Por José de Alencar (1875)
Não foi menor a surpresa das pessoas que observavam a cena do alto do terreiro. As mulheres não tiveram ânimo de a acompanhar até o fim, horrorizadas com a idéia de que a fera pudesse de repente lançar-se a Arnaldo ou a qualquer dos outros e estraçalhá-los. D. Flor também sentiu um calafrio que obrigou-a a cerrar as pálpebras; porém tinha império sôbre si e alma para admirar os rasgos de coragem.
O que maravilhava a êsses homens valentes e habituados às façanhas do sertão não era a coragem de Arnaldo, mas a submissão do tigre.
A luta de um homem só contra o tirano das florestas brasileiras não era novidade: sabiam que o sertanejo afronta a onça e abate-a a seus pés. Se êles não o tinham feito, conheciam ou de fama ou pessoalmente mais de um caçador para quem essa proeza era divertimento.
O tigre brasileiro, a-pesar-de Buffon que o não conheceu, é um animal formidável pela fôrça e pela intrepidez. Há exemplo de penetrar em um rancho ou acampamento, e arrebatar dele um homem, zombando dos tiros com que o perseguem os companheiros da vítima.
Arrasta o cavalo ou boi que matou e faz frente aos caçadores, afastando-se com rapidez não obstante o grande pêso da carga. Azara refere o caso de um que levou com o boi morto outro boi vivo, preso à mesma canga.
Toda essa fôrça e braveza cedem à agilidade do homem. Não compreendia, oprém, a gente da fazenda o império que o rapaz sertanejo exercia sôbre a fera a ponto de a levar à trela como a um sabujo.
Da mesma forma que o leão, a pantera e todo animal por mais cruel que seja, o tigre brasileiro pode ser domesticado. Naquela época havia caçador nos sertões que tinham dessas fantasias; embora mais de uma vez fosse obrigado a ir à cola do fugitivo, a quem apertavam saudades da brenha.
Uma coisa, porém, era o tigre manso e outra mais diversa o tigre bravio, que saíra da mata açulado pela fome e que deixava-se arrastar por Arnaldo, sem opor-lhe a menor resistência, nem dar qualquer sinal de cólera.
Não atinando com a explicação natural do fato, buscava-a aquela gente na superstição. Atribuíam todos à feitiçaria esse poder incompreensível que o sertanejo exercia sôbre a fera.
João Coité era de opinião diferente. Para o visionário aquela onça não era o que mostrava, porém o bruxo velho Jó, que tomara a figura do animal, a fim de não ser conhecido.
— E senão, vejam como veio correndo o outro enguiço de Satanaz que êle já enfeitiçou? Aquilo é que sentiu o fartum de enxôfre.
Já se tinha dispersado a gente, e recolhidos aos aposentos ou tornados às labutações jornaleiras, os agregados cismavam sôbre o caso, que dava tema vasto à tagarelice.
No terreiro, à sombra da oiticica, ainda se achava o capitão-mór Campelo com seu tenente Agrela e o padre Teles, capelão da fazenda.
Já entrado em anos, porém ainda verde e bem disposto, o sacerdote, mais por índole do que por estudo e convicção, dava o exemplo de uma tolerância benévola que todavia estava bem longe da simonia de certos padres desabusados, como então os havia nas colônias, e para os quais a religião era uma indústria, o altar um balcão.
Praticavam as três pessoas acêrca do fato a que tinham assistido, e o capitão-mór, perplexo na opinião que devia formar sôbre tão estranho caso, ouvia aos seus dois ajudantes, o do espiritual e o do temporal:
— Tem-se visto sujeitos neste sertão que lidam com as cobras mais assanhadas, como a cascavel e a jararaca, as enrolam ao pescoço ou as trazem no seio sem que lhes façam mal, observava Agrela.
— Eu conhecí nos Carirís, aderiu o capelão afirmando com a cabeça, um caboclo que tinha criação delas.
— Êsse poder que uns têm sôbre as cobras, outros o terão sôbre as feras, como acabámos de ver; tornou Agrela.
— Mas êsses não são feiticeiros, Agrela? O seu poder não vem de artes ocultas?
— Assim pensa toda a gente, sr. capitão-mór. Mas para mim tenho que são coisas naturais,
ainda que não as sei explicar.
— Que dizeis a isso, padre Teles? perguntou o fazendeiro voltando-se para o capelão.
— É fora de toda a dúvida que neste caso admirável do qual fomos testemunhas, assim como no das cobras e outros semelhantes, há uma virtude sobrenatural, que não pertence ao mortal, mas lhe foi transmitida por um poder superior.
— Qual poder, padre Teles? O do inferno? interrogou Campelo.
— O do céu, sr. capitão-mór. Deus, como ensinam as sagradas escrituras, pode operar o milagre, ou por si diretamente, como fez Jesús ressuscitando o Lazáro e restituindo a vista ao cego, ou por meio dos Santos e de suas relíquias. Assim foi que Moisés separou as ondas do Mar Vermelho e Josué fez parar o sol; e também que a túnica de Elias dividiu as águas do Jordão, o sudário de Paulo curou os enfermos, os ossos de Eliseu ressuscitaram os mortos, além de outros inúmeros exemplos.
— Acreditais então que fosse um milagre? interogou novamente o capitão-mór.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.