Por José de Alencar (1875)
Arnaldo não se animara a cingir o talhe da donzela. Se tocara-lhe o corpo, fôra impulso da mãe; logo, porém, recuara voltando as costas para esconder a veemente comoção.
Sua fisionomia tinha a lívida rigidez de um espectro. Calcava a mão sôbre o peito para comprimir o coração, que saltava-lhe aos ímpetos, como um poldro selvagem. Deu alguns passos para a porta vacilando como um ébrio.
— Onde vais tão cedo, Arnaldo? perguntou Justa.
Nesse momento soou lá fora, para o lado da várzea, grande estrépito. O gado ugia; os cães latiam furiosos e no meio do alarido destacavam-se vozes humanas a clamar:
— Ecou!… Ecou!… Arriba, gente! Isca, Roldão!… Valente!…
Ao primeiro rumor, Arnaldo assumiu-se vibrando a fronte. Já era outro homem, ou antes, tornara ao que era. Do peito vigoroso rompeu-lhe o brado formidável que nenhum vocábulo traduz, rugido humano com que o sertanejo afirma no deserto o império do rei da criação. De um ímpeto ganhou a porta e desapareceu.
XII – Alvorôço
O ponto de onde vinha o alarido era a várzea fronteira à casaria da fazenda.
O capitão-mór Campelo saíu fora ao terreiro para conhecer a causa do alvorôço. Agrela o seguia.
Não tardou que se reunissem ao grupo D. Genoveva e D. Flor, que chegara acompanhada por Justa, e curiosa de saber a razão do ímpeto de Arnaldo.
As criadas e escravas acudiam à janela enquanto os fâmulos e agregados corriam ao lugar do acontecimento para melhor verem o que alí estava passando, e sendo possível, tomarem parte na função.
Na várzea já estavam muitos indivíduos, pela maior parte moços ou criados do vaqueiro, que atualmente no sertão designam com o nome de fábricas. Fazia largo cêrco ao redor de uma coroa de mato, balsa emaranhada que erriçavam os talos espinhosos das carnaúbas.
Armados uns de arcabuzes e clavinotes, outros de parnaíbas e facas do mato, excitavam-se mutuamente a avançar; nenhum contudo se resolvia a ser o primeiro. Não que lhes faltasse a coragem, provada nos azares da vida áspera do sertanejo; mas o perigo desconhecido nunca deixa de infundir um vago assombro que, se não abate o valor, entorpece a resolução. Não são todos que ousam afrontá-lo a sangue frio.
Até aquele momento ignorava-se o que havia no capoão; e a coisa tomava feição de mistério que nesses tempos supersticiosos dava tema para as mais absurdas visões.
Um dos cães do curral tinha farejado o quer que era no matagal e dera aviso. Logo acudiu toda a matilha que não cessava de latir e com ela os rapazes, que a estumavam para investir.
Entretanto a brenha permanecia silenciosa; não se ouvia o menor sussurro e as fôlhas do arvoredo apenas aflavam com o brando sôpro da viração. Esta placidez, que quase devia tranquilizar, era precisamente a causa do terror, porque transmitia ao acidente um aspecto estranho e inexplicável.
— É onça com certeza! dizia o José Pina.
— Se fosse onça, já tinha espirrado.
— Eu conheço pélo latido do Ferro!
— Para mim, não é senão defunto! observou o Quinquim da Amância.
— E mais de um.
— Qual defunto! exclamou o João Coité, que chegava esbofado da corrida.
— Então é o lobisomem!
— Coisa pior! Sou capaz de apostar minha alma em como não é outro senão o velho bruxo!
— É verdade! exclamaram muitas vozes em roda.
— Vamos a ver, que é o mais certo; observou o Burití.
— Não é o filho de meu pai que se mete nessa, observou João Coité. Se fosse gente ou coisa dêste mundo, aquí tinham um homem que vale por três, mas como Tinhoso não quero súcias.
Esta profissão de fé arrefeceu o entusiasmo dos companheiros e houve quem suscitasse a idéia de chamar o capelão para atacar o inimigo com as armas da Igreja, e obrigá-lo a sair do mato onde se encafuara.
A êsse tempo chegou Arnaldo à várzea. Colhendo na passagem a nova do que havia, enrolou no braço direito o gibão de couro e com a faca desembainhada investiu para o mato, onde penetrou e desapareceu.
Foi um instante de ansiedade para os que alí se achavam. Arrependidos uns de não terem acompanhado o destemido rapaz, outros de não haverem obstado àquela temeridade, aguardavam o desfecho do estranho acidente.
João Coité, convencido de que Arnaldo já estava embruxado pelo velho, preparava-se para algum acontecimento e por causa das dúvidas tinha o polegar À altura da testa pronto para benzerse.
O Quinquim da Amância, que lembrara-se do lobisomem, fez com a vara de ferrão um grande signo-saimão e saltou dentro, no que o acompanharam todos os rapazes, crentes de que assim ficavam preservados de virarem raposas.
— O que é? o que é? gritou o Manuel Abreu, que chegava com o resto de sua gente.
Nessa ocasião ramalhou o mato; logo depois abriu-se a folhagem e apareceu Arnaldo puxando pela orelha a um tigre enorme, que o seguia gacheiro e humilde.
O assombro da gente durou até que o sertanejo com o singular rafeito sumiu-se na ponta do mato, que se prendia à floresta e formava como um braço arqueado a cingir a várzea.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.