Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Com a durindana em punho,
Nas asas do furor,
Eu levo aos inimigos A morte e o terror.
Plácido, Leonídia e Afonsina, juntamente
O rufo dos tambores
Abate o seu valor;
Não sabe mais da espada,
Tem medo e não furor, E em dores de barriga Disfarça o seu terror.
Afonsina – Realmente, meu tio, vossa mercê vale os doze Pares de França juntos!
Prudêncio – Eu sou assim; sou o homem das grandes ocasiões!
CENA II
Os precedentes e Luciano
Luciano – Mas o pior é, tio Prudêncio, que as suas grandes ocasiões não chegam nunca.
Prudêncio – Ora, eis aí o senhor espalha-brasas conosco! Faça coro ali com a senhora, e venha também divertir-se comigo.
Luciano – Nada de amofinar-se; o dia de hoje é de festa, e portanto não se enfade.
Plácido – Entretanto, vejo-te de chapéu na mão, e disposto a roubar a Afonsina algumas horas de um dia, que deveria ser todo consagrado a ela.
Luciano – Meu pai, eu conto com o perdão de Afonsina e com o seu, asseverando que somente motivos da mais grave importância me obrigam a sair por uma hora.
Prudêncio – Oh! Pois não! O senhor anda sempre ocupado com assuntos da mais elevada transcendência; não há bernarda em que não entre, nem revolucionário a quem não conheça; agora então vive sempre pelas grimpas; freqüenta a casa do advogado Rocha, já é maçom, e ainda ontem foi duas vezes à casa do ministro José
Bonifácio.
Plácido – Muito bem, Luciano! Muito bem! Estas amizades fazem a tua glória: vai, meu filho, e continua a proceder como até aqui. (Tocam cornetas)
Prudêncio – Pior vai ela! Que diabo de tempo em que a cada instante se ouvem os ecos das cornetas e o rufar dos tambores!
Luciano – Creio que hoje deve ter lugar algum acontecimento importante; o nosso magnânimo Príncipe está a chegar de S. Paulo; mas...tio Prudêncio, por que não vai saber que novidades há?
Prudêncio – Pensa que tenho medo? ... pois vou imediatamente. (À parte) Hei de pôr a cabeça na rua; mas, pelo sim, pelo não, deixarei o corpo no corredor. (Vai-se) Luciano — Meu pai, procurei um meio de afastar o tio Prudêncio, porque antes de sair preciso dizer-lhe duas palavras em particular.
Leonídia – Visto isso, também devemos retirar-nos?
Luciano – Por um instante só, minha mãe.
Leonídia ( A Plácido) – Acho Luciano hoje mais sério do que costuma mostrar-se.
Luciano (A Afonsina) – Afonsina, eu voltarei nas asas do amor.
Afonsina (A Luciano) – Nunca sem tardar muito para a minha saudade.
Leonídia – Vem, Afonsina. (Vai-se)
Afonsina (À parte) – E ainda não sei o que contém a caixa nem a sala. (Vai-se)
brasileiros; A morte ou a vitória! CENA IV
brasileiros; A morte ou a vitória!
CENA IV
Plácido e Luciano
Plácido – Estamos sós, Luciano, e eu confesso que estou ansioso por saber que espécie de confidência me queres fazer.
Luciano – Meu pai, é força que eu lhe dirija uma pergunta, que aliás considero desnecessária. Oh! Por Deus o juro: não duvido, nem duvidei jamais da única resposta que vossa mercê vai dar-me; mas... julgou-se...é essencial que eu a ouça da sua boca.
Plácido – Excitas a minha curiosidade e começas a desassossegar-me: Fala. Luciano – Algum dia... vossa mercê se pronunciou contra o Príncipe e contra a causa do Brasil?...Mandou alguma vez socorros ou comunicações a Avilez quando ele esteve na Praia Grande, ou o aconselhou a resistir às ordens do Príncipe? Plácido – Luciano! És tu que me devias fazer uma tal pergunta?
Luciano – Não...não...eu bem o sei, eu o conheço, meu pai sinto que o ofendo: mas aceite que era indispensável que eu lhe fizesse esta pergunta, como é indispensável que eu ouça um – não – pronunciado pela sua boca.
Plácido – É possível!
Luciano – Oh! Responda-me por compaixão!
Plácido – Pois bem: pela minha honra, pela honra de minha mulher, pela pureza de minha filha, eu te afirmo que não.
Luciano – Obrigado, meu pai! Mil vezes obrigado! Nestas épocas violentas, nestes dias de crise, há às vezes quem duvide da consciência mais pura e da probidade mais ilibada; oh! mas a pátria de seus filhos é também a sua pátria e...oh meu Deus!
Que imensa felicidade me inunda o coração! (Abraça Plácido)
Plácido – Sim! Eu amo o Brasil, como o mais patriota dos seus filhos!
Luciano – Tocamos a hora suprema, meu pai! O Príncipe chegará de São Paulo talvez hoje mesmo; a última carta vai ser jogada, e o Brasil será contado entre as nações do mundo. Oh! sinto abrasar-me a chama do patriotismo! O Grito de liberdade e da independência soa já em meus ouvidos e em meu coração! Meu pai, um dia de glória vai brilhar para a minha pátria, e se combate houver, e se nele sucumbir teu filho, não o lamentes, porque morrerei a morte dos bravos, defendendo a mais santa das causas e mais bela das pátrias!
Plácido – Sim! Avante! Avante! avante!(Abraçam-se; soam trombetas) Soam de novo as trombetas...Que será?
Luciano – A trombeta belicosa
Infame, maldito seja
Quem recusa combater.
Da liberdade da pátria
A causa é sagrada e bela; É
honra vencer com ela, Honra por ela morrer.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Amor e Pátria. [S.l.]: [s.n.], s.d.. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16668 . Acesso em: 29 dez. 2025.