Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Maurício — Que prazer! Que felicidade!...
Leonina — Pois é meu tio?...é o meu padrinho?...
Hortênsia — Sim, minha filha, é o teu padrinho.
Anastácio (Chorando) — Conheceram-me logo...amam-me ainda...não se esqueceram do velho rabugento...mas...parece-me que estou chorando...isto é uma vergonha na minha idade... Maurício, mano, outro abraço para esconder estas duas goteiras de casa velha!...(Abraçam-se) Leonina — E eu então, meu padrinho?...
Anastácio — Ah! Já, minha cabecinha de vento?...não te disse que havias de darme um abraço e um beijo? (Abraça-a e beija-a na fronte) Pois toma dois e três de cada espécie, e estes podes receber e pagar com juros sem dar satisfação à língua do mundo.
Maurício — Quando chegaste, Anastácio?
Anastácio — Agora mesmo; apeei-me à porta de tua casa.
Hortênsia — Mas por que gritavas com tanto desespero, Leonina?
Leonina — Ora...eu não conhecia meu padrinho, vendo-o correr atrás de mim para me abraçar...(Sentam-se)
Anastácio — Não foi isso, mentirosa! Deves dizer sempre toda a verdade a teus pais: mana, fui eu que, conforme o meu costume, ralhei como um frade velho. Leonina, tenho mais vinte anos do que teu pai, e portanto acho-me com direito de avô. Meus pais desejaram que eu fosse padre, e deram-me uma educação severa e estudos variados e sérios; circunstâncias que agora não vêm ao caso, afastaram-me das ordens sacras; fiquei, porém, com as menores, e , sem ser padre gosto de pregar os meus sermões; dispõe-te pois a aturar-me, que tens muito que ouvir e eu muito que ralhar.
Leonina (À parte) — Pior está essa! Mas o meu recurso é simples: para um velho que ralha, uma moça que ri.
Maurício — Sim, ralhe muito com ela e para isso não nos deixe mais nunca.
Anastácio — Mais nunca?...Havia de ser bonito! E quem me tomaria conta das fazendas em Minas?...cheguei há pouco e sinto que já estou pelos cabelos: a vida da cidade é só para gente vadia.
Hortênsia — Um homem solteiro, quando chega à sua idade e é bastante rico, tem o direito de descansar e gozar.
Anastácio — Não; o homem ocioso é sempre um peso para a sociedade. O trabalho é uma lei de Deus que se deve cumprir até a morte; sou rico, nunca porém serei vadio, nem perdulário.(Olhando). Mas pelo que vejo, tu andas pelas grimpas, Maurício? Aposto que tens os teus vinte contos de renda anual?.. não...ah! já sei, tens tirado a sorte grande cinco ou seis vezes.
Leonina — Qual! todos os bilhetes, que papai compra, saem brancos.
Anastácio — Então, acumulas alguns sete empregos para receber os vencimentos de todos eles, sem cumprir as obrigações de nenhum: acertei! A nação é quem paga o pato, e, coitadinha! Não se queixa, porque já está acostumada. A quanto chegam os teus ordenados?
Maurício — Tenho só um, Anastácio, e esse e mais achegos dão-me por ano cerca de cinco contos de réis.
Anastácio — Ao menos esta casa é propriedade tua...
Maurício — Infelizmente não; e as casas estão por um preço fabuloso: pago de aluguel por esta dois contos de réis.
Anastácio — E com os três contos que restam dos cinco que ganhas, e vestes com o luxo que vejo a tua família, pagas criados franceses que olham com desprezo para quem traz botas à mineira, e tens salas como esta, mármores, ricas mobílias, e esta grandeza toda?...Maurício!...
Hortênsia — Que quer dizer, meu mano?
Anastácio — Eu não quero dizer nada: o adágio antigo é que diz uma coisa muito feia, porém muito verdadeira.
Leonina — Ora, pois meu padrinho há pouco ralhava comigo, e agora já está ralhando com meu pai. (Levanta-se e senta ao pé do padrinho).
Anastácio — E que tem você que ver com isto?...destas despesas loucas e superiores aos recursos de quem as faz, transpira uma prova de demência ou de imoralidade. Quem despende mais do que ganha, ou cai na miséria ou no crime...quem...tá...tá...tá...que tenho eu de meter-me com a vida alheia?...Maurício, como está Felisberto?...
Maurício (Confuso) — Felisberto...
Hortênsia (Confusa) — Felisberto...
Anastácio — Sim...Felisberto, vocês hesitam? Acaso terá morrido?
Leonina — Minha mãe, quem é esse Felisberto?...
Anastácio — Quem é esse?... é teu tio, o irmão de teu pai, o cunhado de tua mãe, é meu irmão; um homem honrado e laborioso, e um mestre marceneiro da primeira ordem.
Leonina — Marceneiro!...pois isto é verdade, minha mãe? (Vai sentar-se ao fundo muito triste).
Hortênsia (À parte) — Antes nunca tivesse voltado à corte este velho doido.
Maurício (Levanta-se) — Meu mano...a alta sociedade que freqüentamos...as nobres relações que temos...certo pundonor...os prejuízos talvez....Têm feito com que...a pesar nosso...
Anastácio — Tu gaguejas?...estás engasgado com alguma indignidade?
Maurício —
Não...nós estimamos sempre muito a Felisberto; mas um simples
marceneiro...podia ser encontrado aqui por fidalgos, titulares, grandes
personagens enfim, que nos honram com a sua amizade; e por isso...e por um
vexame muito natural...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Luxo e vaidade: comédia em um ato. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1860. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1666 . Acesso em: 3 jan. 2026.