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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Abreu, conforme o costume, acabava de arranjar o aposento do amo, e ia sair fechando a porta para guardar a chave no bolso, quando Amália entrou. Passado o seu espanto, o velho decidiu-se a ficar de guarda à moça, que se sentara em uma cadeira de balanço.

Esse intento, porém, frustrou-se

— Pode retirar-se, Abreu, disse a senhora com um tom brando, mas firme.

O ex-furriel estremeceu, como se outrora o seu capitão lhe desse uma ordem contrária ao detalhe; e ficou imóvel.

— Não ouviu?

Aquela interrogação e o olhar que a acompanhara expulsaram o criado do gabinete. Ficando só, Amália fechou-se por dentro e começou a sua investigação.. Temia que o marido tivesse armas ocultas ou veneno. O que achou foram algumas chaves de aço dourado, enfiadas em um aro de prata.

Adivinhou de que aposentos eram estas chaves, e abrindo com uma delas a porta de comunicação, passou ao toucador de Julieta. As janelas cerradas deixavam o interior em um tênue crepúsculo.

Ao dar o primeiro passo, Amália recuou, e presa de súbita vertigem cairia, se as mãos não agarrassem convulsivamente as cortinas da porta.

Instantes depois, recolhendo-se precipitadamente ao seu quarto, a moça caía de joelhos, banhada em lágrimas e murmurando:

— Louco!.. Louco, meu Deus!...

Capítulo 18

Entrando no toucador de Julieta, escassamente alumiado pela claridade que filtrava entre as lâminas das rótulas, Amália tinha visto, ali sentada junto à mesa de charão, tal como lhe aparecera três meses antes, a desconhecida.

Fora o abalo dessa visão que lhe causara a vertigem.

Tornando a si, ainda a viu no mesmo lugar, impassível. Encheu-se de indignação e adiantou-se para expulsar de sua casa aquela indigna.

Apesar do estrépito dos móveis arrastados, a desconhecida permanecia imóvel.

Amália travou-lhe do pulso, e achou-o gelado. Era então um cadáver que tinha diante dos olhos? Não; apesar do horror que a invadiu, pôde afinal conhecer a verdade.

Era uma figura de cera.

Atônita com esta descoberta, a moça lembrou-se da vez que avistara a desconhecida recostada no sofá; e correndo ao quarto de dormir lá encontrou-a no mesmo lugar, coberta com um véu de seda.

Era outra figura de cera representando a mesma mulher com a única diferença da posição. Não podendo imprimir movimento à estátua, o artista o tinha suprido com a mudança da atitude e do gesto.

Qual era, porém, essa mulher assim reproduzida? Amália não duvidara um instante que fosse Julieta, embora as figuras não lhe avivassem no espírito a lembrança vaga que tinha da primeira esposa de Hermano.

Mas o retrato de Julieta ali estava, suspenso à parede do toucador, em um grande quadro a óleo, que representava a moça em corpo inteiro. Pela data via-se que fora tirado um ano depois de seu casamento.

Entre a estátua e o retrato havia muita afinidade de expressão; mas nos traços e contornos das feições, a diferença era sensível. Poderiam ser duas irmãs; não eram, porém, a mesma pessoa.

Hermano amara então outra mulher depois de Julieta? Amália repelia essa conjetura, que repugnava com o culto do marido pela esposa a quem primeiro se ligara.

A caixa de carvalho com preparos de flores artificiais tinha embutido na tampa o nome de Julieta. O lenço e as roupas das figuras de cera estavam marcadas com três iniciais J. S. A.; e da mesma forma o livro que Hermano lia à noite, um volume de Spirite de Teófilo Gautier.

A perturbação que a descoberta de tais particularidades lançou no espírito de Amália cresceu com a leitura salteada de alguns trechos daquela obra fantástica. Uma luz sinistra, como a do relâmpago, feriu o seu pensamento; compreendia enfim!

O amor de Hermano era uma demência. Não fora uma mulher que ele havia adorado, e adorava ainda; mas um fantasma, um ente de sua imaginação. Esse ideal, ele o tinha encarnado em Julieta, desde o primeiro momento em que a vira.

Por que misteriosa relação se havia operado essa transfusão, ninguém o poderia explicar, senão por uma afinidade moral.

Morta Julieta, o ideal se tornara outra vez fantasia ou sonho, até que pela mesma ignota afinidade se encarnara de novo na imagem de painel do Veronese, Ester ou Suzana, como dissera o Teixeira, referindo a visita ao Louvre.

Estas figuras, pensava Amália, são a cópia daquela imagem, a que Hermano dera o nome de Julieta, por ser o da primeira encarnação viva de seu ideal. Mas elas não tinham nada de comum com a morta senão essa misteriosa relação, que transparecia em uns longes da fisionomia.

Julieta não era formosa; e toda a sua graça estava unicamente na expressão. A mulher reproduzida em cera era uma beleza estatuária que ofuscava inteiramente o retrato. Como pois tinha Hermano identificado essas duas imagens tão diversas?

Este fenômeno só podia explicar-se por um modo. Hermano não idolatrava a forma, embora a admirasse quando ela realizava a sua imaginação . O que ele amava era uma larva, um espírito, um duende de beleza imaterial, que transportara a princípio para uma mulher, depois para urna imagem e afinal para uma estátua.

Estes pensamentos trabalhavam na mente de Amália, quando já recolhida a seu toucador, e atirada em uma poltrona baixa, ela cogitava sobre a cruel revelação que se fizera em sua consciência.

(continua...)

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