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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

Elias fazia um esforço supremo para dominar e disfarçar a tempestade que lhe ia dentro d’alma. Por seu lado o Major também estava longe de sentir no coração o prazer que procurava aparentar, com o aparecimento de Elias naquela ocasião. Bem conhecia a mútua afeição que, há longo tempo, existia entre sua filha e o jovem uberabense, e que era ela a causa da tristeza e do abatimento em que Lúcia há tanto tempo vivia, e da repugnância que sempre mostrara m aceitar marido. Agora, porém, que essa repugnância estava vencida, segundo ele pensava, e que o tempo e um novo afeto iam produzindo o desejado efeito, o aparecimento inesperado daquele rapaz não podia produzir em seu espírito agradável impressão, e não deixava de recear que a sua presença pudesse perturbar o complemento de seus projetos. Este receio subiu de ponto ao notar os olhares desvairados e o acento estranho da voz do mancebo, que debalde procurava dar a todo o seu ser um ar da mais fria indiferença.

- Nesta ocasião principalmente, meu amigo, prosseguiu o Major continuando a conversa, sinto especial prazer em ter mais uma testemunha, e da qualidade do senhor, da felicidade de minha filha, pois tenho a satisfação de participar-lhe que muito brevemente vai-se casar com o senhor Leonel, aquele belo e distinto cavalheiro que lá se acha junto dela.

- Já disso tive notícia, e dou-lhe os meus sinceros parabéns.

- É um excelente moço. Não há quem o veja, que desde a primeira vista não fique gostando dele. Quero ter a honra de desde já o apresentar a ele.

O simples do Major pensava que com esta formal declaração dava logo in limine golpe de morte a toda e qualquer esperança que ainda porventura Elias alimentasse a respeito de sua filha. Não tinha idéia da veemência das paixões enérgicas e profundas que, em vez de cederem, mais se inflamam diante dos obstáculos que se lhes opõem.

- Com muito gosto! vamos, senhor Major. Também desejo felicitar a noiva, disse Elias com um tom de amarga ironia que não escapou ao Major.

Este travou-lhe do braço, e o foi conduzindo para junto dos noivos.

-senhor Leonel, disse ele ao chegar defronte dos noivos, tenho a satisfação de lhe apresentar este meu patrício e amigo, que acaba de chegar de fora, o senhor Elias.

Leonel estremeceu, e olhou rapidamente para Elias. depois, reportando-se, fez um breve aceno com a cabeça, e o cumprimentou friamente.

Esta recepção fez ferver o sangue a Elias, que, resolvido a desmascarar aquele embusteiro, dirigiu-lhe resolutamente a palavra:

- Oh! senhor Leonel! . . . já não m conhece? . . . tenho infinito prazer em torna-lo a ver.

- Pois quê! exclamou o Major, então já se conheciam? . . .

Leonel levantou-se pálido, e com visível perturbação largou, ou, antes, deixou cair sobre a cadeira o violão que tinha nas mãos, e bastantemente enfiado balbuciou:

- O senhor é. . . quem? . . . não me lembro de todo.

- Pois deveras não se lembra de mim, continuou Elias em voz alta; veja lá. . . olhe bem para minha cara.

- Não; de todo não me lembro; tenho má memória, e lido com tanta gente, replicou Leonel recobrando aos poucos sua seguridade habitual.

- Pois não se lembra de Elias, o seu amigo, o seu protegido do Sincorá?

- Elias! . . . resmungou o baiano como que forcejando por lembrar-se, não sei. . . talvez com um esforço de memória. . . no Sincorá! . . . conheci e protegi tanta gente lá.

Aquela fatuidade e arrogância, aquele desdenhoso esquecimento, fosse real ou fingido, fez perder de todo a paciência a Elias, que bradou com toda a força de seus pulmões:

- Diga antes, senhor Leonel, enganei e roubei lá tanta gente!

- Insolente! gritou Leonel; senhor major, este homem ou é um doido, ou está bêbado; se o não fizer desaparecer imediatamente daqui, retiro-me d sua casa para nunca mais voltar. . .

- Cala-te, ladrão, bradou Elias; e, agarrando com mão de ferro o braço de Leonel, antes que ninguém pudesse estorvá-lo, em dois arrancos o arrastou para o meio da sala exclamando: És um ladrão, e hei de marcar-te na cara! . . .

Imediatamente se ouviu o estalo de uma bofetada nas faces do baiano. Um punhal reluziu na mão deste; mas já ambos estavam cercados e separados por uma turba imensa.

- Que desaforo, senhor Major! exclamava um; isto não se tolera! como admite em sua casa um doido destes!

- Prendam! prendam esse biltre, bradava outro. Se não é algum malvado, é algum doido, ou algum bêbado.

- Este rapaz noutro tempo mostrava ter juízo, dizia um terceiro, que conhecia Elias. Não sei como agora se lhe virou o miolo por sta maneira! . . . mande aferrolha-lo imediatamente; é um homem perigoso.

O Major dava aos diabos o momento em que se lembrara de apresentar a Leonel aquele endiabrado rapaz, e, entendendo que o despeito e o ciúme lhe tinham transtornado o juízo, tratou de dar providências para segura-lo bem.

Elias rodeado e segurado por uma multidão de esbirros oficiosos, que lhe dirigiam impropérios e baldões, foi dali arrastado para a casa da prisão, enquanto Leonel, cercado por seus amigos, brandia em vão o punhal, vomitando ameaças, e baforando vinganças.

Lúcia trêmula e atônita assistira àquela escandalosa cena sem dela nada compreender. Retirou-se como que assombrada para seu quarto; mas, naquele incidente, em que todos viam um deplorável e horrível desacato, ela entrevia como que um lampejo de esperança. Ela, e só ela acreditara nas palavras de Elias, e o julgava cheio de razão.

(continua...)

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