Por Bernardo Guimarães (1872)
Eugênio passou uma noite febril entre cruéis insônias e ansiados pesadelos. Mal despontou a primeira alva do dia levantou-se e pôs-se à janela.
O dia levantou-se cheio de serenidade e esplendor. O sol que surgia por detrás das colinas do levante coroadas de arvoredos, brilhando através da ramagem, orlava o horizonte como de uma rede de ouro. Do lado fronteiro, em uma encosta longínqua, os troncos vetustos, que o machado respeitou aqui e acolá no meio de um vasto roçado, verberados pelos primeiros raios do sol pareciam colunas de bronze, que ficaram em pé no meio dos escombros de um templo derruído. Vapores diáfanos coloridos pelos fogos da aurora, erguendo-se da valada e despregando-se das colinas, dispersavam-se nos ares como pétalas de rosa que uma virgem desfolhasse às brisas da manhã. Os arbustos da vargem recamados de flores balanceavam-se brandamente ao sopro das aragens, e sacudindo da copa orvalhada uma chuva de pérolas abandonavam às auroras matinais as primícias de seus perfumes. Bandos de papagaios e periquitos garrulando alegremente atravessavam o espaço azul como nuvens de folhas verdes levadas pelo vento. Em derredor da casa também tudo era vida, prazer e animação. Tudo acordava pulando de alegria e de amor ao primeiro beijo do sol esplêndido do céu americano. Cada árvore era uma orquestra de pios, trinados e gorjeios, onde o sabiá, o gaturamo, o pintassilgo e outros mil passarinhos pareciam disputar entre si a palma da harmonia.
A viração trazia dos pomares aromas inebriantes de flores de laranjeira, de maracujá, de jambo e de jasmim, e do mato os suaves eflúvios que destilam uma multidão de plantas balsâmicas e flores sem nome, que vegetam à sombra de nossos bosques.
Entretanto, nessa hora de magia, de prazer e de esplendores, em que a terra parecia sorrir-se para o céu, que a envolvia em ondas de luz tépida e serena, só Eugênio estava triste, sombrio e abatido, só ele pendia para o chão a fronte esmorecida, como a planta mimosa que a geada crestou, e a quem o calor vivificante do sol, nem o beijo da brisa matinal pode mais reerguer o colo desfalecido.
O olhar do moço enfiava-se imóvel pelo longo do vale, que acompanhando o córrego entre dois espigões ia-se perder no pitoresco vargedo, em que se achava a casa de Umbelina. Um boleado da colina lhe encobria a casa desta, e apenas lhe acordavam n'alma tão suaves recordações, agora amarguradas pelo fel do presente.
Seu olhar estava fito sobre esses topes, sua alma conversava com eles, e lhes murmurava um doloroso adeus.
Largo tempo esteve ali Eugênio na mesma posição, mergulhado nas mais acerbas e pungentes reflexões. A energia dos sentimentos havia despertado com extraordinária precocidade na alma do mancebo, que apenas púbere já sentia fundamente todos os violentos transportes da paixão, todos os seus inefáveis gozos, e raladoras angústias.
Ao sair dali, Eugênio foi direito procurar sua mãe.
— Minha mãe, não poderei ao menos hoje ir à casa da tia Umbelina despedir-me dela e de Margarida? Sabe Deus se não será a última vez que tenho de vê-las!...
— Não fales assim, meu filho; Deus há de permitir que as veja ainda por muitos e muitos anos
— Não sei, minha mãe, mas...
— Mas o que queres lá fazer? temos muito que arrumar para a tua viagem, que é amanhã sem falta. Eu te desculparei para com elas...
— Oh! minha mãe! temos muito tempo para isso. Eu não me demorarei mais de uma hora, meia hora mesmo, se Vm. quiser. Tenho de me ir embora por seis ou sete anos, ou mais... talvez para sempre, e me ficará um grande prazer se lhes puder dizer adeus.
— Queres que te diga a verdade, meu filho?... desde o outro dia fiquei muito mal satisfeita com aquela gente, e a minha vontade é que nunca mais lá ponhas os pés. Se souberes o susto que raspei, quando soube que lá andaste metido em folias e batuques no meio de gente malvada!...
— Mas, minha mãe, a culpa foi minha.
— Bem sei, bem sei, mas se aquela comadre de uma figa tivesse mais juízo na cachola, e menos malícia no coração, não consentiria que parasses lá um só instante...
— Eu enganei-a, minha mãe, e ela acreditou que meu pai me tinha dado licença...
— Não creias tal; tão tola não é ela. Bem viu que foste fugido; acreditou-te porque lhe fez conta. É ela mesma que te anda seduzindo e te pondo a perder, ela e a minha boa afilhada que também — Deus me perdoe! — está ficando uma fresca jóia.
Eugênio compreendeu que era tempo perdido instar mais com sua mãe. Resignou-se e conformou-se com sua sorte. Para despedir-se de Margarida restavalhe ainda uma última esperança; essa abrigava-se debaixo do manto propício da noite, pela qual esperou com ansiedade.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.