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#Comédias#Literatura Brasileira

Remissão de Pecados

Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)

GERTRUDES – Mas se ele paga bem...

BRÁULIO – Ele? com o dinheiro da irmã... e que me importa?... o certo é que paga; eis o essencial; o mundo é assim... o sr. Fábio faz dessas, e ainda mais, está lá dentro passando a perna a uma dúzia de jogadores paios, e ganhando de sociedade comigo, que arranjei as cartas, e amanhã há de chamar-me miserável e mesmo canalha, e meia capital do Império o festejará como homem de bem e nobre cavalheiro!... o mundo é assim: arranjemos pois a nossa vida; viva o dinheiro, venha ele como vier; anda, vai pôr Dionísia de sobreaviso... ainda...

GERTRUDES – E já, que aí chega o maldito Quebra-louça: parece que perdeu no jogo... bem feito! ( Vai-se pelo fundo.)

CENA III

BRÁULIO e CINCINATO, que sai da direita, assoviando.

BRÁULIO – Deu o basta, sr. Cincinato?...

CINCINATO – Questão duvidosa; mas com certeza fico para ceia: faça de conta que é pausa de suspensão; palpite de refrescar; em honra, porém, de meu nome romano, quando deponho a ditadura, pego logo na charrua: acabei de depor o lasquenet, quero uma garrafa de cerveja.

BRÁULIO – Vou fazê-lo servir... (Indo-se e volta à voz de Cincinato.)

CINCINATO – Um momento: sou inimigo das falsificações de nacionalidades; temos tantas latas de sardinhas de Nantes de Jurujuba, tantas caixas de charutos de Havana da Bahia, tantas maravilhas de fora arranjadas cá dentro, como garrafas de cerveja Bass de Liverpool da Rua do Riachuelo, e de Munich mesmo da Baviera da Guarda-Velha; ora, em matéria de cerveja suspendi as garantias do meu patriotismo.

Quero uma garrafa de cerveja de Liverpool da Inglaterra.

BRÁULIO – Legítima! na nossa casa não há contrafações.

CINCINATO – Olhe que também não ataco a indústria dos letreiros que é a arte de vender gato por lebre: qual é mesmo o letreiro da sua casa?... “Casa de penhores de objetos de prata, ouro e brilhantes” e aqui há contrafações: atesto na fé do meu título; Cincinato Quebra-louça, assinado por cima de estampilha. Venha a cerveja.

BRÁULIO – Já podia estar servido. (Indo-se.) sr. Demétrio! como passou?...

(Cumprimenta e vai-se pela esquerda.)

CENA IV

CINCINATO e DEMÉTRIO, que entra pelo fundo

DEMÉTRIO (Cumprimenta.) – Amável Cincinato...

CINCINATO – Adeus, prodígio.

DEMÉTRIO – Que é isso de prodígio? ... (Senta-se à esquerda.)

CINCINATO – Vocês não me chamam Quebra-louça?... pela mesma regra eu te chamarei prodígio, e o és, palavra de honra: figurino de Paris no vestir; muçulmano no amor das ninfas mais caras; gastrônomo a romano da decadência; pagodista e jogador, como herdeiro do conde de Monte-Cristo, ofício, benefício, ou fonte de rendimentos não constam do Almanaque de Laemmert: és prodígio ou não és?... (Entra um criado trazendo cerveja.)

DEMÉTRIO – Sou um dardo que te atravesse. (O criado abre a garrafa.)

CINCINATO – O pior é que os teus parentes prodígios vão abundando muito na capital! como se arranjam vocês?... despesas a abarrotar, receita conhecida zero, déficit jamais!... (Ao criado.) Não faz espuma, diabo! (A Demétrio.) Demétrio, tu deves ser ministro da fazenda...

DEMÉTRIO – Não jogas hoje? ...

CINCINATO – Infandum, regina, jubes renovare dolores! ...

DEMÉTRIO – Perdeste?...

UMA VOZ (Dentro.) – Levante!

CINCINATO – Aquele grito é de algum caído.

OUTRA VOZ (Dentro.) – Eu sou sete...

FÁBIO (Dentro.) – Eu sou dama.

CINCINATO – Milagre do lasquenet: o Fábio tornou-se dama.

DEMÉTRIO – Joga por fora. Quem ganha?...

CINCINATO – Prodígio, toma o meu conselho; não joga esta noite. Queres cerveja?... (Bebe e faz uma careta.) nem por isso.

DEMÉTRIO – Por que? ...

CINCINATO – É que chocou, passando a linha: traficâncias do equador...

DEMÉTRIO – Que me importa o equador?... porque aconselhas a não jogar?

CINCINATO – Ainda caso de astronomia; descobri no horizonte a cauda de um cometa: do tamanho da língua dos lambedores da alfândega.

DEMÉTRIO – Quem é?

CINCINATO – O adventício da penúltima sessão: d. Donaldo Cabalero Salzedo Cuencas da Silva Escalona de los Montes e Pincaros de Hermosa e de las Torres de Calatrava Bivanco de la Mancha Mançanares Barbuda e Rui de Aragão e Castella...

DEMÉTRIO – Basta... o espanhol?... e então?...

CINCINATO – Na primeira tripa lambeu-me trezentos mil réis que fui parando para experimentar... desconfiei da experiência e vim tomar cerveja por consolação...

DEMÉTRIO – E não pensas em desforra?...

CINCINATO – Nada: a desforra é rapariga muito provocadora, mas de ordinário quem vai atrás dela perde-se no caminho...

DEMÉTRIO – Pois eu te mostro como se faz frente ao espanhol (Vai-se)

CINCINATO (Seguindo-o até a porta.) – Avante, prodígio! eu fico na

retaguarda, que é a guarda reta dos generais prudentes. (Deita-se no sofá.)

CENA V

CINCINATO, que fuma e bebe cerveja, depois BRÁULIO

DIONÍSIA (Cantando dentro.) – Casta diva qu’inargente Queste sacra, etc.

CINCINATO (Acompanhando com a mesma música.) – Bela moça qu’enfeitiças

Esta casa do barato,

Vem, consola o pobre paio

Que pagou bem caro o pato.

DIONÍSIA (Dentro.) – Ah, bello à me ritorna

Del fido, etc.

CINCINATO (Acompanhando.) – Ai, triste, o meu dinheiro

Não volta ao bolso meu;

(continua...)

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