gosto.

BRAZ – Gracejo! o caso é muito sério e os dois animais mais sérios deste mundo são o burro e o dinheiro; creio que foi por isso que se chamou burra a arca pecuniária.

VIOLANTE (Vendo Clemência.) – Até que enfim.

CENA III

VIOLANTE, BRAZ e CLEMÊNCIA, vestida com exageração da moda

BRAZ – Amanheceu.

CLEMÊNCIA – Engana-se; a hora é quase do crepúsculo da tarde. (Chega ao portão.)

BRAZ – Segue-se que me enganei na hora; mas não me enganei com o Sol: sinto que o crepúsculo preceda apenas ao ocaso.

CLEMÊNCIA – Não se aflija; há sóis que brilham também de noite. (Senta-se.)

VIOLANTE – Modéstia até aí! Clemência, o Braz está se divertindo contigo: tu mesma, se te julgasses formosa, como o Sol, não levarias tanto tempo a enfeitar-te diante do espelho.

CLEMÊNCIA – Que erro! só as feias fogem do espelho. O toucador tem encantos!... é claro que não falo de mim; quando, porém, uma moça bela e gentil, em pé, defronte do espelho, se embevece, contemplando a sua imagem, ao mesmo tempo que com suave e preguiçoso pente alisa as ondas de seus formosos cabelos, e admira o contraste da negrura deles com o marfim de seus ombros magníficos, e sorri de indizível satisfação que ainda se exalta com o reflexo da graça do seu riso, do mimo da sua boca, da brancura e pureza de seus dentes, da flama celeste, irresistível do seu olhar... é claro que não falo de mim... criatura feliz, privilegiada, rainha de corações... oh! o tempo corre e ela o não sente... as horas passam no gozo do êxtase... da bem aventurança da consciência...oh! o espelho é tão doce!... tão embriagador!... tão feiticeiro!... titia, às vezes eu fico aí presa manhãs... tardes inteiras...

BRAZ – É claro que ela não fala de si.

CLEMÊNCIA – Só conheço um enlevo igual a esse.

VIOLANTE – Juro que não será ocupação séria.

CLEMÊNCIA – É o baile, titia.

BRAZ – Ao menos é expansiva e franca: então o baile...

CLEMÊNCIA – É a festa do amor e o triunfo da beleza; o baile é a liça ruidosa e fulgurante das senhoras que se disputam a primazia, combatendo-se com os olhos, com os sorrisos, com as graças do semblante, com a gentileza do corpo, o espírito e as prendas, com os brilhantes que ofuscam, com o bouquet, com o leque delicado que perguntam e respondem, e então... a mais bela... não falo de mim, repito; a mais bela suspira surpreendida pelo fim da noite que voara, e em que ela esquecera o passado, e não pensara no futuro excitada pela música, arrebatada pela valsa, embriagada de incensos, aturdida de elogios, soberana de escravos, ídolo de admirações, ensurdecida pelos hinos, e feliz, imensamente feliz, porque a luz da sua beleza resplandeceu como a flama do incêndio, deixando o fogo em vinte ou mais corações...

VIOLANTE – Misericórdia! por fim de contas no meu tempo não era assim.

CLEMÊNCIA – Era, titia; ou no seu tempo não havia moças.

BRAZ – Mas em último caso o que dá de si o baile?

CLEMÊNCIA – Dá antes de tudo o gozo do que chamam vaidade, que é a poesia da vida da moça bela e gentil. A vaidade! falem de nós os senhores que morrem por comendas, títulos, grandezas, e que põem em guerra a humanidade para serem ministros de estado só pelo gosto de trazerem ordenanças atrás dos carros: a vaidade! que seja vaidade; a nossa é menos nociva.

BRAZ – Concordo, menina, concordo, palavra de honra; mas além da satisfação da vaidade...

CLEMÊNCIA – No baile a mulher procura, e acha, ou pode achar a realização da sua única esperança de futuro, o amor, e pelo amor um marido apaixonado...

(continua...)

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