Por Bernardo Guimarães (1872)
Pelas suas Eugênio aquilatava as angústias de Margarida. Ele a via todas as tardes — e seu coração adivinhava — encaminhar-se para as paineiras do vargedo pálida e chorosa, com as madeixas revoltas e dispersas pelos ombros, como palmeiras a que o sopro violento da tormenta vergara o colo, derriçara os galhos e emaranhara os leques emurchecidos. Ali a via sentada largo tempo com os olhos fitos nos campos da fazenda paterna, triste como Eva exilada do paraíso, regando com as lágrimas as raízes daquelas árvores queridas, companheiras e confidentes fiéis das alegrias do passado e das amarguras do presente.
Entranhando-se nestas tristes imaginações Eugênio estoreia convulsivamente as mãos e o sofrimento lhe espremia do coração duas lágrimas, que o fogo do desespero lhe queimava nas pálpebras sem dar-lhes tempo a rolarem pelas faces, e a muito custo podia conter no peito um brado de blasfêmia e um ímpeto de revolta.
Cedendo, porém, ao peso de seu infortúnio o moço não ousava, nem tentava combater a paixão, que fazia a tortura da sua vida.
Sabia isso impossível; mas o seu espírito crente e religioso só julgava realizável a sua redenção por um favor especial do céu, pelo influxo da graça divina, favor que não esperava, nem ousava implorar, porque dele se julgava indigno; ou quem sabe? — tinha medo de ser atendido, e parecia-lhe que faltando-lhe aquele amor não poderia mais viver, faltar-lhe-ia o ar e a luz, e a terra e o céu se aniquilariam para ele.
Assim o infeliz moço agarrava-se à sua saudade e ao seu infortúnio, como o escorpião que rodeado de chamas se atraca à própria cauda, que o morde e que o lacera.
O abatimento e melancolia de Eugênio longe de desvanecer-se pareciam irse agravando com o tempo, fenômeno singular naquela idade, em que as dores da alma parecem dissipar-se com a mesma facilidade com que se evaporam as ligeiras névoas ao primeiro sopro das brisas travessas da manhã.
Entretanto, já quase um ano havia decorrido, e os padres começando a inquietar-se à vista do estado deplorável a que se ia reduzindo o pobre moço, entenderam que deviam lançar mão de meios mais enérgicos e positivos para debelar a paixão que não só o desviava do sacerdócio, como mesmo ameaçava levá-lo ao túmulo. Foi então que começaram as práticas e confidências íntimas com o padre diretor. A princípio e por muito tempo nenhum resultado tiveram, e o padre já desalentado quase desistiu da empresa. Suas palavras, conselhos e exortações não conseguiam produzir a menor mossa no espírito do mancebo, o qual revelandolhe sem rebuço o estado de sua alma, confessava sua fraqueza ou antes impotência para combater o mal que o assoberbava e às mais calorosas e eloqüentes objurgações do padre opunha um desanimado e glacial — não posso.
— Não posso! — dizia ele. — Bem vejo que tudo quanto V. Rma. me propõe é justo, razoável e salutar; quero fazer tudo quanto me aconselha; mas há uma força superior à minha vontade, um poder contra o qual vão quebrar-se todos os meus esforços. Não posso.
CAPÍTULO XVI
Mais um ano se passou empregado naquele inútil porfiar do padre diretor, que empenhara em vão todo o esforço e perseverança para arrancar o mancebo àquele estado de desânimo e abatimento. Este, não vendo outra solução senão a morte à sua cruel situação, abandonava indefeso o coração ao abutre da angústia, que o devorava.
Desalentados por fim os reverendos preceptores, deliberaram entre si e convieram em um expediente do qual esperavam pronto e seguro resultado. Escreveram ao pai do estudante fazendo-lhe ver o estado de melancolia e prostração em que vivia, e como apesar de todos os esforços por eles empregados a sua constante preocupação não o abandonava, continuando a mostrar-se inteiramente avesso ao estado sacerdotal.
Aconselhavam portanto ao pai, que procurasse casar a rapariga, que assim trazia desgarrada do bom caminho aquela ovelha predestinada, que Deus parecia ter criado para santas e sublimes coisas. Era este o único recurso eficaz com que contavam, pois era natural que o moço, sabendo que a menina estava casada, tratasse de banir do espírito aquela teimosa tentação de que Satanás se prevalecia para arredá-lo de sua natural e santa vocação. Que era pena perder-se por tão fútil e baixo motivo um digno sacerdote, que viria a ser um dia um dos mais belos ornamentos do clero brasileiro.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.