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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

Isto para o padre diretor não era nenhuma novidade. Estava ele bem lembrado, e o leitor também não se terá esquecido, dos versos feitos a Margarida, seqüestrados pelo reitor à pasta do estudante. Era prevendo aquela descaída do seu neófito, que o padre se havia oposto com tanta energia a que Eugênio saísse do seminário durante as férias.

Também de sua parte os padres tinham grande interesse e vivo desejo de atrair ao grêmio da classe clerical aquele mancebo, que por sua bela inteligência, seu espírito de devoção e excelentes dotes morais parecia talhado pelo céu para ser um digno ministro da religião do Crucificado.

Concebe-se pois o esforço, com que aqueles zelosos missionários se empenhariam em fazer tão bela aquisição para o clero brasileiro, e mesmo, se fosse possível, para a congregação a que pertenciam.

Muito satisfeitos se mostraram quando viram voltar ao seminário o esperançoso estudante. Vendo seu ar melancólico e abatido adivinharam-lhe a causa, mas não se inquietaram com isso, esperando que o tempo e a ausência seriam suficientes para desvanecer a tal paixãozinha, que se extinguiria por si mesma, como a luz da lâmpada, a que falece o óleo.

Mal pensavam eles, que o amor que abrasava o coração do mancebo era como a chama do amianto, que arde perenemente sem nunca consumir-se.

Em viagem para o seminário, Eugênio, com o coração cortado de angústia e de saudade e cheio de despeito contra a tirania paterna, formava em seu espírito o projeto de mostrar-se inteiramente rebelde à disciplina claustral, embora atraísse sobre si as mais severas reprimendas e castigos; pretendia comportar-se com tal desídia e relaxamento, tais desatinos e desregramentos praticar, que os padres se veriam obrigados a expeli-lo do seminário.

Firme nesse propósito chegou a Congonhas, mas apenas cruzou os umbrais do piedoso edifício, sentiu desfalecer toda a sua energia reacionária, sua fronte altanada curvou-se a um profundo sentimento de respeito e submissão; todas essas veleidades de revolta se encolheram nos seios da alma, como se calam medrosos escondendo-se nas moitas do vergel os gárrulos passarinhos, quando percebem a sombra da asa do gavião, que atravessa os ares esvoaçando por cima deles.

Tímido, cordato e dócil por natureza, Eugênio não tinha coragem para praticar o mal, nem era capaz de proceder contra os ditames da sua consciência. O espírito religioso que constituía, um dos traços mais proeminentes do seu caráter, lhe fazia, olhar com veneração aquele edifício, morada dos padres santos, e consideraria o mais abominável dos pecados profaná-lo com atos de desregramentos e rebeldia.

Debalde pois tentaria impor à sua vontade atos que a consciência repelia, e fazer calar as nobres e virtuosas tendências, que a natureza lhe tinha plantado no coração. Resignou-se, e contentou-se em chorar sobre a sua sorte.

Ferida pelo infortúnio a alma bem formada não blasfema contra Deus, nem se revolta contra os homens.

Longe de expelir transformado em veneno o fel do coração, converte-o em lágrimas de resignação e expande mais suave e puro o perfume da virtude, como o sassafrás golpeado pelo ferro do derrubador destila mais ativo e redolente o aroma, que lhe embalsama o âmago.

Todavia Eugênio não podia expelir de seu coração a imagem de Margarida, e nem ele o tentava, pois reputava isso um projeto impossível, absurdo, louco. Essa imagem agora lhe estava gravada na alma em traços muito mais vivos e profundos do que nos anos da primeira ausência. A meiga e plácida afeição da infância havia tomado as proporções de uma paixão enérgica e fogosa, e se assenhoreara de seu coração, como esse truculento e rijo cipó que se atraca ao madeiro da floresta, o enleia e aperta, e com ele se identifica, destinado a viver e perecer com ele.

A saudade, que o devorava, já não era essa tristeza lânguida e melancólica, que se entorna do coração com certa suavidade como o perfume de uma flor mirrada, e se espairece nos ares nas asas do devaneio como uma nuvem dourada pelos fulgores da aurora. Era o negrume carregado de uma noite pesada, muda e funérea; de uma noite toldada, sem luz de estrelas nem lampejos de harmonia, nem fragores de tempestades.

Era a paixão com todas as suas cruéis inquietações e anelos febris, com todas as suas sombrias apreensões no futuro, e suas doces e pungentes recordações no passado.

A tudo isto vinha-se juntar um sentimento de dolorosa compaixão pela sorte de sua querida companheira. Ah! quão sozinha, quão desamparada a havia deixado na solidão do lar quase deserto, entregue às angústias da saudade, como flor mimosa exposta a todos os rigores do sol canicular! Pobrezinha! a injusta prevenção dos pais de Eugênio, retirando-lhe sua estima e amizade, a privavam da única consolação que lhe restava, tirando-lhe até os meios de saber notícias do amigo ausente! Com que amargura não exprobrava a sua mãe no íntimo da alma aquele iníquo e desalmado procedimento! Como não o teria profligado, amaldiçoado mesmo, se não partisse de uma mãe, a quem respeitava e amava!...

(continua...)

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