Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Comédias#Literatura Brasileira

As Asas de um Anjo

Por José de Alencar (1860)

Carolina – Com os homens sucede assim! Com a mulher não: aquela que uma vez errou nunca mais se reabilita. Embora ela se arrependa; embora pague cada um dos seus momentos de desvario por anos de expiação e de martírio; embora, iluminada pelo sofrimento, ela compreenda toda a sublimidade da virtude, e aceite como gozo aquilo que para tantas é apenas um dever, um sacrifício ou um costume!... Nada disto lhe vale! Se ela aparecer o mundo arrancará o véu que cobre o seu passado.

Luís – Quando o arrependimento não é sincero, porque então a sociedade é severa.

Carolina – Não tem direito de ser! Deve lembrar-se que é a causa da alucinação de tantas moças pobres... Porque ao passo que atira a lama ao ente fraco que se deixou iludir, guarda um elogio e um cumprimento para o sedutor.

Meneses – E assim deve ser, Carolina.

CENA III

(Carolina, Luís e Meneses)

Carolina – O senhor defende esta injustiça?

Meneses – Defendo a lei social, que, na minha opinião, deve ser respeitada até mesmo nos seus prejuízos. Como filósofo, posso condenar algumas aberrações da sociedade; como cidadão, curvo-me a elas e não discuto.

Carolina – Mas por que razão toda a falta recai unicamente sobre a parte mais fraca?

Meneses – Porque a virtude de uma senhora é um bem tão precioso, que quando ela o dá a um homem eleva-o, rebaixando-se.

Carolina – E a sociedade aproveita-se desse erro, aplaude o vencedor e encoraja-o para novas conquistas?

Meneses – Toda a virtude que não luta, não é virtude; é um hábito. Se não houvesse sedutores, a honestidade seria uma coisa sem merecimento! Creia-me, Carolina, o mundo é feito assim; deixemos falar os moralistas: eles podem dizer muita palavra bonita, mas não mudarão nem uma pedra desse edifício social que as maiores revoluções não têm podido abater.

Carolina– Ouve, Luís; tudo se defende, menos a falta de uma pobre mulher.

Meneses – Não há dúvida! Fiz uma das minhas. Esse maldito costume de escrever folhetins!... Mas desculpe; não me lembrei que a afligia.

Carolina – Já estou resignada! Não pertenço mais a este mundo!...

Luís – Hás de voltar a ele. Eu te prometo!...

Carolina – Como, meu Deus!...

Luís – Não me acreditas?

Carolina – Desejava mas não posso...

Luís – Espera!...

Carolina – Por que não me explicas?

Luís – Vai ter com Margarida; preciso conversar com Meneses.

Carolina – E depois?

Luís – Depois eu te chamarei.

Carolina (a Meneses) – Até logo?

Luís – Ele demora-se.

Meneses – Mas, de agora em diante, pode acusar a quem quiser!...

Carolina – Eu só acuso a mim mesma, Sr. Meneses.

CENA IV

(Luís e Meneses)

Meneses – Pobre moça!... Quem diria que depois daquele delírio de prazer viria uma tão nobre e tão santa resignação!

Luís – Isto prova, Meneses, que nem sempre o mundo tem razão; que estas faltas que ele condena encerram, às vezes, uma grande lição. As mais belas almas são as que saem do erro purificadas pela dor e fortalecidas pela luta.

Meneses – Concordo; para Deus assim é, para o homem não.

Luís – Para os homens também. Eu hoje respeito e admiro a virtude de Carolina!

Meneses – Não duvido; há virtudes que se respeitam e admiram, mas que não se podem amar.

Luís – Por que razão?

Meneses – Porque o amor é um exclusivista terrível; foi ele que inventou o monopólio e o privilégio. Já vês que este senhor não pode admitir a concorrência nem mesmo do passado.

Luís – Julgas então impossível amar-se uma mulher como Carolina?

Meneses – Concedo que ela excite um desejo ou um capricho; mas um verdadeiro amor, não.

Luís – O que dizes é verdade se o amor aspira à posse; mas se ele é apenas um gozo do espírito?

Meneses – Não creio na existência de semelhante sentimento.

Luís – Entretanto é assim que amo Carolina.

Meneses – Ainda?

Luís – Mais do que nunca.

Meneses – E que futuro tem semelhante amor?

Luís – É justamente sobre isso que desejo conversar contigo. Araújo não deve tardar; mandei-o chamar!

Meneses – Se não me engano ouço a sua voz.

Luís – É ele.

CENA V

(Os mesmos e Araújo)

Araújo – Por que razão o teu criado não me quis deixar entrar pelo teu gabinete?

Luís– Foi ordem que lhe dei.

Araújo – Pois deves revogá-la... É maçada!...

Luís – É por hoje unicamente.

Araújo (a Meneses) – Como vais?

Meneses – Já me estás com uns ares de capitalista.

Araújo – Infelizmente são ares apenas.

Meneses – A realidade não tarda: o mais difícil já conseguiste, estás estabelecido.

Araújo – Por falar nisto, adivinha quem me apareceu hoje querendo que o tomasse para caixeiro do balcão.

Meneses – Quem?

Araújo – O Vieirinha.

Meneses – Ah!...

Luís – Fala mais baixo; Carolina pode ouvir-te.

Araújo – O engraçado, porém, é que depois do não redondo que lhe preguei na bochecha, a dois passos da porta foi recrutado.

Meneses – Não merecia essa honra. A missão de defender o seu país é muito nobre para ser confiada ao primeiro tratante que se agarra na rua.

Araújo – Que te importa isso? O país não ganhará um soldado, porém ao menos ensinará um velhaco.

Luís – Não percamos tempo. Senta-te!

Araújo – É verdade! Por que me mandaste chamar?

Luís – Para comunicar-te, e a Meneses, uma resolução minha.

Araújo – Que solenidade!

Luís – O objeto exige.

Araújo – Pois então fala de uma vez.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2526272829...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →