Por Visconde de Taunay (1872)
—Veja só, disse ele para Cirino, como este maricas gosta de se enfeitar!... Você não me engana, não, senhor alamão das dúzias...
Mirava-se nesse momento o naturalista, para verificar se lhe faltava alguma coisa.
—Estou pronto, exclamou afinal, e muito desejoso de entrar no mato.
—Ponham-te a tinir os carrapatos, resmoneou Pereira.
—Ah! disse Meyer, e as minhas luvas?... Juque, procure na canastra nº 2, à esquerda, no segundo canto.
Sacou o camarada umas grandes lavas de lã, brancas, muito largas, já usadas e sujas, nas quais o alemão enfiou de um jacto as mãos espalmadas.
—Agora, sim! anunciou ele com satisfação.
E, dando um sonoro e prolongado hum! empunhou a rede de apanhar borboletas.
Depois, levando um dedo à testa:
—Ah! exclamou, e o vinho! Não me ia esquecendo?... O vinho para sua filha, senhor Pereira, sua linda filha.
Encolheu o mineiro com furor os ombros e disse em parte a Cirino:
—Fez-se de esquecido só para falar na menina... Veja bem. Este calunga não me bota areia nos olhos.
E acrescentou alto, recebendo a garrafa que o camarada José Pinho tirara de uma das canastras:
—Agradeço o seu presente, Senhor Meyer, mas se... lhe faz a menor falta .. a menina há de curar-se sem isto...
— Não, não, não, não, respondeu o saxônio com uma série de negativas que pareciam não dever ter fim.
—Neste mundo, rosnou Pereira mais para si do que para ser ouvido, ninguém mete prego sem estopa; mas com sertanejos... não se brinca.
Cirino tomara a garrafa.
—Isto, afirmou ele, acaba com certeza a cura.
E, esquivando-se de pronunciar o nome e a qualidade da pessoa de quem estava tratando:
—Ela há de ter hoje algum apetite e poderá levantar-se um pouco, pois já tomou o seu caldinho.
—Então, ao meio-dia, recomendou Pereira muito baixinho a Cirino, vosmecê mande chamar a nossa doente e dê-lhe a mezinha. Ouviu? Já avisei lá dentro...
Cirino abanou a cabeça, tomando ar misterioso.
—Eu por mim estarei de olho vivo no bichão... Parece-me suçuarana à espreita de veadinhas campeiras... Não terá este vinho algum feitiço?
Contestou o outro com energia tal possibilidade.
—Eu sei lá, insistiu Pereira. Estes namoradores são capazes de muita coisa... Nunca ouviu contar histórias de pirlas e beberagens.. hem? diga-me, nunca?
—Sossegue, senhor Pereira, acudiu Cirino, hei de examinar o liquido... tenho certeza de que não haverá novidade.
—Muito que bem .. Então, ao meio-dia em ponto... chame a Maria Conga ou o Tico. Nocência há de arrastar-se até cá... e o doutor lhe dará a dose...
—Ela sair já? objetou Cirino com admiração. Não, senhor; em tal não consinto... Irei dar-lhe o remédio... Não me custa nada...
Pereira ficara meio perplexo.
—Não sei...
E com súbita resolução:
—Pois bem, virei da roga até cá... Se eu não aparecer, então o senhor dê um pulo e faça-lhe tomar a poção... Quanto a este alamão melado, levo-o para longe e não o trago senão bem tarde e tão moído do passeio que só há de pensar em dormir.
Com Pereira se dava um fato natural e comezinho nas singularidades do mundo moral.
A medida que as suspeitas sobre as intenções do inocente Meyer iam tomando vulto exagerado, nascia ilimitada confiança naquele outro homem que lhe era também desconhecido e que a princípio lhe causara tanta prevenção quanto o segundo.
E que as dificuldades e colisões da vida, quando se agravam, tão fundo nos incutem a necessidade do apoio, das simpatias e dos conselhos de outrem, que qualquer aliado nos serve, embora de muito mais proveito fora bem pensada reserva e menos confiança em auxiliares de ocasião.
CAPÍTULO XIV
REALIDADE
Cordélia.—Há de o tempo desvendar o que hoje esconde a discreta hipocrisia.
(Shakespeare, O Rei Lear, Ato I).
Depois que Cirino viu sumir-se Pereira com os dois companheiros além do laranjal da casa, seguindo em direção à roça por uma vereda pedregosa e cheia de seixos rolados, nos quais iam as patas dos animais batendo; depois que teve certeza de que ficara só naquela vivenda, entrou em grande agitação.
Ora, passeava pelo quarto rápida e inquietantemente; ora, media-o com passo lento em muitas direções; ora, enfim, saia para o terreiro e ali, com a cabeça descoberta, ficava a olhar atentamente para diversos lados, abrigando com a mão aberta os olhos, dos vivíssimos raios do sol.
Prometia o dia ser muito cálido. Por toda a parte chiavam as estrídulas cigarras, e ao longe se ouvia o metálico cacarejar das seriemas nos campos.
Às vezes, encarava Cirino o Sol; depois tapava os olhos deslumbrados e, tomado de vertigem, voltava para a sala, onde recomeçava os seus passeios.
Por que, porém, não descansava o mancebo?
Entrando familiarmente pela sala adentro, os bacorinhos se haviam abrigado dos ardores do dia e, deitados debaixo de uns jiraus, ressonavam, presa de gostoso sono.
Tudo quanto vivia apetecia a sombra e o repouso. Fora, o Sol reverberava violento em seus fulgores, e as sombras das arvores iam cada vez mais diminuindo. Até uma égua com o esguio e peludo poldrinho deixara o distante pasto e viera abrigar-se, à proteção da casa, junto à qual parara já meio a cochilar.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.