Por José de Alencar (1870)
Esta solidariedade das gerações não é um privilégio da aristocracia. A alma imortal, em qualquer nível da sociedade, tende a projetar-se no futuro, além do túmulo; por isso tem necessidade de criar raízes profundas nas tradições do passado.
A olhar durante horas e horas aqueles objetos órfãos do dono, Manuel sentia derramar-se pelo seio uma força imensa, que de repente o crescia de muitos anos. De menino ficava quase homem: e então uma voz íntima lhe anunciava que o filho havia de ser digno do pai.
Quando o Loureiro voltou a Ponche-Verde, da primeira vez, o menino o recebera com repugnância, mas sem aversão. Não podia ser indiferente a causa da morte do pai; esse indivíduo era uma legenda viva de sua desgraça; o coração confrangia-se em face dele. Por outro lado, seu espírito infantil reconhecia a inocência do negociante; e por vezes contemplava nele o documento eloqüente do valor e generosidade de João Canho.
Tornando porém o sujeito repetidas vezes, e recebido com mostras de bom agasalho pela viúva, começou o menino a incomodar-se com as visitas. Desejara que sua mãe não acolhesse com bondade o estranho, e nem mesmo o visse. Se no princípio afastava-se do Loureiro, agora, mal o avistava, saía para evitar que lhe falasse. Durante a visita, levava a chamar pela mãe sobre qualquer pretexto, e a importuná-la com o fito de fazer que deixasse a companhia do hóspede.
Já próximo do casamento, uma das amigas da viúva talvez de acordo com esta, deu-lhe a primeira notícia.
— É mentira! É mentira!… gritou a criança em desespero.
Como insistisse a mulher, afirmando ser verdade, Manuel atirou-se a ela com furor, rasgando-lhe a roupa e arranhando-lhe o rosto com as unhas. Foi necessário que a mãe o castigasse. A pobre alvissareira jurou nunca mais se intrometer com semelhante diabrete.
Dias depois, estando Loureiro em casa da viúva, sucedeu sair ao campo, depois do almoço, para dar uma volta a pé. Observou ele que Manuel o seguia, e demorou-se a esperá-lo, talvez com o desejo de granjear enfim as boas graças do teimoso menino. Este, porém, que o viu parar, fez o mesmo. Seguiu pois o negociante, mas sempre acompanhado de longe pelo filho de Canho. A tentativa reproduziu-se duas vezes sem resultado.
Muito adiante, percebeu Loureiro perto de si ligeiras pisadas; voltou-se. Ali estava o menino, e trazia empunhada uma grande faca, maior que o seu braço; sem dúvida era a de João Canho.
Receou Loureiro que o menino, projetando alguma travessura, viesse a ser vítima da arma:
— Para que é esta faca, Manuel?
— Para te matar!
— A mim? Que mal lhe fiz eu, meu filho?
— Não sou teu filho!… gritou a criança querendo ferir.
Enquanto o negociante subtraía-se aos golpes, esforçando por arrancar a arma das mãos do menino, ele rangia os dentes, repetindo com voz surda:
— Não hás de casar com minha mãe!… Não quero!
Francisca apenas soube do que era passado, quis castigar o filho e o faria sem a intervenção de Loureiro. Depois ficou a cismar se o menino teria razão naquela repugnância. As pessoas do seu conhecimento a quem ela comunicou seus receios, os desvaneceram, zombando de semelhantes escrúpulos. Não passavam de caprichos de criança os aborrecimentos do Manuelzinho. O melhor remédio para isso era apressar o casamento; breve o menino se acostumaria com o padrasto, e acabaria por estimá-lo, como devia.
Casou-se enfim a viúva. Nesse dia ninguém viu Manuel.
— Onde estaria?
Abraçado com a cruz de pau que indicava, no meio do campo, o lugar onde repousavam as cinzas de João Canho.
IV
MORZELO
Uma semana depois do casamento, Juca o filho mais moço da viúva, que teria cerca de três anos, adoeceu.
A princípio a enfermidade se apresentou sem o mínimo caráter de gravidade; não fizeram caso. Dias depois o mal tomou de repente um aspecto assustador, e ao cabo de algumas horas sucumbiu a criança.
Ficou a mãe inconsolável, não só da perda de seu filho mais querido, como também do pouco zelo que tivera no começo da moléstia. O marido a acompanhou no pesar; os vizinhos e pessoas da casa, todos, se mostraram sensibilizados com a morte do menino.
Manuel foi exceção no luto, como havia sido na alegria.
Enquanto os mais choravam, ele brincava risonho com o irmãozinho morto e já posto no caixão.
Uma rapariga, que ali estava, pergunto-lhe:
— Você não tem pena de seu maninho?
— Pena de quê?… Ele vai para onde está nosso pai. não quis o outro que lhe deram, não!… Também eu hei de ir, mas depois que tiver feito uma coisa!
Com a perda do irmão, ainda mais arredio da casa tornou-se o menino, do que era desde o casamento. Passava o tempo a campear, comia nos ranchos com os peões, e muitas vezes sucedeu por lá dormir. A mãe descansava sabendo que ele estava bom; e deixava-o em plena liberdade. A presença do filho produzia um vexame inexplicável, se não era um vago remorso.
Alguns meses passados, Loureiro falou em mudar-se para sua casa do Alegrete; a mulher acedeu prontamente a esse desejo, e começaram os preparativos. Ambos sentiam certa repugnância por estes lugares.
(continua...)
ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.