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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— É preciso! é justo, é inevitável!... deves pertencer à esquerda ou à direita do teatro, continuou o diletante com entusiasmo, e sem notar que se fazia o objeto da geral atenção; sim!... Otávio recebe o conselho de um amigo, que não quer ver manchada a tua reputação; nada de sentar-te na direita... nada de Candiani!... escuta: a Delmastro tem por si o prestígio da ciência, e o voto dos peritos; quem diz Candianista, diz criança, estouvado, estudante! A Candiani tem uma voz... e mais nada: e uma voz... triste... sem bemóis, nem sustenidos... lamentável... horrível... detestável... fulminante... que faz mal aos nervos!...

— Apoiadíssimo! gritou o velho, concertando os óculos que, com o gosto de ouvir o Delmastrista, lhe haviam caído do nariz no queixo.

— O moço do dominó há muito tempo que não dava conta do jogo.

— Ora, fico-lhe obrigado, disse-lhe o parceiro, aqui está um seis, e o senhor ajunta-lhe um quatro... inda pior, um dois?... então que é isso?... um três? outro quatro... um cinco? o senhor quer divertir-se à minha custa?... mas... o que tem, meu amigo?... está tremendo... e tão pálido... Com efeito, o moço tremia convulsivamente. E o Sr. Antônio, sem atender a coisa alguma, prosseguia:

— E a Delmastro?... a Delmastro é doce e bela, melodiosa e engraçada: sua voz subjuga, arrebata, amortece, vivifica, encanta, enfeitiça, derrota, fere e mata quem a ouve!... sua voz cai no coração, e de lá toma parte no sangue da vida! e, sobretudo, professora incontestável... professora até à ponta dos cabelos, adivinha os pensamentos de Donizetti, corrige-lhe os erros, adoça-lhe as rudezas, e diviniza-lhe as harmonias! sabe música... muita música... toca a música...

— É falso!... é falsíssimo!... é falsíssimmo!... bradou, espumando de raiva o moço do dominó e fazendo voar pelos ares todas as peças do jogo.

— O senhor atreve-se a dizer-me que é falso?!!

— É falso!... repito, é falso!...

— Que diz, senhor?... exclamou o velho, atirando-se sobre o novo diletante, é falso?... essa palavra é motivo suficiente para um duelo: retire, pois, a expressão, e não se peje de o fazer; porque isto de retirar expressões é muito parlamentar.

— Retire a expressão! retire a expressão, gritaram alguns.

— Não retire!... não retire!... bradaram outros.

— Não retiro!... aceito todas as conseqüências!... repito que é falso!... digo que a Delmastro nada sabe de música, estudou pelo método de Jean-Jacques Rousseau, tem voz de assobio de criança em Domingo de Ramos; enquanto a Candiani é um rouxinol!... um milagre de harmonia!... um anjo!...

— Apoiado!... bravo!... bravo!... muito bem!...

— Não!... não! ali o Sr. Antônio é quem tem razão.

É de notar, que apenas o moço declarou que não retirava a expressão, o velho Delmastrista foi-se pondo pela porta fora, murmurando entre dentes:

— Não se pode argumentar com ele!... não é parlamentar...

— Senhores, acudiu com muita prudência um servente do hotel, por quem são, não vão às do cabo aqui... isso desacreditaria a casa!...

— Não, tornou o Candianista, é preciso dizer a este senhor que estou pronto a sustentar o que avancei, onde, como e quando ele quiser!...

— Pois bem, respondeu o Sr. Antônio, até à noite no teatro!

Aceito a luva! Até à noite no teatro. Sim! e lá terei o prazer de rebentar estas mãos a dar palmas, quando ela... quando eu digo ela, já se sabe que é da doce Candiani que falo, entoar com a ternura, com que costuma, o seu

Al dolce guidami Castel natio.

E o apaixonado do moço começou a cantar acompanhado por todo o rancho de Candianistas, que se achava no hotel; e que, vendo o Sr. Antônio, para nada ficar devendo ao seu competidor, exclamou:

— E eu hei de ter a glória de fazer em postas esta língua, dando entusiásticos bravos, quando ela... quando eu digo ela, já se sabe que é da inefável Delmastro que falo, fizer soar a branda voz no seu

Ah! pensate che rivolti

Terra e Cielo han gli occhi in voi;

E com o mais detestável falsete, pôs-se a estropiar o sem dúvida belo — Ah! pensate —, que não só por ele, como por todos os outros delmastristas presentes, foi completamente desnaturado.

A bons minutos trovejavam de mistura no hotel — Al dolce guidami — com o — Ah!

pensate —, quando a esforços inauditos dos criados do hotel saíram para a rua os dois bandos, esquecendo-se o Sr. Antônio, no fogo do entusiasmo, que deixava com a maior sem-cerimônia o seu amigo.

Mas, nem por tal se escandalizou Otávio, que antes deu parabéns da boa fortuna com que havia escapado do meio daquela corte de maníacos; e, deixando o hotel, procurou passar divertidamente duas horas, que lhe faltavam, para ir ouvir Ana Bolena.

Passaram elas, e Otávio se achou no teatro de S. Pedro de Alcântara.

Não se via um só lugar desocupado; as cadeiras estavam todas tomadas, a geral cheia e abarrotada, e de momento a momento ouviam-se as vozes de alguns diletantes que bradavam: — travessas! travessas!...

(continua...)

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