Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

- É outra fragilidade que eu não tenho, Fábio, esse fofo orgulho da pobreza, que serve de forro a um fingido desprezo da riqueza. Não me envergonho de ser pobre, de parecê-lo e confessar em qualquer ocasião; mas estou longe de fazer da minha pobreza uma espécie de dorna de Diógenes. A falta de dinheiro pesa-me, sem contudo me acabrunhar; e justamente porque ela me pesa, me elevo mais em minha consciência, sentindo-me incapaz de cobiçar a fortuna adquirida por meios lícitos. Estás portanto enganado, meu amigo; não tenho orgulho, mas dignidade. 

- É a mesma coisa com diverso nome. 

- Não: o orgulho é um impulso para elevar-se acima dos outros; a dignidade é a firmeza, que não consente descer da posição que nos compete. Ora, cada degrau que eu subisse da escada do Soares, era um passo que descia do meu nível. Isolado no meio de tantos convidados, desconhecido naquela sociedade habitual, perguntariam: “Que veio aqui fazer este sujeito? – Prestou um pequeno serviço à filha do comendador, responderia algum íntimo; se fosse um criado, dava-se uma gorjeta; mas como é um pobre bacharel, convidaram-no a jantar”. 

- Tu não conheces a sociedade do Rio de Janeiro; nunca a freqüentaste. Julgas por São Paulo, ou por informações falsas. 

- Conheço-a melhor do que tu, pela razão do provérbio “que nos olhos dos outros vê-se o argueiro, e não se enxerga no nosso o cavaleiro”. Bem sei que esses intrusos de que falo muitas vezes, não só obtêm a tolerância, como se tornam necessários; tocam quadrilhas, fazem dançar as feias, ou exaltam as virtudes dos donos da casa. São os criados de galão amarelo dos ricaços e banqueiros, ou um móvel de palácio, necessário à comodidade e ao bem-estar, como um sofá de estofo, um tapete aveludado, uma cadeira de balanço. Um traste, bem vês, que não tem consciência do papel que representa; sai dali o tocador de quadrilhas, por exemplo, acreditando que é um amigo da casa, e dos mais estimados. 

- Se todos pensassem como tu, não haveria sociedade possível. 

- Se todos pensassem como eu, a sociedade não seria o que é hoje, uma floresta negra, onde o salteador de luva de pelica assalta o homem honesto; onde o assassinato e o roubo tomam tantas vezes o nome de casamento por amor e de aliança por amizade. 

Já se vê pois quanto era difícil a missão de que estava incumbido o Guimarães. Segundo todas as probabilidades, o filho do procurador não escaparia naquele domingo ao recrutamento a que Guida o condenara no caso de não apresentar substituto idôneo. Tinha de sentar praça de cavaleiro servente de Mrs. Trowshy, pelo resto do dia. 

Para destruir os escrúpulos porventura exagerados de Ricardo, e demovê-lo de sua primeira resolução, fora preciso um espírito hábil e atilado, que sondasse os motivos de sua recusa e os abalasse. Ora, o Guimarães era a mais positiva denegação dessas qualidades; só tinha viveza para as frioleiras; incapaz de sentir, como de compreender as nobres suscetibilidades da alma do colega, nunca poderia desvanecer-lhe a repugnância. 

Ao contrário, nenhum tipo tão próprio para arredar cada vez mais o jovem advogado da casa do Soares! O enfatuamento da riqueza, a impertinência do herdeiro a quem a vida do pai retarda o gozo da legítima, a ambigüidade dessa posição no meio de um passado de dívidas e de um futuro de dissipação faziam daquele moço o contraste vivo de quanto há de delicado no coração e de sensato no espírito. 

A presença, a simples presença daquele boneco, a torcer constantemente o bigodinho, e a mirar-se todo em si mesmo, quando não encontrava um espelho, produzia em um homem sério o efeito de uma lixa moral: eriçava a epiderme d’alma. Essa fora a impressão que pela manhã, na ocasião do passeio, o Guimarães deixara no ânimo do colega, apesar de trocarem apenas algumas palavras. 

Guida, pois, tinha errado. Querendo apressar a apresentação de Ricardo, talvez a tivesse impedido. Se o Guimarães não fosse à procura do moço, porventura um concurso de circunstâncias levaria o jovem advogado à casa do comendador. Entretanto, agora, quem sabe se a situação não se agravou, e a dificuldade mudou-se em 

impossibilidade? a moça não podia prever todos os escrúpulos de Ricardo; supunha que o obstáculo provinha apenas de uma questão de forma. Entretanto, cumpre confessá-lo, não tinha ela plena confiança na intervenção do Guimarães; o que até então lhe parecera tão usual, uma simples apresentação, agora se afigurava a seu espírito como um acontecimento, e quase tomava as proporções de um lance dramático. 

O Dr. Nogueira, sentando-se perto dela, tomara sobre a mesa um álbum de paisagens da Suíça. 

- Não tem vontade de passear à Europa, D. Guida? disse ele folheando o álbum. 

- Muita; por meu gosto já teria ido; mas papai prometeu-me que nestes três anos me levaria.

- Há de ir antes, disse uma senhora sorrindo. 

- É verdade! Acudiu outra que tinha compreendido a malícia da observação. E sem o comendador! 

O futuro deputado abaixara a cabeça, e parecia completamente absorvido em ver as estampas. Recordava-se do incidente da flor, e não queria provocar segundo motejo, quando procurava apagar a impressão do primeiro.  

- Não entendo! dissera Guida fitando seu límpido olhar no semblante da senhora. 

- Casando-se, Guida. Agora é moda; as moças que podem vão passar a lua-de-mel em Paris. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2627282930...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →