Por José de Alencar (1872)
- É verdade. Desculpe-me; não me lembrava assim de repente. Depois lhe darei uma flor para servir de modelo.
- Esta que a senhora tem?
- Esta ou outra, é indiferente, observou a moça com intenção.
Bastos perturbou-se, e nesse intervalo a atenção de Guida se desviou para outro lado, de modo que achou-se o corretor outra vez na mesma posição cruel em que estava anteriormente, recostado à janela e atado ao seu acanhamento, que era para ele um rochedo de Tântalo.
No meio das paixões que se agitavam em torno dela, Guida conservava, devido a seu recato e altivez natural, uma grande serenidade. Quando alguma vez uma palavra mais significativa ou uma alusão mais direta a vinha provocar, ela a afastava com a sua ironia, ou com essa expressão de indiferença que perturbava o Bastos.
Assim permanecia estranha à luta de que era objeto. Sua alma pura planava como um astro sobre as vagas que a ambição ou o amor sublevavam naqueles corações. As bonanças, como as tempestades, desse oceano, se eram produzidas por sua influência celeste, não a atingiam: ela brilhava sempre com o mesmo esplendor e a mesma limpidez.
Em princípio, suas palavras, seus olhares, seus menores gestos, eram estudados por adoradores, como por indiferentes, e interpretados ao sabor de cada um. A moça incomodava-se muito com isso; retraía-se; tornava-se cada vez mais reservada, constrangendo sua jovialidade e franqueza. Não obstante o círculo em que vivia, obstinava-se em dar a quanto ela dizia ou fazia, uma significação oculta misteriosa.
Uma noite sucedeu dançar duas quadrilhas com o mesmo par; tão indiferente lhe era o sujeito que não se lembrou de já ter dançado com ele no princípio da partida. O fato foi muito comentado, até por algumas amigas, que viram nele uma preferência manifesta. Guida aproveitou a ocasião para de uma vez pôr termo a essa insistência que a afligia.
- Tenho muito tempo para ser moça. Agora ainda sou criança e quero sê-lo até dezoito anos. Não cuido nessas coisas de que os outros tanto se ocupam; só penso em divertir-me. Para mim é indiferente o par com quem danço, desde que for um homem delicado, de boa sociedade. E assim quanto ao mais.
Estavam presentes Nogueira, Bastos, Guimarães, e muitos outros apaixonados ocultos. Momentos depois as palavras da moça, repetidas em vários grupos, eram conhecidas por todos.
Guida dizia a verdade. Se era já moça na flor da beleza e na graça, tinha contudo a ingênua isenção da menina. Seu coração ainda estava em botão; seus pensamentos, embora alguma vez se embalassem nos sonhos azuis de um futuro risonho, eram em geral absorvidos pelo estudo, ou pelo prazer dos passeios e divertimentos inocentes.
Não brincava mais com bonecas, é verdade; suas bonecas eram “Edgard” e “Sofia”, ou as flores de seu jardim. Mas também ninguém a via tomar ares melancólicos e atitudes pensativas, suspirar a cada instante, ou recitar poesias de amor, acentuando as frases apaixonadas do poeta. Em uma palavra, não era romântica. Tinha a suas amigas afeição sincera; mas não lhes emprestava a linguagem ardente, que afetam certas moças, e que faz supor, sob pretexto de amizade, a expansão de algum amor oculto, ou pelo menos de um amor ideal criado pela imaginação.
Por isso dificilmente podiam os adoradores de Guida iludir-se a respeito de sua indiferença. As palavras da menina não tinham sentido ambíguo, nem misteriosa alusão; o olhar, o sorriso, o gesto eram transparentes e não conheciam o jogo cruel de semear esperanças e excitar desejos, para depois machucá-los, como as flores ou as fitas que se trouxe no cabelo.
Assim o espírito sério de Nogueira não se deixava embair por seu amor-próprio; ele acreditava que Guida não dava a menor preferência a qualquer de seus adoradores; mas pensava que de repende podia seu coração desabrochar, e nesse momento se despertariam as impressões gravadas n’alma da menina. Toda sua tática se limitava a imprimir no espírito de Guida, como em uma cera branda, a admiração por seu talento e a confiança em seu futuro brilhante.
Mas, apesar de hábil, o futuro deputado estava apaixonado pela moça, e tanto bastava para tirar-lhe a calma necessária de seu plano. Assim, na ocasião do almoço, ouvindo referir o incidente do serviço prestado por Nunes, tivera uma suspeita; e para esclarecê-la fizera a propósito da flor uma alusão que lhe valera a réplica irônica da moça.
Arrependera-se e esperava a primeira ocasião para desvanecer a desagradável impressão.
Eram estas cismas que ainda o preocupavam no jardim, enquanto fumava o segundo charuto:
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.