Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)
O pobre estudante ergueu-se com ligeireza, mas, na verdade, corrido do que acabava de sobrevir-lhe; as risadas continuavam, as terríveis consolações o atormentavam, todas as senhoras tinham saído do caramanchão e riam-se, por sua vez, desapiedadamente. Fabrício daria muito para livrar-se dos apuros em que se achava, quando de repente soltou também a sua risada e exclamou:
— Vivam as calças de Augusto!
Todos olharam. Com efeito, Fabrício tinha encontrado um companheiro na desgraça. Augusto estava de calças brancas, e a maior porção do café entornado havia caído neles.
CAPÍTULO XII
Meia hora embaixo da cama
Não tardou que Filipe, como bom amigo e hóspede, viesse em auxílio de Augusto. Em verdade que era impossível passar o resto da tarde e a noite inteira com aquela calça, manchada pelo café; e, portanto, os dois estudantes voaram à casa. Augusto, entrando no gabinete destinado aos homens, ia tratar de despir-se, quando foi por Filipe interrompido.
— Augusto, uma idéia feliz! Vai vestir-te no gabinete das moças.
— Mas que espécie de felicidade achas tu nisso?
— Ora! Pois tu deixas passar uma tão bela ocasião de te mirares no mesmo espelho em que elas se miram?... De te aproveitares das mil comodidades e das mil superfluidades que formigam no toucador de uma moça?... Vai!... Sou eu que to digo; ali acharás banhas e pomadas naturais de todos os países; óleos aromáticos essências de formosura e de todas as qualidades; águas cheirosas, pós vermelhos para as faces e para os lábios, baeta fina para esfregar o rosto e enrubescer as pálidas; escovas e escovinhas, flores murchas e outras viçosas...
— Basta, basta; eu vou, mas lembra-te que és tu quem me fazes ir e que o meu coração adivinha...
— Anda, que o teu coração sempre foi um pedaço d’asno.
E isto dizendo, Filipe empurrou Augusto para o gabinete das moças e se foi reunir ao rancho delas.
Ai do pobre Augusto!... Mal tinha acabado de tirar as calças e a camisa, que também se achava manchada, sentiu o rumor que faziam algumas pessoas que entravam na sala.
Augusto conheceu logo que eram moças, porque estes anjinhos, quando se ajuntam, fazem, conversando, matinada tal, que a um quarto de légua se deixam adivinhar; se é cediço e mesmo insólito compará-las a um bando de lindas maitacas, não há remédio senão dizer que muito se assemelham a uma orquestra de peritos instrumentistas, na hora da afinação.
Ora, o nosso estudante estava, por sua esdrúxula figura, incapaz de aparecer a pessoa alguma: em ceroulas e nu da cinta para cima, faria recuar de espanto, horror, vergonha e não sei que mais, ao belo povinho que acabava de entrar em casa e que, certamente, se assim o encontrasse, teria de cobrir o rosto com as mãos; e portanto, o pobre rapaz seguiu o primeiro pensamento que lhe veio à mente: ajuntou toda a roupa, enrolou-a, e com ela embaixo do braço escondeu-se atrás de uma linda cama que se achava no fundo do gabinete, cuidando que cedo se veria livre de tão intempestiva visita; mas, ainda outra vez, pobre estudante! Teve logo de agachar-se e espremer-se para baixo da cama, pois quatro moças entraram no quarto. E eram elas d. Joaninha, d. Quinquina, d. Clementina e uma outra por nome Gabriela, muito adocicada, muito espartilhada, muito estufada, e que seria tudo quanto tivesse vontade de ser, menos o que mais acreditava que era, isto é... bonita.
Depois que todas quatro se miraram, compuseram cabelos, enfeites e mil outras coisas que estavam muito em ordem, mas que as mãozinhas destas quatro demoiselles não puderam resistir ao prazer, muito habitual nas moças, de desarranjar para outra vez arranjar, foram, por mal dos pecados de Augusto, sentarse da maneira seguinte: d. Clementina e d. Joaninha na cama, embaixo da qual estava ele; d. Quinquina de um lado, em uma cadeira; e d. Gabriela exatamente defronte do espelho, do qual não tirava os olhos, em outra cadeira que, apesar de ser de braços e larga, pequena era para lhe caber sem incômodo toda a coleção de saias, saiotes, vestidos de baixo e enorme variedade de enchimentos que lhe faziam de suplemento à natureza, que com d. Gabriela, segundo suas próprias camaradas, tinha sido um pouco mesquinha a certos respeitos.
Depois de respirarem um momento, as meninas, julgando-se sós, começaram a conversar livremente, enquanto Augusto, com sua roupa embaixo do braço, coberto de teias de aranha e suores frios, comprimia a respiração e conservava-se mudo e quedo, medroso de que o mais pequeno ruído o pudesse descobrir: para seu maior infortúnio, a barra da cama era incompleta e havia seguramente dois palmos e meio de altura descobertos por onde, se alguma das moças olhasse, seria ele impreterivelmente visto. A posição do estudante era penosa, certamente; por último saltou-lhe uma pulga á ponta do nariz, e por mais que o infeliz a soprasse, a teimosa continuou a chuchá-lo com a mais descarada impunidade.
— Antes mil vezes cinco sabatinas seguidas, em tempo de barracas no campo! ... dizia ele consigo.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. A Moreninha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16667 . Acesso em: 1 jan. 2026.