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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Manuel declarou desde logo que não sairia da casa paterna, senão amarrado. Resolveram pois não contrariá-lo; havia na vizinhança um velho peão, homem de confiança, a quem se podia incumbir a guarda do menino, até que o isolamento em que ia ficar vencesse a sua obstinação. 

Tinha o negociante destinado a tarde da véspera da partida para fazer suas despedidas aos moradores da estância. Nesse desígnio se encaminhou para a varanda onde guardavam os animais. 

Ali estava Manuel sentado em um cepo, divertindo-se em escovar o pêlo de um cavalo. O animal nada tinha de bonito; era alto, ossudo e esgalgado, mas saía-lhe fogo dos olhos, e a firmeza dos jarretes anunciava sua força e impetuoso vigor. Chamava-se Morzelo; fora o cavalo predileto de João Canho, o sócio de seus triunfos nas parelhas, o companheiro fiel de suas excursões e viagens. Não havia em toda a campanha de Bagé um corredor de fama como aquele. 

— Arreie meu cavalo, disse o Loureiro a um peão que saía da choça.

— O cavalo está se ferrando. 

— Não há aí outro animal? 

— Só o Morzelo, que foi do defunto. 

— Pois arreie. 

Manuel estremecera. Vendo entrar o peão, atirou-se ao peito do cavalo, cingindo-lhe o pescoço com os braços, e procurando defendê-lo com seu corpo contra o intento do rapaz, que se preparava par selar o animal. 

— Não arreia que eu não deixo! exclamou o menino com raiva.  

Lágrimas de cólera e dor saltavam-lhe dos olhos, e caíam sobre a cabeça do animal que ele apertava ao peito para subtraí-lo ao freio. O Morzelo, dócil e submisso, deixava abraçar-se pelo menino; mas a sua pupila negra às vezes incendiava-se e desferia rápidas centelhas. 

Acudiu o negociante que ouvira os gritos de Manuel e, retirando-o à força, acenou ao peão indeciso: 

— Ponha o freio! 

— Não há de pôr! gritou Manuel. Quer tomar o cavalo de meu pai, como já tomou a mulher. Está muito enganado! 

O teimoso menino, aproveitando-se da comoção que suas palavras tinham produzido no negociante, escapou-se e travou do freio, forcejando por tirá-lo da mão do peão. Nova luta se travou entre Loureiro e o enteado, a quem o desespero duplicava as forças. 

O negociante irritado subjugou o menino contra as varas da ramada, enquanto o peão, assoviando com certa indiferença escarninha, acabava de arrear o animal.  

— Solta-me, demônio! gritava Manuel. 

— Meio, sossegue, se não quer que o amarre. 

— Tu és capaz? 

O peão acabara de selar o cavalo, que puxara para fora da ramada. Prendendo Manuel dentro da palhoça, o negociante saltou na sela, antes que o alcançasse o menino que forcejava por abrir a cancela, mal segura com uma correia. 

Vendo Loureiro montado no cavalo, sucumbiu o menino. Com o semblante horrivelmente pálido, os braços caídos e o corpo vacilante, seus olhos pasmos projetavam-se das órbitas, com o arrojo de sua alma, para o animal que não podia proteger. 

Entretanto o Morzelo, parado ainda, fitava de esguelha a pupila nos olhos do menino, soltando um relincho soturno, que lhe arregaçava o beiço, e mostrava a branca dentadura. Seria acaso um riso sardônico do cavalo? 

O caso é que os olhos do menino irradiaram; e do choque dos dois lampejos súbitos, chispou uma centelha ardente. Nesse momento, não obedecendo o Morzelo ao toque das rédeas, o negociante roçou-lhe as esporas. Estremeceu todo o brioso cavalo, mas estacou, na aparência calmo; foi quando o negociante fincou-lhe as rosetas, que ele girou sobre os pés com espantosa rapidez, e atirou-se pelo campo fora aos trancos, semelhante a uma bala que salta fazendo chapeletas.  

O menino seguia a cena com ansiedade; seu peito ofegava; a respiração ardente lhe crestava os lábios entreabertos; por vezes seu rosto como que imbutia-se em uma lividez marmórea, cuja expressão era má e sinistra. 

De repente soaram dois gritos: um de prazer, outro de angústia. 

O Morzelo, abolando o corpo, rodara pela cabeça, esmagando o cavaleiro no chão duro e pedregoso. Quando o peão chegou em socorro do negociante, já o achou moribundo. 

A esse tempo o cavalo correra para Manuel que o abraçou, e saltando ligeiramente na sela, começou a ginetear pelo campo. O árdego animal, pouco antes furioso contra um cavaleiro destro e robusto, agora dócil e submisso sob a mão débil de um menino, escaramuçava pelo gramado soltando relinchos de alegria, e amaciando o galope para não sacudir o gauchito. 


A GUAIACA 

 

Levaram o estancieiro em braços para a casa. Oito dias depois faleceu em conseqüência do desastre. 

Ficou Francisca outra vez viúva. Os dois infortúnios, sofridos dentro de um ano, embotaram a pequena dose de sensibilidade  que lhe coubera em partilha. Tornou-se de uma indiferença extrema para os desgostos, como para os prazeres. Quando, meses depois, deu à luz uma menina, filha póstuma do segundo matrimônio, este acontecimento não passou para ela de um acidente material; algumas dores curtidas, e mais uma cria na casa. 

(continua...)

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