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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

— Não se aflija, Amália!... Cometi uma perfídia, mas não passou de uma alucinação!... A minha honra e a minha lealdade não me abandonaram ainda e espero em Deus que não me hão de desamparar nunca. Juro restituir-lhe intata a sua liberdade que eu tive a desgraça de comprometer. Resigne-se por alguns dias a este constrangimento. Ele cessará, deixando-a outra vez senhora de si.

— É sobre isto mesmo que desejava falar-lhe, Hermano. Refleti, penso que uma separação é necessária para o sossego de ambos. Devemos, porém, fazê-la de modo que não nos fique mal. O meio é que eu não sei. Se fosse possível!... Lembrei-me que na Europa, com as viagens, ninguém suspeitaria, nem mesmo mamãe.

— Oh! ninguém suspeitará!... Terei o cuidado de ocultar! Tomarão por um acidente um acaso!

Hermano, proferindo estas palavras com um tom equívoco e um sorriso pungente, deixou a moça entregue a suas tristes reflexões.

A princípio ela não penetrou o verdadeiro sentido daquela resposta do marido. Pensou que ele se referia apenas ao pretexto da separação, prometendo achar um que poupasse desgosto à família e não desse azo à maledicência.

Mas aquele estranho sorriso, e a qualificação de acidente dada pelo marido ao fato que devia desligá-los, lançou em seu espírito uma dúvida cruel. Que pretendia ele fazer então, simuladamente, para que os outros o atribuíssem a uma casualidade?...

Amália ergueu-se, trêmula de horror. Adivinhara! Hermano tinha resolvido matar-se. Era essa a significação daquele juramento que fizera de restituir-lhe a liberdade. Para não expor a reputação dela, de sua esposa, é que prometia levar a efeito o plano sinistro de modo que ninguém desconfiasse do suicídio.

Ansiosa buscou o marido; mas este se havia recolhido ao gabinete, onde ela não se animou a entrar.

Imagine-se o que devia sofrer, pensando que naquele mesmo instante em que tremia atenta ao menor rumor, ele, Hermano, talvez carregava o revólver, armava-o e... despedaçava a cabeça com um tiro!

Nessa aflição foi até a porta do gabinete para escutar, e volveu mais tranqüila lembrando-se de que o marido lhe falara em uma demora de alguns dias. Tornou, porém, assaltada de novos terrores, e chegou a bater.

Hermano abriu. Encontrando Amália, saiu, fechou vivamente a porta sobre si, e dirigiu-se com a moça para a sala próxima. Sua expressão era calma e natural; ninguém diria que ele ocultava um desígnio funesto.

Essa placidez aquietou a agitação da moça, que para não toldar novamente o ânimo do marido absteve-se de revelar o seu terror. Hermano, como se nada houvesse ocorrido entre ambos, passou a conversar acerca de coisas indiferentes, lembrando à mulher vários divertimentos, que ela recusou.

Na continuação da conversa, Amália, confiada nessa tranqüilidade, e querendo de uma vez acabar com a sua inquietação, perguntou ao marido de que meio se tinha lembrado para realizar a separação.

— O meio? disse ele. Só há um, Amália.

— Qual?

— A morte.

— Então, é verdade, quer matar-se? exclamou a moça com desespero, e travando das mãos do marido, como para retê-lo junto a si.

— Já sou um morto. Metade do meu ser há cinco anos desceu à sepultura. A outra metade que ficou neste mundo, para expiação de suas culpas, não teria perturbado a sua felicidade, se estivesse reunida àquela e restituída ao pó.

— Mas eu não quero que morra, Hermano! Deu-me sua vida; ela me pertence; a mim também.

— Não a podia dar, Amália! Não lhe confessei já que sou um indigno, que a enganei?

— Pois bem! Esta união é nula; não existe. Mas a culpa é toda minha: carregarei com ela. Direi a minha mãe que arrependi-me, que não tinha propensão para o casamento, que não sei fazer a felicidade de meu marido... Direi o que for preciso, contanto que viva, Hermano!

— Para que, Amália, se a amo, e não posso e não devo amá-la! respondeu o marido.

— Também eu o amo; mas não penso em matar-me!

Hermano sorriu:

— Não preciso matar-me; basta morrer.

— Jura-me que não atentará contra sua vida?

— Já disse, Amália. Não careço do suicídio. Para que soprar a luz, se ela apaga-se por si?

— Mas dê-me sempre esse juramento para sossegar o meu coração.

— Juro.

— Por ela?... Por Julieta?

— Sim.

Estas cenas abalaram profundamente o espírito de Amália, que abandonou a idéia de separar-se do marido, naquelas circunstâncias, deixando-o sob a influência de tão sinistros pensamentos. Apesar da confiança que sempre tivera na lealdade de Hermano, o juramento deste não lhe dissipara as apreensões. Não suspeitava um ardil; mas temia uma fatalidade.

Até ali, o recato tão natural em uma noiva, e ainda aumentado pela reserva do marido, lhe tolhia a liberdade na própria casa em que devia ser dona. Nunca se animara a penetrar no aposento de Hermano, nem se lembrara disso.

Agora, porém, sua posição mudara. Tinha o dever de guardar e defender a vida do marido; e para isso carecia de toda sua vigilância e solicitude. Era mais que tempo de assumir a sua autoridade doméstica, sem a qual não poderia isentar-se da grave responsabilidade de esposa.

Assim, quando no dia seguinte Hermano foi à cidade, ela, depois de haver obtido dele a promessa de voltar cedo e de o ter acompanhado com os olhos até perdê-lo de vista, saiu da janela resolvida a ensaiar o seu papel de dona de casa.

(continua...)

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