Por José de Alencar (1872)
- Quem será esse moço?... dizia ele consigo, arrancando distraidamente as pétalas de uma rosa. Foi hoje a primeira vez? Guida passeia a cavalo todos os dias; não o terá encontrado anteriormente?... Algum romance começado... quem sabe! O Guimarães saiu com o criado. Aposto que foi em busca do sujeito para apresentá-lo hoje mesmo. Não há dúvida! Por que motivo ela daria tamanha atenção àquele boneco, se não fosse o desejo de obter dele um serviço? E o tolo prestou-se!...
Nogueira meditou alguns instantes, e por fim murmurou:
- A coisa desta vez é séria!
Atirando fora aponta do charuto, entrou na sala.
X
Enquanto sucediam estes fatos, Ricardo, a causa involuntária deles, estava bem tranqüilo em casa de D. Joaquina. De volta do passeio, saboreou com o amigo o frugal almoço da boa senhora. Ainda estavam à mesa galhofando e rindo, quando ouviram o som do búzio, e pouco depois apareceu-lhes o Simão pescador, alegre, corado e bem disposto.
Trazia várias selhas de cipó cheias de peixe; uma delas era destinada a D. Joaquina, a quem Gertrudes a mandava de presente.
- Oh! já está bom? Perguntou-lhe Ricardo.
- Ora, senhor; para bem dizer, não tinha moléstia; andava banzeiro, mas a moça me trouxe felicidade. Depois daquele dia em que ela ralhou comigo, o senhor bem viu, não há mãos a medir. É peixe tanto, que a rede quase não agüenta.
- Está bom; estimo muito!
Depois de algumas palavras trocadas com a velha, o pescador despediu-se:
- Adeus, sinhá dona. Ainda vou levar este peixe à casa do comendador, o pai da moça. Bom freguês!
Este fato deixou alguma impressão no espírito de Ricardo, que lembrou-se da cena a que assistira domingo passado.
Haverá criaturas abençoadas, que tenham o dom de comunicar aos outros sua influência propícia? pensou o moço. Tendo a presença do pescador despertado a lembrança de Guida, Ricardo contou a Fábio o seu encontro pela manhã e o incidente da flor.
- Bem, creio que sempre tomamos a praça de assalto! exclamou Fábio.
- Não abandonas tua idéia!
- Ora, se fosse comigo o encontro desta manhã, agora estaria eu almoçando em casa do Soares.
- E de que te servia isto?
- De quê?... É bom que o dinheiro vá-se acostumando conosco, e o meio é chegarmo-nos àqueles que o têm.
- Receio ao contrário que nossa pobreza o importune, indo procurá-lo no meio do luxo.
A discussão prolongou-se. Os dois amigos ainda estavam empenhados nela quando chegou o Daniel com a incumbência que sabemos. Ricardo, a princípio surpreso pelo convite que não esperava, não hesitou na resposta que o português transmitiu a Guida. Fábio tomando o amigo de parte instou com ele para aceitar a fineza do capitalista; mas nada obteve.
- Decididamente, assim não iremos para adiante; é desenganar, disse Fábio muito contrariado.
- Não tens razão; é justamente assim que podemos merecer consideração, não aceitando uma posição menos digna.
Reflete bem: que figura ridícula não havíamos de fazer naquela sociedade?
- A mesma que fazem os outros. Nem todos que freqüentam a casa do Soares, são ricos.
- Decerto; mas os que não têm um tratamento correspondente ou são amigos ou parasitas. Nenhum destes papéis nos cabe.
Fábio levantou os ombros. Tornou-lhe Ricardo:
- Não sou desses homens que ostentam um desprezo fingido pelo dinheiro e odeiam os favoritos da fortuna. Ao contrário, quando a riqueza é honestamente adquirida, eu a respeito e estimo, porque representa a meus olhos o fruto, tão legítimo como brilhante, do trabalho; mas em caso algum lhe sacrificarei minha dignidade: não me farei cortesão dessa como de qualquer outra grandeza da terra. O lisonjeiro para mim é um eunuco moral.
- Então um pobre não pode sem bajulação ter relação com pessoas ricas? Que doutrina!
- Sem dúvida que pode, quando se estabelece uma certa igualdade social por virtude de alguma causa, como, por exemplo, a amizade, o parentesco, uma posição elevada, a consideração pública, etc. Um escritor notável, embora nada tenha de seu, pode aceitar a hospitalidade do milionário, porque trata de igual a igual; se este é rei na praça, ele é rei na imprensa. Sua presença, assim como a de todas as outras pessoas distintas, é honra que os ricos solicitam.
- Neste caso, tu que tens talento e escreves bem, devias aceitar o convite; era uma honra que fazias ao Soares.
- Obrigado pela ironia.
- Onde está a ironia?
- Somos dois pobretões obscuros; eu podia acrescentar de minha parte, e desconhecido, por que realmente o sou nesta grande cidade. Em casa de um milionário, no meio de uma sociedade habituada ao luxo e às grandezas, qual seria nossa posição? Creio que a classifico bem dizendo que faríamos o ponto de transição entre o parasita e o criado; formaríamos o elo desses dois anéis da cadeia.
- Com efeito! Modéstia tão requintada degenera em orgulho. Entendes que não sendo dos primeiros, te rebaixas?
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.