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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

Enquanto na casa do Major tudo era alegria e folguedo, luz e harmonia, sozinho e merencório, com os cotovelos fincados sobre o parapeito da ponte que comunicava as duas partes da povoação, achava-se um vulto, que com a cabeça entre as mãos olhava fixamente para o ribeirão, que logo abaixo da ponte se despenha em rugidoras catadupas. Nos cachões revoltos da torrente via a imagem das idéias que lhe turbilhonavam no cérebro, dos sentimentos tempestuosos que lhe empuxavam desencontrada e dolorosamente o coração. O amor, a raiva, o ciúme, a vergonha, a sede de vingança, ora lhe traziam aos lábios um sorriso infernal de desespero, ora espremiam-lhe dos olhos lágrimas de fel e de fogo. De quando em quando erguia a cabeça, olhava para o alto da encosta, onde se avistava a linda casinha do Major difundindo em borbotões, luzes e harmonias, risadas e festivas vozerias. Tornava a curvar-se sobre o parapeito, rangendo os dentes e arrancando os cabelos como um possesso; depois com os olhos turvos namorava a torrente, que engrossada pelas chuvas dos dias precedentes roncava debaixo de seus pés. Num acesso de desespero ia precipitar-se; mas. . .

- Ainda não! murmurou com voz cavernosa. É preciso vê-la ainda uma vez, uma só e morrer. Quero ver tudo por meus próprios olhos; quero assistir às exéquias de minha felicidade, que lá se estão celebrando com tanta pompa e regozijo. Depois. . . me imolarei sobre elas. Vamos! coragem! apresentemo- nos lá; pouca gente reparará na minha presença. . . ah! talvez nem ela! . . . que importa? vamos!

E saiu da ponte precipitadamente, encaminhou-se à casa, onde foi compor melhor o seu vestuário, e dirigiu-se resolutamente pelo caminho da casa do Major.

Não estranhem os leitores a sem- cerimônia com que Elias, sem motivo algum plausível, vai apresentar-se em casa do Major em uma noite de festim, sem a ele ter sido convidado. Nas povoações do sertão de Minas, antes que a malfadada política de aldeia tivesse penetrado por elas, degenerando ou estragando a singeleza dos costumes primitivos, as famílias, pela cordial intimidade que entre elas reinava, eram como grupos diversos de uma só família. As portas das salas de recepção nunca estavam fechadas. Nunca se soube o que é um criado, ou o cordão de uma campainha para anunciar uma visita, e muito menos um porteiro. Nos dias de regozijo e festa principalmente, as portas e janelas estavam francas para os passantes que quisessem ver ou tomar parte no regozijo, sem que ninguém lhes embargasse o passo, porque todos eram amigos e conhecidos íntimos.

Os leitores podem fazer idéia das emoções que agitavam o espírito de Elias ao aproximar-se daquela casa, e portanto me dispensarão da difícil, senão impossível, tarefa de descreve-las.

No momento em que Elias chegou, um homem cantava, acompanhando-se ao violão. Elias estremeceu ao ouvir aquela voz; parecia-lhe já a ter ouvido em alguma parte. Demorou-se um pouco no corredor até que acabasse o canto. A porta, que do corredor dava entrada para a sala, estava aberta de par em par. Porta e corredor estavam atulhados de gente de toda a classe, que escutava o cantor. Apenas este se calou entre palmas e bravos, e o povo começou a mover-se e agitar-se, aproveitando-se do rebuliço geral, Elias, para não ser notado, envolveu-se na turba e foi-se encaminhando para a sala. Ao chegar porém ao limiar da porta, estacou de súbito, como se um relâmpago dando-lhe nos olhos lhe tivesse ofuscado a vista. O que vira ele? . . .

No fundo da sala, bem defronte da porta, viu sentada Lúcia com os olhos baixos e as feições um pouco abatidas, mas deslumbrante de beleza. O pudor e a comoção tinham-lhe acendido nas faces desbotadas pelo sofrimento uma ligeira cor, como a leve sombra de rosa, que lhe ondeava na alva garça do vestido.

Ao seu lado e meio voltado para ela, envolvendo- a de olhares ardentes e apaixonados, estava o feliz trovador, sustendo ainda nas mãos seu alaúde. Apenas Elias fitou- o por um momento, reconheceu no noivo de Lúcia, quem? . . . o seu execrável protetor da Bahia, o moedeiro falso, o roubador de sua fortuna! O ladrão de sua felicidade era o mesmo ladrão de sua bolsa! Depois de lhe furtar o dinheiro no Sincorá, correra à Bagagem para roubar-lhe o coração de sua amante! . . . Sim, era ele; ele mesmo, que ali estava rico à custa de sua miséria, feliz à custa de seu infortúnio.

O primeiro impulso do coração do moço foi chegar-se a Leonel, arranca-lo pelo braço de junto da sua noiva, puxa-lo para o meio da casa, e dizendo-lhe: ladrão, quero marcar-te na cara! imprimir-lhe nas faces uma bofetada. Mas teve prudência bastante ainda para sopear aquele primeiro movimento. Desviou os olhos dos dois noivos e procurou pela sala o Major. Descobriu- o logo bem perto da porta sentado junto a uma mesa, e dirigiu-se a ele.

-major, dá licença? . . .

- Pode chegar; quem é? . . .

- Não me conhece mais, senhor Major? . . . disse o moço avizinhando-se.

- Ah! o senhor Elias! . . . por aqui! . . . há bem tempo que não o vejo, e nem tenho notícias suas. Então, por onde andou? quando chegou? conte- nos isso.

- Cheguei ontem, e não pude resistir ao desejo de vir vê-lo e cumprimenta-lo, apesar de que a hora e a ocasião não sejam próprias. . . peço-lhe desculpa. . .

- Obrigado. Fez muito bem; esta casa está sempre aberta para os amigos, em toda e qualquer ocasião.

-muito lhe agradeço tanta bondade, e por estar certo dela é que me atrevi a procurá-lo mesmo em tal ocasião.

(continua...)

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