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#Romances#Literatura Brasileira

A Moreninha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)

Mas as moças falavam já há cinco minutos; façamos por colher algumas belezas, o que é na verdade um pouco difícil, pois segundo o antigo costume, falam todas quatro ao mesmo tempo. Todavia, alguma coisa se aproveitará.

— Que calor!… exclamou d. Gabriela, afetando no abanar de seu leque todo o donaire de uma espanhola; oh! não parece que estamos no mês de julho; mas, por minha vida, vale bem o incômodo que sofremos o regalo que têm tido nossos olhos.

— Bravo, d. Gabriela!... Então seus olhos...

— Têm visto muita coisa boa. Olhe, não é por falar, mas, por exemplo, há objeto mais interessante do que d. Luisa mostrar-se gorda, esbelta, bem feita?

— É um saco!

— E como é feia!...

— E horrenda!

— É um bicho!

— E não vimos a filha do capitão com sua dentadura postiça?... Agora não faz senão rir!...

— Coitadinha! Aperta tanto os olhos!

— Se ela pudesse arranjar também um postiço para o queixo!

— Ora, d. Clementina, não me obrigue a rir!...

— D. Joaninha, você reparou no vestido de chalim de d. Carlota?... Quanto a mim, está absolutamente fora da moda.

— Ainda que estivesse na moda, não há nada que nela assente bem.

— Ora... é um pau vestido!... Tem urna testa maior que a rampa do largo do Paço!...

— Um nariz com tal cavalete, que parece o morro do Corcovado!

— E a boca?... Ah! Ah! Ah!

— Parece que anda sempre pedindo boquinhas...

— E que língua ela tem!

— É uma víbora!

— Eu não sei por que as outras mulheres não hão de ser como nós, que não dizemos mal de nenhuma delas.

— E verdade, porque se eu quisesse falar...

— Diga sempre, d. Quinquina.

— Não... não quero. Mas, passando a outra coisa... D. Josefina aplaude com prazer a moda dos vestidos compridos!

— Ora... porque tem pernas de caniço de sacristão.

— Pernas finas também é moda, presentemente.

— Deus me livre!…acudiu d. Clementina; pelo menos para mim nunca deve ser, pois não posso emendar a natureza, que me deu pernas grossas.

— Não lhe fico atrás, juro-lhe eu! exclamou d. Quinquina. Nem eu! Nem eu! disseram as outras duas.

— Isso é bom de se dizer, tornou a primeira; mas, felizmente, podemos tirar as dúvidas.

— Como?

— Facilmente: vamos medir as nossas pernas.

Ouvindo tal proposição, o nosso estudante, apesar de se ver em apuros embaixo da cama, arregalou os olhos de maneira que lhe pareciam querer saltar das órbitas; porém, d. Gabriela, que não parecia estar consigo e que só por honra da firma dissera o seu ‘‘nem eu", veio deixá-lo com água na boca.

Havia de ser engraçado, disse ela, arregaçarmos agora os nossos vestidos!

— Que tinha isso?... acudiu d. Quinquina; não somos todas moças?... Dir-seia que não temos dormido juntas.

— E verdade, acrescentou d. Clementina e, além do que, não se veria demais senão quatro ou cinco saias por baixo do segundo vestido.

— E talvez algum saiote... vamos a isto!

— Não... não... disse, por sua vez, d. Joaninha.

— Pois por mim não era a dúvida, tornou d. Clementina, com ar de triunfo, recostando-se mole e voluptuosamente nas almofadas, e deixando escorregar de propósito uma das pernas para fora do leito, até tocar com o pé no chão, de modo que ficou à mostra até o joelho.

— Quem me dera já casar! ... suspirou ela.

Pobre Augusto! ... Não te chamarei eu feliz?... Ele vê a um palmo dos olhos a perna mais bem torneada que é possível imaginar!…Através da finíssima meia aparecia uma mistura de cor de leite com a cor-de-rosa e, rematando este interessante painel róseo, um pezinho que só se poderia medir a polegadas, apertado em um sapatinho de cetim, e que estava mesmo pedindo um... dez... cem... mil beijos; mas quem o pensaria? Não foram beijos o que desejou o estudante outorgado àquele precioso objeto: veio-lhe ao pensamento o prazer que sentiria dando-lhe uma dentada... Quase que já não se podia suster... já estava de boca aberta e para saltar... Porém, lembrando-se da exótica figura em que se via, meteu a roupa que tinha enrolada entre os dentes e, apertando-os com força procurava iludir a sua imaginação.

— Quem me dera já casar!... repetiu d. Clementina.

— Isto é fácil, disse d. Gabriela; principalmente se devemos dar crédito aos que tanto nos perseguem com finezas. Olhem, eu vejo-me doida!... Mais de vinte me atormentam! Querem saber o que me sucedeu ultimamente?... Eu confesso que me correspondo com cinco… isto é só para ver qual dos cinco quer casar primeiro; pois bem, ontem, uma preta que vende empadas e que se encarrega das minhas cartas recebeu das minhas mãos duas...

— Logo duas?...

— Ora, pois, apesar de todas as minhas explicações, a maldita estava de mona: mesmo dizendo-lhe eu dez vezes: a de lacre azul é a do sr. Joãozinho e a de verde é do sr. Juca, sabem o que fez?…trocou as cartas!

— E o resultado?...



(continua...)

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