Por José de Alencar (1875)
— Não, nem disse nada à minha mãe para não afligí-la. O mais curioso, porém, é que o tal sujeito que me livrou dava uns ares com Arnaldo.
— Devéras?
— Eu não lhe vi a cara, porque êle tinha um lenço de rebuço, e também foi um relance, enquanto montava. Mas o corpo, nunca vi coisa mais semelhante. — Que me está dizendo, meu querubim?
D. Flor fez uma pausa de hesitação, ao cabo da qual fitou os olhos na ama:
— Quem sabe se não era mesmo meu colaço, mamãe Justa?
—Êle? Arnaldo? Que idéia! se andava tão longe, por êste sertão a dentro! Capaz de fazer o que o outro fez, isso sim; e mais, e muito mais, por meu querubim, que êle é meu filho e criou-se nestes peitos.
— Não podia ser êle! disse Flor com a voz lenta, e recaindo na cisma anterior.
Porventura seu espírito, recordando o fato e combinando-o com a notícia da ausência que Arnaldo fizera da fazenda, laborava em dúvida, a-pesar-da denegação que lhe escapara dos lábios.
Ouviu-se um manso balar e um piso rijo, mas compassado. Com pouco apareceu na porta que dava para a cozinha uma bonita cabra rajada, das maiores que se criavam naqueles pingues sertões.
Ao avistá-la, Justa estendeu a mão dizendo:
— Ande cá, comadre: venha dizer adeus à sua filha, que você ainda não viu.
A cabra como se entendesse a sertaneja, caminhou com passo lento e grave qual convinha a uma matrona e veio apoiar a cabeça na espádua a donzela que abraçou e acolheu com meiguices ao lindo animal.
— Adeus, mamãe bebé, como passou? Vamos a saber… Teve saudades de sua filha? Qual! Você é uma ingrata!
D. Flor que levantava com a mão esquerda a cabeça da cabra para falar-lhe, fez com o índice da mão direita um gesto risonho de ameaça infantil:
— Por que não me foi encontrar no terreiro com sua comadre, quando eu cheguei?
— Estava esperando por Arnaldo, observou a Justa. É um faro que ela tem para conhecer aquele filho, que é uma coisa por maior. Desde transanteontem à tarde, quando minha filha chegou, que ela começou a chamar, a chamar, e não saíu mais lá do cocoruto à espera dele.
— Então a senhora quer mais bem a êle do que a mim? atalhou a donzela voltando-se para a cabra com uma feição graciosa que debalde pretendia tornar-se em carranca.
— É para pagar o mais que eu lhe quero a você, meu querubim, replicou Justa rindo-se.
— Não deve ser!
— Mas se é!
Flor dirigiu-se outra vez à mamãe bebé.
— E que notícias me dá de seu querido, dona? Bem mostra que é seu filho; ingrato como a mamãe.
— Ela que apareceu, é que Arnaldo não tarda por aí.
A cabra fitou seus olhos de topázio cheios de inteligência na donzela; volveu a cabeça para fora e afastando-se com o mesmo passo cadente foi colocar-se no meio da varanda, voltada para a porta.
Aí ficou imóvel até que, decorridos instantes, ergueu a pata dianteira e começou com ela a bater no chão, recuando a passo e passo para logo depois avançar e retrair-se de novo. Afinal caminhou direito à porta.
Arnaldo pisava a soleira.
O sertanejo dos dias antecedentes, o filho do deserto, livre e indômito como o cervo das campinas, ficou lá fora. Quem entrou foi um mancebo tímido e acanhado no qual todavia a aparência rústica do trajo e o enleio do gesto não escureciam a nativa beleza do perfil e o molde airoso do talhe.
O filho e a mãe abraçaram-se estreitamente no meio da varanda, onde se encontraram correndo um ao outro. Depois dêsse desafôgo das saudades, Justa voltou ao estradinho levando o filho pela mão até o lugar onde ficara D. Flor.
— Adeus, Arnaldo! disse a donzela com ingênuo prazer.
O sertanejo parado em face da donzela com os olhos baixos e respondeu em voz submissa:
— Adeus, Flor.
Ou por espontâneo movimento, ou para subtrair-se ao enleio dessa posição, Arnaldo voltou-se para a cabra que lhe seguira os passos, e estendeu-lhe as mãos. O carinhoso animal pousou nas palmas de seu filho de leite as patas dianteiras, e daí com um salto alcançou-lhe as espáduas.
Ficaram assim os dois abraçados. Arnaldo prolongava de propósito a carícia, perplexo sôbre o que devia fazer. Por fim a cabra separou-se e foi sentar-se defronte no seu canto, com os olhos fitos no grupo.
— E a mim não se abraça? perguntou D. Flor a sorrir.
Arnaldo estremeceu. Vendo-o atônito e mudo, Justa impeliu-o ao de leve pela mão.
— Anda daí, Arnaldo; abraça tua colaça. Estás tonto da viagem?
— Deixe-o; eu vou abraçar mamãe bebé, disse a donzela, zombando do vexame de seu irmão de leite.
— Ora vejam que partes! insistiu a ama.
Levantando-se passou o braço pela cintura de cada um, obrigando-os ambos a aproximarem-se.
D. Flor pousou timidamente a mão no ombro do rapaz e sua cabeça roçando-lhe o peito ouvia-lhe as rijas e violentas palpitações. Quando desprendeu-se do rápido abraço leve rubor carminou-lhe as níveas faces; mas apagou-se logo no gesto da linda fronte, a qual erguera-se com a expressão altiva e senhoril que era o toque de sua beleza.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.