Por Visconde de Taunay (1872)
A enervadora ação do calor estival, juntavam sua influência as monótonas modulações de umas chulas e modinhas, cantadas ao som da viola de três cordas pelos camaradas de Cirino, acomodados no rancho junto ao paiol de milho.
A tudo, entretanto, resistia o jovem, e com ascendente desassossego consultava o seu relógio de prata, tirando-o cada instante do bolso.
Passaram-se segundos, minutos e horas. Afinal soltou ele um suspiro de alivio:
—Meio-dia!,.. Cuidei que nunca havia de chegar!...
Saindo todo animado para o terreiro, chamou com voz forte:
—Maria... O Maria Conga!...
Ninguém lhe respondeu. Só do lado da cozinha ladraram uns cães.
Depois de esperar algum tempo, rodeou Cirino toda a casa, como fizera com Pereira e, encostando-se à cerca que impedia a aproximação do lanço dos fundos, tornou a chamar:
—Ó Maria?... Maria!... Está dormindo, minha velha?
Vendo que os gritos ficavam sem resposta, saltou então o cercado e foi caminhando para a porta da cozinha, devagar, porém, e como que a medo.
—Ó Maria?!... Minha tia!... Olá! Ó de casa! chamava ele.
Afinal apareceu não a velha escrava, mas o anão Tiro, que pareceu, com imperioso movimento de cabeça, indagar a causa daquele intempestivo alarma.
—Que é da Maria Conga? perguntou Cirino chegando-se a ele.
Por meio de moderada gesticulação, mas muito expressivamente, deu Tico a entender que a preta fora ao córrego lavar roupa.
—E não há mais ninguém em casa? inquiriu o outro.
Mostrou o anão, com singular expressão de orgulho e despeito, que ali estava . ele e deitou um olhar de cólera para o imprudente curioso.
—Bem, replicou Cirino sorrindo-se, vá você então dizer à sinhá dona, que já chegou a hora de tomar o remédio. Trago o vinho, e é preciso quanto antes preparar café.
Desapareceu Tico, fazendo um aceno ao intitulado medico para que esperasse fora.
—Ora, exclamou este com aborrecimento e tom de chacota, aqui ao Sol?... Não está má esta!. .. E tal o mestre nanica?. . .
Sem mais cerimônia entrou, pois, na casa, penetrando no quarto que ficava entre a cozinha, teatro da atividade de Maria Conga e a sala de jantar, onde se dera a apresentação de Meyer a Inocência.
Daí a pouco, ouviu passos arrastados e aos seus olhos mostrou-se Inocência embrulhada em uma grande manta de algodão de Minas, de variegadas cores, e com os longos e formosos cabelos caídos e puxados todos para trás. Os grandes e aveludados olhos orlados de fundas olheiras, e o quebrantamento do semblante, muita fraqueza denunciavam ainda; entretanto, as cetinosas faces como que se apressavam a tomar cores, à semelhança de rosas impacientes de desabrochar e expandir-se vivazes e alegres. Ao chegar à porta, não a tranpôs; mas encostando-se à grossa trave que fazia de umbral, ali ficou parada, indecisa, com o olhar turbado e esquivo.
— Ao vê-la, deu Cirino com timidez alguns passos ao seu encontro; depois, por seu turno estacou junto a uma cadeira de comprido espaldar, antigo e sólido traste trazido por Pereira da sua casa de Piumi.
Após longa pausa, em que por vezes se cruzaram incertos os olhares perguntou com esforço:
—Então... minha senhora... como está?... Sente-se melhor?
—Melhor, obrigada, respondeu Inocência com voz aflautada e muito trêmula.
—Comeu já alguma coisa?
—Nhor-sim... uma asa de frango, mas com... bastante vontade.
—Sente o corpo abatido?
— A canseira está passando... ontem muito mais...
A pouco e pouco, fora Cirino recuperando o sangue frio e se aproximando da moça, que mais se apegou à umbreira, como que a procurar abrigo e proteção.
De um lado da porta ficou ela: do outro Cirino, ambos tão enleados e cheios de sobressalto que davam razão às olhadas de espanto com que os encarava Tico, empertigado bem defronte dos dois em suas encurvadas perninhas.
—Pois chegou a hora de tomar o remédio...
—Já, seu doutor? implorou Inocência.
—Nhã-sim.
—Eu não tenho mais nada...
—É para cortar de uma vez as sezões... Olhe, se elas voltassem... era um grande desgosto para mim...
—Mas é tão mau, objetou ela.
— Não é bom deveras... mas bem melhor é voltar à saúde...
Com um bocadinho de coragem, a gente engole tudo sem muito custo... Já que lhe amarga tanto... beberei também um pouco...
—Oh! não! protestou Inocência.
—É: para lhe mostrar... que quero sentir... o que mecê sente.
Fez-se a menina da cor da pitanga, levantou uns olhos surpresos e voltou logo o rosto para fugir dos olhares ardentes de Cirino.
—A mezinha? pediu ela por fim toda comovida.
—Ah! é verdade! exclamou Cirino. Ande, Tico: vá buscar café a cozinha. Lave bem um pires... percebeu?
O anão fitou o moço com altivez e não se mexeu.
—Você é surdo?
—Não, respondeu Inocência. Tico, às vezes, por manha é que se faz assim de mouco.
Voltando-se então para o homúnculo, insistiu com voz meiga e carinhosa:
—Vai, Tico; é para mim, ouviu?
Transformou-se repentinamente a fisionomia do anão. Pairou-lhe nos lábios inefável sorriso, meneou a cabeça duas ou três vezes com a força de uma afirmação, mas, colérico, enrugou a testa e moveu olhos inquietos e duvidosos. Inocência teve que repetir o recado.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.