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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Havia, porém, nesse afeto uma timidez que ela não podia definir. Ainda não recebera uma só carícia; quando solteira tomaria tais demonstrações como desacato. Mas agora o seu titulo de esposa as santificava. Parecia-lhe que seu marido devia ter o mesmo direito que seu pai, de beijar-lhe a face e estreitá-la ao peito.

Talvez Hermano se acanhasse, e não tivesse ânimo de tomar essa liberdade. Compreendia o seu enleio pela comoção, que tinha ela também, só de pensar nisso. Mais tarde viria a intimidade.

Então o espírito da moça lançava-se no vago, ansioso de perscrutar o desconhecido; e coligindo em suas recordações idéias outrora incompreensíveis, rastreava um pensamento que a fazia estremecer. Não sabia nada; não suspeitava; mas pressentiu.

Julgou-se humilhada, não somente em sua beleza, mas em sua dignidade de senhora.

Ao mesmo tempo outras circunstâncias concorriam para agravar a sua posição já melindrosa. Hermano, que a princípio se mostrava cheio de atenções e somente ocupado dela, agora tinha freqüentes distrações, sobretudo na mesa.

Seus olhos a evitavam, ainda mesmo quando lhe dirigia a palavra. Ficava por muito tempo calado e absorto. Às vezes no meio daquela concentração fitava a mulher, observava-lhe as feições com estranheza, e no seu semblante pintava-se a surpresa. Desviava então a vista; e de novo caía na sua abstração.

Uma manhã, Amália mandou mudar a disposição da mesa, colocando seu talher na outra cabeceira, para não ter o sol de face. Veio o marido, que tomou maquinalmente o seu lugar costumado. Pouco depois, reparando na alteração, lançou à moça um olhar de espanto; e saiu precipitadamente da sala, onde não voltou esse dia, dando-se por incomodado.

Amália adivinhou que era o lugar de Julieta na mesa. Hermano, não querendo que ela o ocupasse, lhe havia destinado outro. Daí a sua contrariedade. Não obstante a impressão que lhe causou o fato, a moça procurou disfarçar, e convidou o marido para jantarem nessa tarde à sombra das mangueiras.

O Abreu por seu lado continuava a ser para ela o mesmo homem de pau do primeiro dia. Em quinze dias, ainda não lhe tinha dirigido um olhar, nem uma palavra. Com a sua máscara impassível, isolava-se dela inteiramente.

Durante a viuvez de Hermano, foi o velho quem governou a casa, onde por seu intermédio as ordens de Julieta eram ainda executadas, como no dia em que ela as dera. Os outros criados obedeciam-lhe como a um chefe; e tinham-lhe senão mais respeito, decerto que mais temor do que ao amo. Era este que os pagava; mas era aquele que os alugava e os despedia.

A presença da nova dona da casa não alterou esse regime. Era preciso que alguém mandasse, e o ex-furriel levado pelo hábito ia determinando o serviço como dantes. Assim, quando Amália quis ensaiar a sua autoridade doméstica, achou uma resistência muda, mas tenaz.

Se mandava mudar um traste, ou fazer alguma leve alteração no arranjo da casa, ninguém lhe opunha a menor observação. Mas no outro dia as coisas voltavam ao estado anterior. Indagava a razão, os criados respondiam repetindo a palavra de Abreu: “É a ordem”. Isso queria dizer que assim se havia feito por vontade de Julieta.

Amália retraiu-se para evitar conflitos que a obrigariam a um ato de rigor. Muito a afligiria se a sua união com Hermano desse causa à expulção do velho criado, que era já um amigo da casa. Ela tinha bom coração; e lembrava-se de que o Abreu fazia aquelas coisas pelo muito amor à sua filha de criação.

Todavia, quando pensava na sua posição, não podia dissimular que era naquela casa uma intrusa, que estava ocupando o lugar de outra, não só nos atos da vida doméstica, mas também no coração do marido. A cada instante a realidade fazia-se, para mostrar-lhe que era demais ali.

D. Felícia não tardou em aperceber-se da tristeza da filha e interrogou-a. Nada colheu. Amália guardou o seu segredo. Não queria afligir a mãe; e ainda menos expor Hermano a uma censura ou queixa, que talvez ainda mais o separasse dela.

Uma noite, porém, a inquietação materna venceu o delicado escrúpulo da sogra, e D. Felícia, tomando à parte Hermano, perguntou-lhe o que tinha Amália:

— Nada. Ela queixou-se?

— Não, e é o que mais me aflige. Pois ainda não reparou na mudança que ela tem feito nestes últimos dias?

A senhora mostrou-lhe de longe a moça, que nesse momento, sentada de perfil e pensativa, era a mais bela estátua da melancolia que um artista poderia imaginar. O marido ficou a olhá-la compassivo.

— Eu lha dei, Hermano, para fazê-la feliz.

— E é o meu ardente desejo; e se bastasse o meu amor!...

A entrada do Sr. Veiga pôs termo a esse diálogo. D. Felícia aproximou-se da filha e tentou ainda surpreender a causa daquela mágoa. Desta vez não fez nenhuma pergunta direta; indagou disfarçadamente de mil coisas a ver se descobria algum arrufo. A moça, porém, não manifestava a mais leve sombra de ressentimento.

Eram dez horas.

Amália estava só e pensava no seu destino, quando Hermano veio, como costumava, sentar-se perto dela. Conversaram algum tempo.

— Anda triste, Amália? disse por fim o marido.

— E não tenho razão, Hermano?

(continua...)

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