Por Joaquim Manuel de Macedo (1858)
Celestina – Fecharam-se-me todas as portas, e todos me repeliram; desanimava já, quando ouvi soar a meus ouvidos: “Eis uma mulher perdida!” Levantei a cabeça, e disse: “Não me perderei”: corri a uma igreja, e rezei por meu pais, e por mim; quando saí da igreja, tinha já o coração cheio de esperança e de coragem; trabalhei... sabia bordar, bordei; sabia desenhar, desenhei; cosi, copiei manuscritos, e música, e finalmente vi que podia com o meu trabalho viver independente de todos, e pura aos olhos de Deus; hoje desprezo os meus verdugos, amo-te, Adriano; mas amo-te honesta, casta e virtuosa para ser digna de ti quando me deres a mão de esposo, se o nosso amor for abençoado por Deus. Assim pois, Adriano, coragem! Coragem, e trabalho!
Adriano – Oh! Tu me animas sempre! E animemo-nos ainda mais agora, Celestina, porque aproxima-se o momento, que deve realizar nossos sonhos de ventura.
Celestina – Como então?...
Adriano – Meu editor me espera daqui a pouco para ajustar comigo o preço de uma composição que ontem lhe enviei, e ao mesmo tempo espero vender uma ópera ao teatro Provisório, e conto com um lugar na orquestra do teatro de S. Pedro.
Celestina – Se tudo isso se puder realizar...
Adriano – Realizar-se-á, estou seguro; tenho todas as condições que se requerem.
(canta)
A fortuna é Qual moça galante,
Que nos traz em constante lidar;
Já provoca, já foge, e já volta,
Te que sempre se deixa apanhar
E contando já com o meu próximo adiantamento, receberei aqui visitas esta noite. Celestina – E que visitas?...Adriano – Alguns amigos camaradas de colégio: o que havia de ser, Celestina?... na última corrida de cavalos interessei-me por um maldito mouro de crinas brancas e de cauda preta; tinha-me esquecido que de um mau mouro não se pode fazer bom cristão, e ainda mais era um diabo de cavalo que pertencia a todos ao mesmo tempo, porque tinha todas as cores: era um cabalo que fazia furor, um cavalo da moda! Apostei por ele e perdi! Perdi um bolo inglês e doze garrafas de champanhe!Nunca mais confiarei em animais, que pertençam a todas as cores.
Celestina – E portanto pagas hoje o bolo inglês e o champanhe?...
Adriano – É verdade! Faço esse obséquio aos meus amigos: também eles têm-me recebido tantas vezes em suas casas, que hoje por minha parte quero também recebê-los: o pior é que os meus amigos são ricos, e eu pobre; oh!... não é inveja, é orgulho: quando eu vejo que eles se deitam sobre bilhetes do banco, e eu não possuo coisa nenhuma, Celestina, daria sem hesitar tudo, absolutamente tudo quanto possuo, para ter uma renda de cem contos de réis.
Celestina – Vou deixar-te em sossego para que te ocupes dos preparativos do teu bolo inglês; mas olha, toma cuidado em ti, Adriano; tu tens a cabeça muito fraca... não te adiantes muito pelo champanhe...
Felisberto (Entrando) Ora graças, que uma vez o encontrei!... CENA VAdriano, que acompanha Celestina até à porta, e FelisbertoAdriano – Oh! Caro e preclaro amigo Felisberto!... (Acompanha Celestina).
Felisberto (à parte) – Exatamente... a nova rua, que a Câmara Municipal projeta abrir, deve passar por aqui, e se eu consigo comprar esta casa, hei de vendê-la com um lucro de trezentos por cento, pois que tenho bons padrinhos.
Adriano – Às ordens do meu amigo Felisberto!
Felisberto – o senhor adivinha sem dúvida os motivos que me trazem aqui...
Adriano – Oh! Incomparável alfaiate! Vem seguramente ver se tenho necessidade de alguma roupa; chega bem a propósito... a minha roupa mais nova mostra já os cordões diabolicamente, e exige a todo transe uma reforma.
Felisberto – E o senhor pensa...
Adriano – Em lhe encomendar roupa nova... pois que duvida?... tenho inteira confiança na sua tesoura magistral; o senhor é o alfaiate de minha confiança; não lhe pose retirar o meu voto.
Felisberto – Eu suponho; quando se é o alfaiate do corpo diplomático...
Adriano – Ah!... então o senhor é o alfaiate dos diplomatas?... por que não mo disse há mais tempo?
Felisberto – Tenho essa honra; porém, voltemos ao que mais importa; o senhor diz que quer roupa nova?... bem; mas a respeito da velha, que lhe fiz...
Adriano – Já não presta para nada, meu querido Felisberto!
Felisberto – Estou por isso; é, porém, necessário que nos entendamos acerca de...
Adriano – Da cor provavelmente?... é verdade; qual é a do último gosto?...
Felisberto – Não há cor dominante agora; mas não é isso... o que eu quero é que...
Adriano – Já lhe disse que o senhor é o alfaiate da minha confiança; escolha portanto as fazendas, corte, cosa, vista-me! Eu me entrego em suas mãos... Que mais pode desejar?...
Felisberto – O que eu desejo é que finalmente falemos sobre...
Adriano – Sobre os botões, não é isso?... meu amigo, prefiro os de metal, porque o metal...
Felisberto – Exatamente é por causa do metal que eu aqui venho; o meu metal, meu senhor, é muito raro... não aparece nunca... o meu cobrador já cansou de o procurar, e agora venho eu próprio a ver se sou mais feliz: então?... (Canta)
Está perdendo o seu tempo,
Se finge não me entender;
Pague já o que me deve,
Que eu tenho mais que fazer.
Não sou criado do povo;
Quem trabalha, quer comer;
Pague já o que me deve,
Que eu tenho mais que fazer.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O Primo da Califórnia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16670 . Acesso em: 6 jan. 2026.